| Orlando Britto |
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| Geraldo Alckmin:
Apoio maciço nos Estados agrícolas e nos centros industriais
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O
Brasil dividido
O País rachou. O
consumo popular deu votos a Lula no Norte e a crise industrial
ajudou Alckmin no Sul. Quem vai unir os dois pontos?

Por Leonardo Attuch e
Octávio Costa
O Brasil se viu dividido na segunda-feira 2. Assim que se
proclamou o resultado das eleições para presidente
da República em primeiro turno, uma linha diagonal
cruzou o Brasil do Acre ao Rio de Janeiro, como num novo Tratado
de Tordesilhas. As regiões Norte e Nordeste seriam
a “América” de Lula. Centro-Oeste, Sul
e grande parte do Sudeste são o continente de Geraldo
Alckmin. Nesse corte transversal, os votos de Lula estariam
na metade superior e os do candidato tucano na metade inferior.
Diante de um corte tão nítido, muito se especulou
sobre o antagonismo entre um Brasil educado e um Brasil sem
instrução. Ou, com boas doses de preconceito,
entre um país moderno e sua porção arcaica.
Era a volta do mito Belíndia, criado pelo economista
Edmar Bacha nos anos 70 para dividir o Brasil numa fração
Bélgica e numa metade Índia. Mas o que explica
a clivagem atual não é a sociologia e muito
menos a diferença educacional. É, mais uma vez,
a economia. “Essa eleição voltou a mostrar
que a parte mais sensível do eleitor é o bolso”,
interpreta o economista Flávio Castelo Branco, da Confederação
Nacional da Indústria. Explica-se: enquanto Nordeste
e Norte vêm crescendo bem acima da média nacional,
graças à expansão do poder de compra
das classes menos favorecidas (leia reportagem nesta edição),
as regiões mais industrializadas e voltadas para o
agronegócio padeceram diante do câmbio valorizado
e dos juros altos.
| Joedson Alves |
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| Lula: Eleitorado
fiel no Nordeste, onde há mais programas sociais |
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O primeiro a criticar a análise maniqueísta
sobre o resultado das urnas foi o próprio presidente
Lula, que teve 48,6% dos votos. “Não existe eleitor
de primeira ou segunda classe”, disse ele, ao conceder
uma rápida entrevista coletiva na segunda-feira 2.
Na prática, Lula quis indicar que um eleitor do Paraíba
ou do Piauí respondeu a estímulos tão
racionais quanto um eleitor de São Paulo ou do Rio
Grande do Sul. Votou de acordo com a sua própria percepção
de bem-estar, o que se explica em números. Em vários
estados do Nordeste, as vendas do comércio cresceram
mais de 10% nos últimos doze meses – quase o
dobro da média nacional. E isso não é
fruto apenas de um programa como o Bolsa Família, que
liberou R$ 8 bilhões neste ano. A inflação,
que poderá ficar abaixo de 3% neste ano, potencializou
os ganhos de renda das classes C, D e E. Além disso,
hordas de turistas estrangeiros têm invadido as praias
nordestinas – o salto da receita cambial com o turismo
na região foi de 87,2%. “O Nordeste e o Norte
serão os focos principais dos nossos investimentos”,
revela Alberto Ribeiro, diretor de desenvolvimento da Accor
Hotels. Ao todo, serão gastos US$ 900 milhões
em cidades São Luís, Petrolina, Campina Grande
e Manaus. O Amazonas, aliás, é um caso à
parte. Lá, Lula teve 77% dos votos e, não por
acaso, a produção industrial vem crescendo 12%
ao ano. E como as empresas da Zona Franca usam muitos insumos
importados, o câmbio valorizado não chega a ser
um problema.
As transferências do Bolsa Família, somadas
aos ganhos reais do salário mínimo, criaram
uma dinâmica de consumo em muitos estados do Nordeste.
