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Surge
um midas
Aos 37 anos, André
Esteves fecha o maior negócio da história do País, vende o
Pactual por US$ 3,1 bilhões para o UBS e se torna o novo titã
do capitalismo brasileiro

Por Leonardo Attuch,
Alexandre Teixeira e humberto franco (fotos)
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| Terça-feira
9, 16h30: Esteves (à esq.) é flagrado
ao deixar o Pactual ao lado do CEO do UBS após o anúncio
da fusão |
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"A força global do UBS
faz do Pactual uma plataforma de operações no continente"
André Esteves, nomeado presidente do UBS Pactual |
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"Ficarei desapontado
se os negócios não cumprirem a meta de crescer
"
Huw Jenkins, CEO do UBS Investment Bank |
O sorriso estampado no rosto do jovem de terno escuro na
foto acima diz tudo. Ele acaba de trocar a letra “m”
pela letra “b”. Seu nome é André
Esteves e ele, aos 37 anos, já não é
mais um simples milionário. Sua fortuna chegou à
casa do bilhão. De dólares. Esteves é
o principal acionista do Pactual, o maior banco de investimentos
brasileiro, que acaba de ser vendido para o grupo financeiro
suíço UBS – conforme noticiado, em primeira
mão, pelo site da DINHEIRO na tarde da segunda-feira
8, instantes após a conclusão do negócio.
Ao todo, a transação poderá chegar a
inacreditáveis US$ 3,1 bilhões, que serão
pagos a uma empresa com apenas 517 funcionários. É
mais do que o Itaú pagou pelo BankBoston (US$ 2,2 bilhões).
Mais do que o banqueiro Aloysio Faria embolsou ao vender o
Real ao ABN Amro (US$ 2,3 bilhões). E muito mais ainda
do que o lendário Jorge Paulo Lemann recebeu ao se
desfazer (em uma operação de US$ 700 milhões)
do Garantia, um banco similar ao Pactual. É também
mais do que o valor de qualquer aquisição de
empresa brasileira feita fora das privatizações.
Mas o que torna a história de Esteves surpreendente
não é só o valor astronômico da
venda. Ele construiu o seu primeiro bilhão de dólares
mais rápido do que qualquer outro financista brasileiro
e em condições mais adversas. Nascido de uma
família humilde da Tijuca, no Rio de Janeiro, este
analista de sistemas introspectivo, torcedor do Fluminense,
ingressou no Pactual aos 22 anos como técnico em informática,
brilhou na mesa de renda fixa quando teve sua primeira oportunidade
e chegou ao topo num piscar de olhos. Hoje tem cerca de 30%
do capital do banco. Mas abre mão de uma sala reservada
e mantém o hábito de sentar-se à mesa
de operações. Tímido, o novo Midas do
capitalismo brasileiro diz que todo o dinheiro que receberá
do grupo suíço será aplicado em fundos
do novo UBS Pactual. “Fui feito para ganhar dinheiro;
não para gastar”, disse Esteves à DINHEIRO
(leia entrevista inédita na próxima página).
Seu carro, um Audi, tem quatro anos de uso. Jatinhos e helicópteros
não fazem parte de seus planos.
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| Rodrigo
Xavier é o gestor de fundos do Pactual, com US$ 18 bi
a seus cuidados |
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Tido pelos sócios e pelos raros amigos como workaholic
ao extremo, Esteves toma café, almoça e janta
Pactual. Se não está no escritório, o
que é raro, refugia-se em sua fazenda nas proximadades
de Juiz de Fora, em Minas Gerais, e devora livros sobre finanças.
Graças ao estilo discreto, até a semana passada,
costumava circular incógnito pela Avenida Faria Lima,
em São Paulo, onde ficam os escritórios do banco.
Avesso a todo tipo de badalação, ele jamais
se deixou fotografar – a imagem que estampa esta reportagem
é um furo jornalístico do repórter fotográfico
Humberto Franco, da DINHEIRO, que captou o momento exato em
que Esteves se despedia de Huw Jenkins, CEO do UBS, logo após
anunciar por teleconferência o negócio à
imprensa mundial, na terça-feira 9. A partir de agora,
Esteves não poderá mais viver no anonimato.
