| Daniel Wainstein |
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| Wanderlei Coelho, 52:
Dono de restaurante, produtora, construtora e casa de
R$ 1 milhão. |
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Negros
na elite
Participação de afrodescendentes
nas classes A e B sobe de 9% para 15,8%. Conheça alguns dos
homens que galgaram espaço no topo da pirâmide

Por elaine cotta e adriana
nicacio
Wanderlei Coelho teve uma infância bastante pobre.
Ele e o irmão foram criados pela mãe num barraco
de madeira da Vila Madalena, nos anos em que o reduto boêmio
ainda era habitado pela classe média baixa de São
Paulo. Ele foi engraxate, tapeceiro, office boy, motorista
de táxi e mecânico. “Meu objetivo era vencer
na vida como todo mundo”, diz. Conseguiu. Hoje é
dono de uma casa noturna com capacidade para duas mil pessoas
em São Paulo, de restaurante, de uma produtora de eventos
e sócio de uma construtora. Tem ainda investimentos
em locação de imóveis e numa escola primária.
Como chegou lá? Além de trabalhar muito, estudou
Direito. Formado, montou um escritório de advocacia,
que também funcionava como imobiliária e despachante,
mas acabou enveredando pelo mundo dos espetáculos.
“Sabia que se estudasse e batalhasse muito, conseguiria
sair daquela miséria”, conta. Aos 52 anos, se
orgulha de ser dono de uma casa avaliada em mais de R$ 1 milhão
em Alphaville, bairro nobre de São Paulo, de uma Mercedes
SLK 200, uma Pajero Sport, um Montana e outros 15 imóveis.
História de vida semelhante tem um homem chamado Joaquim
Barbosa. Com um salário mensal que representa o teto
do funcionalismo público –nem o presidente da
República ganha mais do que ele (aliás, ganha
três vezes menos), o primeiro ministro negro do Supremo
Tribunal Federal começou a vida profissional varrendo
chão. Primogênito dos oito filhos de um pedreiro
com uma dona de casa, Barbosa costumava limpar o banheiro
do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal cantando
em inglês com pronúncia perfeita. Deixou boquiaberto
o então diretor do tribunal, Pedro Luz Cunha, que o
apadrinhou, conseguiu um emprego melhor e o orientou a voltar
a estudar. Hoje, no auge dos seus também 52 anos, Barbosa
fala quatro idiomas é mestre e doutor em Direito Público
pela Universidade de Paris, mestre pela UnB, professor licenciado
da UERJ e professor visitante da Universidade de Columbia,
em Nova York, e da Universidade da Califórnia. “Minha
nomeação é a coroação de
uma carreira”, disse ao assumir o cargo. “Tenho
a esperança de que, nos próximos dez ou quinze
anos, uma indicação como esta (de um negro)
seja uma coisa banal. Assim, aceito o fardo, e esse é
o preço que tenho de pagar.”
Esse sonho de Barbosa já começou a dar sinais
de que pode se concretizar. Pelo menos é que mostra
uma pesquisa feita pelo Instituto de Estudos do Trabalho e
Sociedade, com base em dados da Pnad, do IBGE. Os números
apontam que em 2004, os afrodescendentes eram 15,8% da elite
(representada pelo 1% mais rico do País), um avanço
em relação aos 9,1% verificados em amostra semelhante
realizada em 1992. “Esse é um resultado importante
que deve ser festejado”, disse à DINHEIRO Hélio
Santos, professor da Fundação Visconde de Cairu,
da Bahia. Segundo ele, essa mudança começou
a acontecer graças a uma série de políticas
públicas voltadas para a inclusão social dos
negros que começaram a ser desenvolvidas a partir dos
anos 90. “Mas o ideal seria estar nos 25%”, afirma.
O economista Mário Theodoro, da Universidade de Brasília,
concorda. Ele, a pedido do Instituto Ethos, mensurou quanto
o racismo custa para o Estado brasileiro e chegou a um número:
R$ 67,2 bilhões. Esse, segundo ele, é quanto
o Brasil deixou de investir ao longo da História –e
que teria de investir a partir de agora-- para reduzir o fosso
que existe entre negros e brancos quando se fala em educação,
habitação e saneamento. “Essa é
uma discussão que apenas começou a aflorar.
Ainda falta muito para chegarmos ao ideal”, afirma.
Hélio Santos lembra que o Brasil tem 80 milhões
de negros, ou o dobro da população argentina,
que historicamente esperam por uma chance de inclusão
social.
