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| Parreira em ação:
Qual é sua autonomia para lidar com estrelas como Ronaldo? |
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A
barreira do gestor
Parreira ainda não
conseguiu transformar um grupo de profissionais talentosos
em um time eficiente

Por fábio altman, enviado
especial à Alemanha
É possível que tenha faltado na prateleira
de Carlos Alberto Parreira em Königstein, primeira parada
do Brasil na Copa, um livro: “Formando equipes vencedoras”,
da editora Best Seller. Seu autor: Carlos Alberto Parreira.
Resultado de quatro horas de entrevista ao jornalista Ricardo
Gonzalez, o volume é um manual de comportamento rumo
ao sucesso. É inquestionável que Parreira, campeão
mundial em 1994, sabe como obtê-lo, especialmente porque
levou ao título, naquele tempo, uma equipe muito limitada,
à exceção de Romário. Em 2006,
há uma constelação de estrelas. O que
o país do futebol quer saber, diante da fraca estréia
diante da Croácia, com vitória por 1 a 0, independentemente
do desempenho contra Austrália e Japão, é
o seguinte: Parreira é o homem certo para gerir essa
turma milionária, como um super CEO a comandar os melhores
profissionais do mundo? antes da Copa, o próprio Parreira
se colocou nessa posição. “Aqui, sou apenas
um gestor de talentos”, costumava dizer.
“Poucos executivos no mundo teriam condições
de administrar essa equipe”, diz Paulo César
Verardi, presidente da Umbro no Brasil, formado em administração
de empresas e antigo gerente do Grêmio de Porto Alegre.
Verardi lembra, no caminho da comparação com
o universo empresarial, que o consumidor – o torcedor
– é ultra exigente. “Nunca pedem menos
que um show de eficiência”, resume. Verardi acredita
que, na reação imediata frente à primeira
crise, a da Croácia, Parreira agiu bem como gestor.
“Disse logo depois do primeiro jogo que Ronaldo começaria
jogando contra a Austrália, o que é um gesto
de confiança crucial”, afirma.
Especialistas na área de recursos avaliam que essa
atitude pode ser lida de uma outra forma pelos demais integrantes
da equipe. “Eles podem considerar que há privilégios,
que alguns são mais iguais que outros”, alerta
o consultor Almiro Reis Neto, parafraseando o escritor britânico
George Orwell, autor de A Revolução dos Bichos.
Sintoma desse risco: no final da partida, Kaká elegantemente
insinuou que Ronaldo precisava se movimentar mais, uma declaração
que foi entendida como uma cobrança por mais empenho,
dirigida ao craque do Real Madri. No capítulo “Ronaldo
Fenômeno” há uma outra questão.
O gestor Parreira tem autonomia para decidir o que fazer com
principal garoto-propaganda do principal patrocinador da seleção?
“Parreira talvez não seja um CEO, mas sim um
diretor técnico, com todas as limitações
que essa função lhe impõe”, diz
Reis Neto.
Para o consultor, há uma diferença crucial
entre o Parreira de 1994 e o Parreira de 2006. “Na Copa
dos EUA, ele aproveitou o descrédito em relação
ao time e uniu os jogadores em torno de um objetivo: provar
que as críticas eram infundadas”, diz ele. “Agora,
diante da unanimidade, faltou-lhe um elemento de união.
Ele não conseguiu transformar um grupo de profissionais
talentosos em um conjunto eficiente.”
É verdade que diante de situações complexas,
de emergência, como o futebol tímido apresentado
frente aos croatas, os bons administradores costumam revelar-se.
Pode ser, mas há quem veja na preparação
de Parreira problemas na linha de montagem, de solução
mais complicada e demorada. Para Tostão, tricampeão
do mundo e cronista do jornal Folha de S.Paulo, um erro freqüente
de Parreira é realizar nos treinamento algo que não
ocorre no mundo real, da Copa do Mundo, dentro das partidas.
