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Eles não gostam do jeitinho brasileiro
Multinacionais brasileiras como a Gerdau enfrentam embates trabalhistas nos EUA e na Europa, motivo? Direitos coletivos, reestruturação e demissões


Por ivan martins

Os envelopes amarelos chegaram ao Brasil na terceira semana de agosto, aos milhares, postados nos Estados Unidos pelos sindicalistas da United Steel Workers. Traziam, em razoável português, uma má notícia para a Gerdau: a siderúrgica gaúcha, dona de 13 plantas nos Estados Unidos, entrou em rota de colisão com um dos mais aguerridos sindicatos americanos. Dentro dos envelopes havia uma carta de Leo Gerard, presidente da UST, e um folheto de oito páginas. Ambos diziam a mesma coisa - que a Gerdau vai perder milhões de dólares se não assinar um acordo com o sindicato, que representa 3.000 de seus 8.000 funcionários americanos. O texto ameaça com greve em sete plantas e promete que os acionistas da companhia vão pagar o pato. “Não estamos pedindo nada que as outras empresas não ofereçam a seus funcionários”, disse Gerard à DINHEIRO. “Mas a administração da Gerdau não gosta de sindicatos, quer destruir nossos direitos e isso não vamos permitir.” Ele sustenta que a empresa quer reduzir salários, cortar sua participação nos fundos de aposentadoria e rasgar acordos de distribuição de lucros. “Logo que assumiram, três anos atrás, os executivos americanos da Gerdau disseram que nós ganhávamos demais, trabalhávamos pouco e não éramos leais à companhia”, indigna-se. Em Porto Alegre, a direção do grupo decidiu não falar sobre o assunto. Informa em nota que a negociação entre seus administradores americanos e o sindicato prossegue normalmente. E que o ambiente de trabalho nas siderúrgicas é tranqüilo. Sugere, sem dizer, que a agressiva campanha internacional do sindicato americano é parte normal das negociações coletivas nos Estados Unidos, embora o tom exaltado do sindicato sugira o contrário.

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Os problemas da Gerdau nos Estados Unidos são parte de um fenômeno recente na vida das grandes corporações brasileiras. Ao se tornarem internacionais, elas passaram a enfrentar nos Estados Unidos e na Europa problemas trabalhistas diferentes daqueles que conhecem no Brasil. São forçadas a defender seus métodos de gestão contra adversários poderosos. A Companhia Siderúrgica Nacional, de Benjamim Steinbruch, lida, neste exato momento, com a oposição do mesmo USW à sua proposta de aquisição de 49,5% da siderúrgica americana Wheeling-Pittsburgh. O sindicato alega ter um acordo que lhe permite recusar qualquer troca de controle indesejada. E defende que a empresa seja vendida à Esmark, uma companhia americana com interesse na aquisição. Por trás da posição do sindicato encontra-se uma campanha de seu presidente para consolidar a siderurgia americana. Gerard acredita ser responsável por acordos que “salvaram” a indústria siderúrgica nos Estados Unidos. Embora estejam em crise e sofram perda acelerada de associados, sindicatos como a USW têm poder e influência para lançar-se em campanha e atrapalhar a vida das empresas. “Estamos nos preparando para publicar anúncios no Brasil denunciando a Gerdau”, ameaça Gerard. “A família é responsável pelo comportamento de seus diretores nos Estados Unidos.”

Contra a Gerdau: Ameaça de greve e batalha de propaganda para obter um acordo coletivo melhor nos Estados Unidos.
 

Na Europa, quem tem atraído a ira dos sindicatos é a Inbev, maior cervejaria do mundo, resultante da fusão entre a brasileira Ambev e a Interbrew, belga. Dirigida desde dezembro pelo brasileiro Carlos Brito, que no Canadá fechou quatro fábricas e demitiu 25% dos chamados colarinhos-brancos, a empresa embarcou em uma ampla reestruturação. Depois de tentar inutilmente marcar reuniões às seis da tarde, Brito descobriu que seus subordinados europeus marcavam aulas de golfe nesse horário. Trocou-os por brasileiros. Também fechou fábricas, demitiu operários e mexeu com marcas locais de prestígio, como a Huegarden. Embora a cerveja fosse fabricada há três séculos na cidade que lhe dava o nome, a planta foi fechada e transferida para a Rússia. A tensão aumentou. Já houve greves na Bélgica e ameaças de greve na Alemanha. “Desde a fusão, o relacionamento piorou muito”, queixa-se Harald Wiedenh, secretário da Federação Européia dos Sindicatos de Alimentação, Agricultura e Turismo. Ele disse à DINHEIRO que a empresa se recusa a discutir sua estratégia de reestruturação e por isso os sindicatos estão criando uma coordenação européia. Querem negociar de forma unificada nos vários países em que a Inbev atua.

O primeiro resultado desse esforço foi o dia de ação européia contra a empresa, em 28 de março. “Eles não vão mais jogar um sindicato nacional contra o outro”, diz Wiedenh. Embora atraiam atenção pela novidade, os choques entre administradores brasileiros e seus funcionários do Primeiro Mundo não são inevitáveis. A Metalfrio, de São Paulo, que em julho comprou a fábrica de refrigeradores Caravell, da Dinamarca, é um exemplo. Acaba de anunciar a mudança de uma de suas linhas de produção para a planta turca da companhia, com perda de 80 dos 350 postos de trabalho. Apesar disso, não houve reação sindical. “A legislação de trabalho na Dinamarca é muito flexível e o desemprego é quase inexistente”, explica Marcelo Faria Lima, sócio da Metalfrio. No restante da Europa, assim como nos Estados Unidos, o cenário é outro – e as novas multinacionais brasileiras, como Gerdau e Inbev, terão de aprender a conviver com sindicatos furiosos.