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João Doria Jr.
"Relacionamento é tudo na vida"
Empresário que criou o maior clube empresarial do País explica por que o networking é tão importante para realizar negócios e para criar laços duradouros entre executivos


Por carlos josé marques e leonardo attuch

O jornalista e empresário João Doria Jr. é um talento precoce. Aos 13 anos, ele já trabalhava na Ogilvy, uma das principais agências de publicidade do País. Aos 18, era chefe na antiga TV Tupi. Aos 21, ocupava uma secretaria municipal de São Paulo e Mário Covas, então prefeito, o chamava carinhosamente de “Menudo”. Um ano depois, Doria assumiu a presidência da Embratur. Hoje, aos 49, ele está à frente de um fenômeno corporativo. É o Lide, grupo de líderes empresariais que já abriga 362 companhias com faturamento anual superior a R$ 200 milhões e, na prática, funciona como um clube de relacionamento entre donos de empresas e altos executivos. Nas suas reuniões periódicas, esses capitães da indústria, do comércio e do agronegócio sentam-se em torno de um palestrante – do governo ou da iniciativa privada – e trocam cartões, discutem os rumos do País e, muitas vezes, acabam até fechando negócios. Eis a lógica do chamado networking, que Doria soube explorar de forma única no País. “O relacionamento é hoje um fator decisivo na vida empresarial”, disse ele à DINHEIRO, na sede da Doria Associados, no edifício mais nobre da avenida Faria Lima, em São Paulo. Leia a seguir os principais trechos da sua entrevista.

DINHEIRO – Por que o chamado networking, essa rede de relacionamentos, se tornou tão importante no mundo dos negócios?
JOÃO DORIA JR.
– Isso se deve ao espírito latino. Os brasileiros e os latino-americanos valorizam muito o relacionamento pessoal. O olho no olho, o contato e uma relação afetiva representam um fator determinante para se fechar ou não um negócio.

DINHEIRO – É uma peculiaridade latina?
DORIA
– Aqui ela é mais destacada. Nos países de origem anglo-saxã, a relação é mais fria e mais formal. Analisa-se o negócio em si e ponto final.

DINHEIRO – Aqui é diferente?
DORIA
– Em parte. Sempre se analisa a viabilidade econômica, o custo-benefício, a capacidade de entrega e todos os fatores que cercam um negócio. Mas o bom relacionamento pode ser o fator de desempate. É a ponte que agiliza o entendimento entre as partes e que ajuda a corrigir os problemas que, circunstancialmente, podem surgir. Quando as partes se conhecem, elas sabem com quem tratar em caso de dificuldade, o que é muito melhor do que lidar com um ente frio ou abstrato.

DINHEIRO – Dá-se preferência a quem já se conhece?
DORIA
– O empresário não fará jamais um negócio com uma pessoa de seu relacionamento pior do que aquele que ele faria com alguém desconhecido. Mas eu tenho 100% de certeza de que, em condições iguais, terá preferência aquela pessoa com quem o empresário se relaciona bem.

DINHEIRO – Na hierarquia, vem então o bom negócio com quem se conhece, o bom negócio com quem não se conhece e só depois um negócio regular com um conhecido.
DORIA
– A escala é correta. Mas é difícil que o empresário faça um negócio regular só porque do outro lado da mesa está um amigo. Esse tempo já passou.

DINHEIRO – Qual o melhor caminho para se criar uma boa rede de contatos?
DORIA
– O jeito mais fácil e eficaz é ser um membro atuante do Lide. Mas, brincadeira à parte, existem algumas regrinhas básicas. A primeira é freqüentar reuniões associativas ou empresariais. Um empresário, mesmo que seja o mais eficiente em seu setor, só tem a perder se decidir adotar uma postura omissa em relação aos interesses do seu segmento. Alguém estará atuando no lugar dele.

DINHEIRO – Afora a presença nos encontros, qual a etiqueta básica para se relacionar bem?
DORIA
– Eu diria que retornar as ligações em no máximo três dias é essencial. A pessoa pode ser breve, mas tem que ser atenciosa. Pode ser objetiva, mas tem que responder. Isso é fundamental.

DINHEIRO – E quando surge uma proposta de um negócio indesejado?
DORIA
– Seja sincero. A sinceridade nunca machuca. O que machuca é a falta de resposta. Isso gera desgaste. Ninguém fica incomodado em receber um não, desde que ele seja educado e franco.

DINHEIRO – O que mais é importante?
DORIA
– Nunca incomodar sem que haja uma razão concreta para isso. O executivo ou empresário deve ter consciência da importância do tempo do outro. O negócio que se oferece ou o pedido que se faz devem ter legitimidade. O relacionamento só deve ser usado para algo que crie valor para os dois lados.

DINHEIRO – E os concorrentes? Eles devem sentar à mesma mesa?
DORIA
– Os empresários devem exercer a concorrência na plenitude, devem disputar o mercado, mas devem ser leais. Para que a lealdade exista, é preciso que haja canais de comunicação. E, muitas vezes, existem assuntos de interesse comum que em nada desrespeitam o consumidor ou ferem os princípios da competição. É para isso que existem as entidades de classe.

DINHEIRO – Como começou o Lide?
DORIA
– Foi há 11 anos. Nos intervalos do Show-business, meu programa de entrevistas com empresários, eu percebia que o executivo A gostaria de conhecer o B, que gostaria de conhecer o C, que gostaria de conhecer o D. Foi essa constatação que me deu o incentivo para realizar o primeiro encontro empresarial, que eu chamo de “meeting”, em 1995. O Lide foi uma conseqüência disso e acabou nascendo há três anos, em junho de 2003, quando já havia massa crítica. E hoje há, pelo menos, um evento por mês. Até porque relacionamento é constância.

DINHEIRO – Sem isso, esfria?
DORIA
– Claro. Isso vale para tudo. Até casamento.

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