“Já critiquei o treino tático quase diário
na metade do campo e com jogadores fora de posição,
em uma situação inexistente nas partidas”,
diz Tostão. Resta saber se, agora que o produto Seleção
chegou às prateleiras da Alemanha, haverá tempo
de corrigi-lo. São indagações que incomodam
Parreira.
Três dias antes da magra vitória diante da
Croácia, ele já dava sinais de impaciência,
embora sempre aparente tranqüilidade. Um dos jornalistas
presentes à entrevista coletiva no Kempinsky Hotel
de Königstein notou que, durante os treinos, o treinador
fazia anotações com a mão esquerda, e
não com a direita, como é seu hábito.
Diante da indagação insólita, riu e,
com olhar irônico, respondeu. Assim: “É
treinamento. Sou ambidestro, usar a canhota é orientação
médica. Depois de uma certa idade, a gente tem de aprender
a andar de costas, escovar os dentes com a mão esquerda,
pentear o cabelo com a mão esquerda. Os chineses já
fazem isso há bastante tempo, há dez mil anos”.
Dos chineses e de Luiz Felipe Scolari, que já fizera
o mesmo em 2002, tomou emprestado o livro “A arte da
guerra”, do general Sun Tzu, escrito no século
IV antes de Cristo. Uma frase define a tese central do pequeno
volume: “A invencibilidade está na defesa; a
possibilidade de vitória, no ataque. Quem se defende
mostra que sua força é inadequada; quem ataca,
mostra que ela é abundante”. À saída
do jogo, uma declaração de Parreira demonstra
que Sun Tzu não funcionou na largada da Copa, ao contrário.
"O Dida, os zagueiros de área, Lúcio e
Juan, e os laterais Cafu e Roberto Carlos tiveram um belo
comportamento na partida. Se não fosse a segurança
do setor defensivo, certamente a vitória estaria ameaçada,
pois a Croácia soube atacar com perigo, às vezes
até com sete jogadores".
O Brasil de Parreira parece acometido de um mal que vitimou
grandes corporações, como IBM, Sears, GM, entre
outras: aquilo que o consultor Renato Bernhoeft chama de “síndrome
da liderança.” Trata-se de uma espécie
de comodismo e paralisia que acomete organizações
habituadas a uma longa trajetória de hegemonia de mercado.
Tornam-se incapazes de inovar e crêem que o próprio
gigantismo seja suficiente para vencer qualquer concorrente.
“Nesse momento, o líder deve perceber isso e
até criar um certo incômodo em sua equipe, provocá-la”,
afirma ele. Essa síndrome pode ser responsável
ainda pela falta de previsibilidade da estratégia parreirista.
A concorrência sabe o que ele fará (ou, melhor,
deixará de fazer) ao longo das partidas. Suas substituições
são óbvias. Não passam de duas, modificam
peças sem mexer no modelo de jogo. Em suas mãos
está um produto (o jogador brasileiro) que encanta
pelo inesperado. Parreira o torna previsível.
Para motivar os craques Parreira escolheu uma canção
dos Titãs que em função do nome, “Epitáfio”,
e de alguns versos deixa uma mensagem dúbia no ar –
sobretudo para um grupo que se diz vencedor. É aquela
cuja letra lista uma série de arrependimentos, “devia
ter amado mais, ter chorado mais”. Os músicos
fizeram um trecho novo, especialmente para a Seleção,
tolo por nada dizer: “aqui não tem arrependimento,
olho pro alto, não tem mais volta/ o melhor do mundo
é agora, é aqui”. Ele mostrou aos atletas,
também, um vídeo sobre a trajetória do
escrete desde 1994 e outro sobre ansiedade no esporte. Ambos
foram desenvolvidos com o apoio da psicóloga Regina
Brandão, a mesma da campanha na Coréia e Japão,
há quatro anos. Pensando bem, talvez seja o caso de
retornar à arte da guerra de Sun Tzu. 
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