Com seu bilhão de dólares, ele se torna um dos
capitalistas de proa do País. E é pelo menos
10 anos mais jovem do que qualquer concorrente. “Se
fosse só por dinheiro, ele já poderia ter parado
de trabalhar antes mesmo da venda ao UBS”, diz um executivo
sênior de um banco de investimento rival. “Mas
a ambição do André é fazer história
no mercado brasileiro”. O próprio Esteves admite
que se inspira em ninguém menos que Jorge Paulo Lemann,
de quem se tornou amigo.
| Biô Barreira |
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Porto Filho, o Totó, é o sócio veterano de uma equipe
com idade média de 35 anos |
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A venda do Pactual ao UBS produziu um segundo bilionário
ainda mais moço. É Gilberto Sayão, de
35 anos, que, assim como Esteves, veio de uma família
de classe média do Rio. Giba, como é conhecido
pelos amigos, começou na área de manutenção
de computadores e acabou na mesa de câmbio em um ano
em que o Pactual ganhou muito dinheiro. Seu bônus foi
enorme e pago em ações, o que lhe abriu as portas
da sociedade. Hoje, sua participação acionária
é igualmente de 30%. As semelhanças com Esteves
não param aí. Sayão também nunca
permitiu que se fizesse uma foto dele. Um de seus hobbies
é andar de bicicleta, anônimo, pelas ruas do
Leblon. Os esportes são sua paixão. Já
foi campeão de motocross, luta jiu-jitsu e um pouco
de boxe, joga tênis e veleja. Recentemente, bateu um
recorde mundial em motonáutica, numa travessia entre
Santos e Rio de Janeiro. Sayão é um dos sócios
do empresário Eike Batista na lancha Spirit of Brazil
e, embora você não o veja na imagem abaixo, é
um dos quatro tripulantes da embarcação. A um
amigo, logo após fechar o negócio, ele revelou
seu estado de espírito. “Vou fazer a mesma coisa
que faria nos próximos cinco anos, só que com
muito mais dinheiro no bolso.” Explica-se: tanto Esteves
quanto Sayão ficarão no UBS Pactual pelo menos
até 2011. É uma das pré-condições
para que recebam todo o pagamento acordado. Depois, estarão
livres para fazer o que bem entenderem.
| Divulgação |
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| US$
1 bilhão caberá a Sayão, sócio do Pactual e do
empresário Eike Batista, na lancha Spirit of Brazil
(acima) |
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No primeiro momento, a cifra de US$ 1 bilhão já
está sendo desembolsada à vista. Outros US$
500 milhões serão usados para reter os principais
talentos do Pactual pelos próximos cinco anos. E há
ainda US$ 1,6 bilhão que poderão vir a ser pagos,
dependendo dos resultados do banco. Mas os sócios estão
seguros de que essa parcela também será alcançada.
Esteves será o CEO das operações em toda
a América Latina. Sayão cuidará da empresa
de participações do grupo, que já tem
ativos importantes, como o controle da Light, a distribuidora
de energia do Rio de Janeiro. No seu radar, ele vislumbra
novas oportunidades na área elétrica e também
nos setores imobiliário, de mídia e agribusiness.
| Biô Barreira |
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Ganhos dos sócios do Pactual vão para fundos geridos
pela equipe do banco |
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As cifras envolvidas na compra do Pactual deixaram o mercado
entre o perplexo e o eufórico. “Mesmo com este
prêmio para manter as melhores cabeças no banco,
US$ 3 bilhões é muito”, avalia o presidente
brasileiro de um banco de investimentos estrangeiro. “Tudo
o que o UBS fazia o Pactual também faz, o que significa
sobreposição”, pondera ele. A compra,
bem mais em conta, do Boston pelo Itaú é citada
por muita gente no mercado para elogiar os talentos de negociação
de Esteves e companhia. “Foi uma operação
genial, que põe os preços dos ativos brasileiros
em outro patamar”, diz o vice-presidente de um banco
de varejo estrangeiro. Vale lembrar que, ao contrário
do Boston (um banco que não tinha escala para competir
no varejo bancário nacional), o Pactual é um
eficiente banco de investimentos, de padrão global.
“O preço é compatível com uma operação
desse nível no mercado internacional”, diz Martin
Liechti, responsável pela área de gestão
de fortunas do UBS.