A Bahia, onde estão concentradas 13% das famílias
atendidas pelo programa, é um deles. Lá, a rede
de varejo A Insinuante cresceu 50% no ano passado e atingiu
um faturamento de US$ 700 milhões. Enquanto isso, a
Casas Bahia, que apesar do nome está concentrada no
Sudeste, decidiu frear o ritmo de expansão, porque
as vendas caíram 5% no primeiro semestre. O que explica
tanta divergência? Um trabalho recente do Instituto
de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), liderado pelo
economista Ricardo Paes de Barros, lançou algumas luzes
sobre a questão. Ele revela que se a população
brasileira pobre vivesse num país imaginário,
a taxa de crescimento seria próxima a 20%. “A
percepção dos pobres é de estar vivendo
num país com alto nível de crescimento econômico,
enquanto a dos ricos é de viver num país em
crise”, diz o estudo. Isso mostra que, nas regiões
mais dependentes da ação do Estado, o eleitor
reagiu favoravelmente a Lula. E isso ocorreu também
em estados que receberam grande volume de investimentos estatais,
como o Rio de Janeiro, onde está a Petrobras.
| Roberto
Castro |
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Tratoraço:
Onde a agropecuária
é forte, Lula perde votos |
Turismo:
Fluxo de estrangeiros
no Nordeste cresceu 87,2% |
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Fenômeno totalmente diverso ocorreu nos principais
redutos eleitorais de Geraldo Alckmin, onde há mais
empreendedorismo privado e a economia depende menos de estímulos
diretos do Estado – a não ser na questão
macroeconômica. Isso vale para o Centro-Oeste, o Sul
e grande parte do Sudeste, onde o candidato tucano chegou
a abrir até 20 pontos de vantagem em relação
a Lula. Um bom exemplo foi o Rio Grande do Sul, cuja economia
vem encolhendo há alguns anos. A perda de fôlego
sacrifica a indústria de máquinas e equipamentos,
mobiliário e de calçados. Em Caxias do Sul,
a produção de máquinas agrícolas
não resistiu à crise do campo. De janeiro a
julho desse ano, a indústria do gaúcha recuou
3,9% e a produção cai há dez meses seguidos.
Entre o primeiro semestre de 2005 e o de 2006, o emprego industrial
despencou 9,1%. Nesse ambiente hostil, é natural que
o eleitor desconte seu desapontamento nas urnas. No Paraná
e em Santa Catarina, a situação não é
tão dramática, mas os sintomas também
são de desaceleração econômica.
Segundo dados do IBGE, no Paraná a produção
industrial caiu 3,7% e o emprego, 3,3%. “Temos uma economia
muito voltada para a exportação e somos vítimas
desse câmbio”, diz Rodrigo Loures, presidente
da Federação Industrial do Paraná. No
Centro-Oeste, a crise do agronegócio é ainda
mais grave e os produtores rurais perderam R$ 30 bilhões
em dois anos. “Os custos subiram muito e ninguém
conseguiu fechar as contas”, afirma o superintendente
técnico da Confederação Nacional da Agricultura,
Ricardo Cotta. “O recado foi claro: onde a agropecuária
é forte, Lula perdeu votos”, diz ele.
Apesar da mensagem tão evidente das urnas, o diagnóstico
só foi captado em parte pelos dois candidatos. Lula
e Alckmin vislumbraram no mapa as regiões onde faltou
voto e iniciaram uma maratona de articulações
políticas. Lula, por exemplo, reforçou a sua
campanha em São Paulo, ao delegar o comando à
ex-prefeita Marta Suplicy. Alckmin, por sua vez, buscou o
apoio de Anthony Garotinho no Rio de Janeiro, o estado do
Sudeste onde teve seus piores resultados. No entanto, nenhum
dos dois apontou caminhos econômicos para os eleitores
que pertencem ao “Brasil” do adversário.
Lula não disse como pretende encerrar a crise do agronegócio
e Alckmin não emitiu sinais de como pretende dinamizar
a rede de proteção social no Nordeste. E a chave
para o vitória, ao que tudo indica, será construir
pontes econômicas entre os dois eleitorados. A equipe
de Alckmin acredita que, com um “choque de gestão”,
será possível reduzir impostos e juros, retirando
as amarras do crescimento. Os assessores de Lula vendem a
idéia de que um segundo mandato teria um viés
mais “desenvolvimentista” do que o primeiro. O
fato é que, no dia 29 de outubro, o eleitor mais uma
vez votará com o bolso. 
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