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André Linn/AE

Os brasileiros já podem prosperar em Buenos Aires sem burocracia. E o inverso também vale.

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Que venham os argentinos!


Por ivan martins

O historiador Moniz Bandeira diz que os brasileiros não percebem a importância e os avanços do Brasil. Residente na Alemanha, cada vez que passa uns dias no País, como sempre faz, irrita-se com a pressa brasileira em criticar e se queixar de tudo, sobretudo do Mercosul. Com um pouco de atenção é possível perceber que ele tem razão. O acordo de integração entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, que responde por parte relevante do PIB desses países, é um dos alvos favoritos da má vontade nacional. Ora se diz que não serve para nada. Ora se diz que é nocivo aos interesses do Brasil. Cada vez que um presidente argentino investe contra os em presários brasileiros, o que é freqüente, alguém pede para acabar com a palhaçada. Isto é, acabar com o Mercosul. Há um excesso de impaciência nisso tudo. Dias atrás, quando a Venezuela ingressou no bloco, ergueu-se uma onda de ressalvas à figura do presidente Hugo Chávez – esquecidos, os céticos, que os presidentes passam e os países ficam, e que a geografia, ao contrário das ideologias, é eterna.

Típico dessa atitude meio intolerante é o fato de ter passado sem destaque, na semana passada, um tremendo avanço na constituição do Mercosul. Entrou em vigor um novo acordo bilateral entre Brasil e Argentina que finalmente trata de pessoas, não de mercadorias. Ele estabelece que a partir de agora um cidadão argentino poderá se fixar no Brasil, trabalhar e fazer negócios sem limitações ou burocracia. Basta apresentar um documento de identidade e uma certidão negativa de antecedentes criminais para obter um visto temporário de dois anos – que, vencido o prazo, será transformado em permanente. Vale o mesmo para os brasileiros na Argentina. Os serviços de imigração não podem mais negar residência, exceto por razões judiciais. Se alguém quiser deixar de ser pobre em São Paulo para sê-lo em Buenos Aires, pode. Se o sonho for empreender do outro lado da divisa, também pode. Isso significa que as fronteiras ficaram muito mais permeáveis. Significa, também, que um número estimado em 20 mil brasileiros e suas famílias terão suas vidas facilitadas na Argentina. Deste lado, algo como 60 mil argentinos, dos quais uma boa parcela ilegal, poderão integrar-se à vida brasileira sem mais perturbações. Poderão ter carteira de trabalho, pagar impostos, recolher aposentadoria, comprar e vender. Tudo, exceto votar, direito reservado aos nativos.

O impacto econômico direto dessa medida ainda não foi mensurado, mas não parece ser o mais importante. O impacto social de longo prazo desse tipo de decisão é o que importa, inclusive na economia. Os argentinos, embora tenham universidades meio caóticas, formam profissionais de excelente qualidade, em várias áreas. Essas pessoas, movendo-se em maior número em direção ao pólo de atração da economia brasileira, certamente farão diferença positiva. No caso da economia argentina, três vezes menor que a nossa, talvez a grande contribuição brasileira seja a cultura de negócios. Os empreendedores brasileiros parecem ter se adaptado antes e melhor às vicissitudes do mercado global e suas duras regras de competição. Isso é algo que o intercâmbio de longo prazo pode ensinar aos argentinos. Ninguém imagina que os brasileiros vão torcer pelo Boca Juniors e que os portenhos saberão onde fica o Parque Antártica, mas a facilidade de trânsito e residência vai provocar – no longo prazo – uma síntese mais intensa entre as duas culturas. O professor Moniz Bandeira, estudioso das relações internacionais, costuma dizer que o Brasil, embora grande, só pode aspirar alguma influência internacional se conseguir organizar ao seu redor um espaço econômico mais amplo. Isso passa necessariamente pela construção do Mercosul. E a construção do bloco exige, necessariamente, liberdade de trabalho e de movimento. Em breve, quando os Parlamentos do Paraguai e do Uruguai ratificarem o mesmo acordo de imigração, a liberdade de residência será estendida a eles. E aos brasileiros nesses países. Alguns podem se assustar com a idéia, mas ela é boa. Os Estados Unidos, economia mais próspera do mundo, é também aquela que mais e melhor absorve imigrantes. Como potência local, cabe ao Brasil, na América do Sul, a mesma tarefa e o mesmo privilégio – o de oferecer um porto para os talentos que vicejam a nossa volta. E prosperar com eles.