Até que a venda para o UBS se consumasse, foram necessários
cinco meses de um namoro que começou na virada do ano,
quando a Goldman Sachs, pretendente inicial, desistiu da compra
do Pactual. Esteves e seus sócios decidiram, então,
aproveitar o bom momento do mercado acionário brasileiro
para buscar uma alternativa, que seria a abertura de capital
do próprio Pactual. E procuraram o UBS para assessorá-los
na operação. As conversas, surpreendentemente,
evoluíram para uma aquisição. “Sempre
fomos assediados com cartas de amor, e desta vez decidimos
aceitar”, diverte-se Esteves. Na época da transação
com a Goldman, o Pactual chegou a ser oferecido aos suíços,
mas o antigo CEO do UBS, John Costas, tinha certa aversão
ao Brasil. Quando Huw Jenkins assumiu seu posto, a operação
renasceu.
Na nova empresa, deve predominar o time do Pactual, que
responderá pela área de banco de investimentos
e gestão de fundos. Do UBS, virá o executivo
para comandar a administração de grandes fortunas.
“Numa transação dessas, o que você
compra são pessoas e o difícil é mantê-las”,
diz um banqueiro de investimento que passou recentemente por
essa experiência. “Quando a primeira bolada cai
na conta, o cara quer mais é ir pescar.” No caso
do UBS Pactual, o risco de saída de profissionais é
grande em razão do choque cultural. O UBS é
um banco global com controles e processos rígidos.
O Pactual é bem mais flexível, o que garante
a agilidade que o caracteriza. “Por quanto tempo você
acha que um desses novos milionários vai ter paciência
para se reportar a um gringo em Nova York?”, pergunta
um banqueiro concorrente.
Sediado no Rio de Janeiro, o Pactual nasceu como corretora
em 1983, passou a administrar fundos no ano seguinte e virou
banco de investimentos em 1986, comandado por Luiz Cezar Fernandes,
Paulo Guedes, André Jacurski e outras estrelas do mercado
nos anos 80. A atual geração, Esteves à
frente, isolou Luiz Cezar na década passada, quando
este quis transformar o Pactual num banco de varejo, e instaurou
ali uma república de jovens fanaticamente devotados
ao banco. A idade média dos atuais sócios é
de 35 anos, e eles têm de 10 a 12 anos de experiência
no grupo. A política da sociedade não permite
que nenhum deles invista em negócios fora do Pactual.
A política de RH do banco é resumida em relatório
da agência Fitch Ratings: “Pagamento de salários
fixos baixos que são complementados por generosas gratificações
semestrais, a título de participação
nos resultados.”
Há mais de 20 bancos de investimentos no Brasil,
mas nenhum combina as áreas de gestão de recursos
e operações de mercado de capitais como o Pactual.
Em fundos, só perde para bancões como Banco
do Brasil, Bradesco e Itaú. Entre 2004 e 2005, participou
das mais importantes aberturas de capital feitas no Brasil,
liderando operações como as da Localiza, Porto
Seguro, Grendene e ALL. Colocou, assim, US$ 1,85 bilhão
em papéis no mercado.
A rodada final de conversas entre Pactual e UBS aconteceu
no fim de semana passado, no número 4 da Times Square,
em Nova York, no famoso edifício Condé Nast.
É lá também que fica a sede da firma
Skadden Arps, que atuou em nome do Pactual juntamente com
os advogados do escritório Barbosa, Mussnich, Aragão.
Esteves, Sayão e o controller Horta passaram o sábado
e o domingo trancados com os advogados revisando os últimos
detalhes dos contratos. Saíram apenas para jantar no
próprio hotel onde estavam hospedados, o luxuoso The
Peninsula, da 5ª Avenida. Quanto tomaram o vôo
de volta para São Paulo, acompanhados de Huw Jenkins
e muitos outros executivos do UBS, no domingo à noite,
eles já estavam certos de que o negócio seria
selado. No fim da tarde da segunda-feira 8, quando Esteves
e Jenkins finalmente firmaram todos os papéis, eles
trocaram sorrisos, apertos de mão e o protocolar “congratulations”.
E a comemoração? Champanhe? Charutos? Festa
fechada num transatlântico? “Vou só fazer
um almoço de Dia das Mães na fazenda”,
diz Esteves. E o futuro? “Agora vamos ter que trabalhar
muito mais”, disse o novo bilionário aos demais
sócios. “Boa parte do pagamento ainda depende
da nossa performance”. Alguém duvida que eles
conseguirão?
Com reportagem de Aline Lima e Daniella
Camargos
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