Quando chegaram ao Brasil fugindo das mazelas de seus países
de origem, os imigrantes europeus já tinham, quase
todos, casa e emprego garantidos. Privilégio que nem
de longe foi dado aos mais de 750 mil negros que por mais
de 350 anos trabalharam como escravos nas lavouras espalhadas
pelo País. “Se há negros na elite isso
tem muito do esforço que eles têm feito para
conquistar o seu espaço”, afirma Santos. Hoje,
apesar de representarem 46,4% da população economicamente
ativa, os negros ganham metade do salário que é
pago aos brancos. Mesmo entre os que possuem melhores níveis
de escolaridade o salário é 30% menor, segundo
levantamento feito pelo Instituto Ethos. A situação
é ainda pior entre as mulheres. Elas ganham por hora
apenas 46% do que é pago para os homens. “Ser
negro me obrigou a me esforçar mais. Tinha sempre de
provar ser pelo menos duas vezes mais competente, a cobrança
sempre foi maior”, confessa Domingo Ramos, que com apenas
30 anos coordena o departamento de controle tributário
da multinacional DuPont em toda a América Latina. Filho
de um eletricista e de uma dona de casa, o administrador de
empresas com MBA na USP já liderou projetos na Holanda
e morou nos Estados Unidos. “Às vezes me sentia
uma estrela solitária por ser o único negro
na sala da universidade”, desabafa. Sentimento de solidão?
“Não. Frustação. Isso tem de mudar
um dia.” O diretor de Negócios da Siemens, César
Almeida, tem opinião semelhante. Aos 42 anos, ele afirma
se orgulhar de poder dar uma vida confortável aos três
filhos, mas lamenta não haver mais empenho do governo
para ampliar as políticas públicas de inclusão.
“É triste ver que o número de negros na
favela e na população carcerária crescer
cada vez mais.”
Na tentativa de reverter esses números e, claro, melhorar
a sua imagem, muitas empresas começaram a desenvolver
programas de diversidade e inclusão racial. Um deles
é coordenado por Osvaldo Nascimento, gerente-executivo
da IBM. A companhia, ao lado instituições como
o Itaú e HSBC, foi uma das pioneiras no desenvolvimento
desse tipo de ação, criou projetos especiais
para a contratação de trainees afrodescendentes
e oferece cursos de capacitação e idiomas. “Queremos
reduzir o fosso que existe na formação entre
jovens negros e brancos que chegam ao mercado de trabalho”,
afirma. Filho de um alfaiate e de uma dona de casa, Nascimento
se formou em engenharia pelo Mackenzie, estagiou na Inglaterra,
fez pós na Unicamp, especialização em
Harvard e MBA na Fundação Dom Cabral. Pode ser
considerado um exemplo dos que chegaram ao topo da pirâmide,
ao lado de Antonio Carlos Buenos, diretor de Recursos Humanos
do Bradesco, César Nascimento, dono de uma consultoria
que foi executivo de corporações como a Price,
Thompson e Microsoft, ou o empresário de 82 anos Adalberto
Camargo, eleito em 1966 o primeiro deputado negro do Brasil.
Ainda assim, o número de negros ocupando cargos de
comando nas grandes empresas ainda é muito baixo. “Eles
são menos de 2% num País em 54% da população
é afrodescente”, alerta o advogado Humberto Adami,
outro exemplo de sucesso que defende bandeiras como a que
prevê a criação de cotas para negros nas
universidades. Ele lembra que apesar de o Brasil se identificar
como um País multiracial, ainda há muito para
avançar. “Um dia eu estava com o Joaquim Barbosa
num restaurante em Ipanema, no Rio, aguardando a chegada de
nossos carros e uma senhora nos entregou a chave do carro
dela pensando que éramos manobristas”, conta.
“Ainda existe no inconsciente das pessoas a idéia
de que negro de terno é manobrista ou segurança
de shopping.” César, da Siemens, também
tem uma história interessante: “Peguei um táxi
no aeroporto e quando disse que estava indo para Alphaville
o taxista perguntou em que time de futebol eu jogava”,
conta. Ele levou na brincadeira. Mas, eles lembram que inconscientemente
as pessoas imaginam que os negros só conseguem ganhar
dinheiro no esporte ou como cantor de pagode. Um erro que
também se explica com outra estatística: os
afrodescendentes são 66% dos 10% mais pobres da população.

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Questão
racial
Apesar da melhora da participação de afrodescendentes
na elite, os negros ainda sofrem com a questão racial |
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| Eles são 46,4%
da população economicamente ativa
Mas recebem 30
% menos que os brancos, mesmo tendo nível
de escolaridade igual
O custo do racismo para o País, segundo o economista
Mário Theodoro, é de R$
67,4 bilhões Isso representa o fosso existente
entre negros e brancos em serviços básicos
como educação, saúde, habitação
e saneamento básico
Fontes: IBGE, Pnad, FGV, Instituto
Ethos e Seade/Dieese |
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