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Lakshmi Mittal: Determinação da CVM pode causar problema de US$ 5 bilhões a seu grupo.
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O jogo duro de Mittal
Terceiro homem mais rico do mundo, o indiano Lakshmi Mittal, dono de várias siderúrgicas, veio ao Brasil lutar contra uma decisão da CVM. À DINHEIRO, ele falou e explicou as suas razões


Por Gustavo Gantois

Uma das lendas mais conhecidas da mitologia hindu é a de Ganesh, que remove qualquer obstáculo. O indiano Lakshmi Mittal, dono da Mittal Steel, maior siderúrgica do mundo, vive em Londres há 30 anos, mas é fiel às origens. Na semana passada, em sua primeira visita ao Brasil, ele trouxe um amuleto. Era um escapulário com a imagem de Ganesh, um deus representado com tromba de elefante. Essa era apenas mais uma peça no arsenal de Mittal para dobrar o governo brasileiro. Depois de desembolsar US$ 38,3 bilhões para fundir a Mittal com a francesa Arcelor, que controla no Brasil empresas como Belgo-Mineira, CST e Vega do Sul, o bilionário indiano pode ver esse negócio naufragar por conta de uma decisão da Comissão de Valores Mobiliários. Encarregada de proteger os acionistas minoritários das siderúrgicas nacionais, a CVM cobra de Mittal uma oferta pública pelas ações negociadas no País – tal qual aconteceu na Europa. Se essa decisão se confirmar, a transação ficará US$ 5 bilhões mais cara. Mittal, porém, não trata o negócio como uma aquisição. “É uma fusão de iguais”, disse, com exclusividade, ao editor Leonardo Attuch, da DINHEIRO, na única entrevista que concedeu (abaixo).

Foto: Roberto Castro
Mittal e Lula: reunião no Palácio às vésperas de uma decisão da CVM.

Seja como for, Mittal não poupou esforços no périplo. Depois de passar pelo Espírito Santo, onde fica a sede da CST, ele foi ao escritório de Sérgio Rosa, presidente da Previ, maior fundo de pensão do País, no Rio de Janeiro. Dona de 4,61% das ações da Arcelor Brasil, a Previ é a principal acionista minoritária da nova subsidiária de Mittal. E também a que demonstra mais ânimo para lutar por uma oferta pública. “Enquanto os sócios europeus receberão 31% em dinheiro e 69% em ações da nova empresa, os brasileiros ficarão sem nada?”, questiona Ordélio Azevedo Sette, advogado da Previ. “Foi uma aquisição mascarada e faremos valer os nossos direitos.” A conversa entre Mittal e a Previ foi amigável. Apenas isso. O indiano não obteve nenhum sinal de amolecimento. Em seguida, foi ao BNDES, que possui 1,2% das ações, sendo recebido pelo presidente, Demian Fiocca. Mais um encontro amistoso. Depois, veio a parada mais dura: a reunião na CVM, com o presidente, Marcelo Trindade. Ao deixar a autarquia, Mittal se disse confiante. Mas o corpo técnico da CVM não gostou nada da visita. Ficou a nítida impressão de que Mittal, terceiro homem mais rico do mundo, dono de uma fortuna de US$ 25 bilhões, veio colocar pressão política sobre uma agência independente. E a impressão de que se tratava de lobby político apenas se reforçou na terça-feira 22, quando Lakshmi Mittal, sempre ciceroneado por Roger Agnelli, da Vale do Rio Doce, foi recebido pelo presidente Lula, em Brasília.

Para azar de Mittal, um contencioso dessa magnitude não se resolve a portas fechadas, dentro de palácios. De acordo com a lei, a CVM tem até a quarta-feira 30 para responder se vai acatar ou não o pedido de Mittal. Se a obrigação for mantida, o caso segue para o colegiado da autarquia, que promete uma resposta rápida. “É necessário ser ágil, pois há muito em jogo para os investidores”, disse Trindade. Para a CVM, Mittal precisa comprar as ações dos acionistas minoritários devido aos estatutos da Arcelor Brasil, que foram reescritos quando a Arcelor fundiu seus ativos brasileiros em uma única empresa. Mittal rejeita a exigência afirmando que, de acordo com o plano da “aliança”, ele terá menos da metade das ações da Arcelor mundial, o que tornaria desnecessária a compra das ações dos minoritários. Nessa guerra, porém, os fundos de pensão já contam até com pareceres de advogados de Luxemburgo, sede da Arcelor, confirmando a tese de aquisição.

O mais intrigante na história é que o recurso protocolado pela Mittal junto à CVM foi feito sem o conhecimento da própria subsidiária nacional. “Eu não sabia do pedido”, disse José Armando Campos, presidente da Arcelor Brasil. E mesmo assessores próximos de Mittal em Londres foram pegos de surpresa – a viagem não estava prevista na agenda. Ainda assim, Marcelo Trindade não deve facilitar o jogo. “Poucos casos analisados por autoridades reguladoras têm sucesso nos tribunais”, disse o presidente da CVM, sinalizando que não verá com bons olhos uma contestação na Justiça por parte de Mittal.

Entre seus pares na siderurgia, o indiano desperta inveja e preconceito. À época da fusão com a Arcelor, o então presidente do grupo francês, Guy Dollé, destilou veneno e referiu-se à Mittal Steel como uma empresa “cheia de indianos”. E disse ainda que Mittal queria comprar a siderúrgica européia com o que os franceses chamam de monnaie de singe. A expressão significa “dinheiro de monopólio”, mas a tradução literal é “dinheiro de macaco”. Mittal respondeu de forma irônica. “São comentários frívolos”, disse. No Brasil, a sua presença ainda é novidade. Até a fusão com a Arcelor, ele era conhecido apenas como o magnata do aço. A partir de agora,
o nome de Lakshmi será uma presença mais constante nas reuniões de acionistas e planos de investimentos. Mas ele deverá enfrentar problemas semelhantes aos que passou na Europa. “Levamos décadas para estruturar nossa indústria siderúrgica”, ataca um grande empresário do setor. “E é claro que a presença dele não é muito confortável”.

US$ 25 bilhões é a fortuna pessoal do magnata indiano Lakshmi Mittal