COMENTE A REPORTAGEM
 Leia também
  Justiça questiona escolha do padrão japonês
 


O futuro vai pelos ares
Esquenta a disputa pela licitação do Wi-Max, a banda larga sem fio que determinará os rumos das telecomunicações


Por Cristiane Barbieri e Adriana Nicácio

Há tempos que uma privatização não tinha lances tão duros. De um lado, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, ameaçava anular uma decisão da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), órgão ao qual, pelo menos na teoria, ele não tem nenhuma ingerência. De outro, numa reunião para lá de tensa na quarta-feira, 23, dois conselheiros da Anatel tentavam convencer seus pares a mudar o edital de privatização, na direção em que deseja o ministro, para salvar a imagem de independência da agência reguladora. No meio disso tudo, telefônicas grandes e pequenas, empresas de telefonia pela internet, emissoras de TV e dezenas de fornecedores colocavam – ou tiravam – lenha na fogueira, de acordo com seus interesses. Tudo por conta do leilão das faixas de freqüência de 3,5 GHz e de 10,5 GHz, marcado a princípio para 4 de setembro, que permitirá a exploração da tecnologia Wi-Max. Definido como banda larga sem fio, o Wi-Max gerou tamanha disputa porque carrega consigo tudo que essa solução permite: nada menos do que mobilidade para computadores, telefonia fixa e móvel pela internet, TV por assinatura, podendo se tornar, inclusive, o canal de retorno com o qual o espectador interagirá com a emissora de televisão, para a tão falada TV digital. “Essa licitação é muito mais importante do que a escolha da TV digital”, diz Carlos Moretti, gerente da AI Solutions, que distribui as soluções sem fio da Motorola.

Foto: Anderson Schneider

Anatel: autonomia da agência reguladora em xeque

Esse foi o principal motivo da briga entre a agência e o Ministério das Comunicações: nenhuma empresa quer ficar de fora do mercado que pode determinar o futuro das telecomunicações. O edital da Anatel, no entanto, previa que Telefônica, Telemar e BrasilTelecom, donas de 92% da telefonia fixa no País, não poderiam fornecer Wi-Max em suas áreas de atuação. A justificativa, como sempre, era estimular a concorrência. O ministro, alegando a necessidade de universalização do serviço e da inclusão digital, facilitada com a participação das grandes, não hesitou: se a Anatel não suspendesse a licitação por bem, ele o faria com uma canetada. “Essa é a maneira de garantir a universalização do serviço”, disse Costa. “Toda vez que a Anatel tomar decisões técnicas sem olhar o lado social, vou intervir.” A decisão não foi bem-vista pelo mercado. “A intervenção é lamentável”, diz Alex Zago, líder de pesquisa da consultoria Frost&Sullivan. E ilegal, segundo juristas. “A procuradoria da Anatel tem independência para recorrer ao STJ e fazer valer a lei”, diz Guilherme Costa, do Comitê de Telecomunicações da Câmara Americana.

Foto: Roberto Castro

Ministro Hélio Costa: "Toda vez que a Anatel decidir sem ouvir o lado social, vou intervir. "

Depois da ameaça, e da reunião de quarta-feira – na qual os conselheiros que não mudaram de posição foram chamados por seus pares de “irresponsáveis” –, a Anatel manteve o edital como fora publicado. Costa informou que esperará até o dia 4 para editar uma portaria adiando o leilão, enquanto espera uma possível mudança na decisão da Anatel. O Ministério, entretanto, já está trabalhando num novo edital. “No curto prazo, a defesa da concorrência faz todo o sentido”, afirma Zago. “Mas em alguns anos, quando a tecnologia estiver mais barata, a mobilidade será uma grande vantagem competitiva.” Em outras palavras, quem não oferecê-la vai perder mercado. A Frost&Sullivan estima que 2,8 milhões de brasileiros usarão o Wi-Max no País até 2010.

Enquanto a nova regra não é definida, as empresas seguem firmes nos negócios – e no lobby. As grandes operadoras, por exemplo, se dizem apreensivas com a possibilidade de investir pesado numa concessão e não poder participar do leilão. O receio é que uma futura decisão judicial conteste a legalidade do leilão pelo fato de o ministro estar atropelando a Anatel, como está acontecendo com a escolha do padrão japonês de TV Digital (veja texto abaixo). “Como sempre, falta marco regulatório no País”, diz Luis Minoru, da consultoria Yankee Group. Já as pequenas, que prestam serviço de Wi-Max para empresas, defendem sua exclusão da meta de universalização. Os fornecedores de infra-estrutura, por sua vez, dizem que a entrada das grandes operadoras facilitará o aumento da escala e a conseqüente redução nos preços. A mexicana Telmex, controladora no Brasil da Embratel, Claro e NET, comprou, na semana passada, a empresa de Wi-Max argentina Ertech por US$ 22,5 milhões. Foi um apenas entre muitos negócios que já fazem a área ferver. Pelo jeito, a corrida pelo ouro está apenas começando.

2,8 milhões de usuários deverão usar o Wi-Max no País até 2010

Justiça questiona escolha do padrão japonês

Chegou por fax, logo depois do almoço, na sala do procurador federal Fernando Martins, o decreto 5.820. Era 29 de junho. Atônito, ele leu cada palavra do documento que escolhia o padrão Japonês de TV digital. “Um descaso”, irritou-se. Era só nisso que conseguia pensar. Agora, dois meses depois, Fernando Martins, com outros dois procuradores, ingressou na Justiça Federal pedindo a nulidade da escolha por estar “eivada de ilegalidades”. “Os governantes precisam respeitar a ordem jurídica”, diz Fernando Martins. Ele conta que de janeiro a junho manteve conversas regulares com representantes do Ministério das Comunicações, para mostrar as irregularidades do processo. Chegou até a falar com a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. “Foram gastos mais de R$ 60 milhões no desenvolvimento de pesquisas tecnológicas sobre o padrão digital”, diz Martins. “Os estudos apontam os benefícios e as desvantagens de cada uma das escolhas, mas jamais foi publicada uma linha pelo Poder Executivo.”

Em 57 páginas, a ação civil pública de Martins aponta oito irregularidades no decreto de 15 artigos. “Foram criadas por um redemoinho de decretos do dia para a noite”, afirma. O ministro das Comunicações, Hélio Costa, garantiu que já tem defesa pronta e preparava-se para visitar a procuradoria na quinta-feira 24. “Esse assunto foi debatido durante meses”, disse o ministro. O presidente Lula e entidades do setor de eletroeletrônico também defenderam a manutenção da escolha do padrão japonês. Para as empresas, o atraso na implantação do projeto e a incerteza jurídica são mais prejudiciais para os negócios do que a escolha que priorize um ou outro padrão.