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"São bilhões de dólares
para aplicar em setores essenciais como o de transportes" |
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O
bilionário que veio do frio
Em entrevista à DINHEIRO,
o russo Boris Berezovski, um dos mais polêmicos magnatas do
mundo, explica como pretende arrematar a Varig e por que está
trazendo ao Brasil um fundo de investimentos de pelo menos
US$ 1 bilhão

Por FÁBIO ALTMAN e BIÔ
BARREIRA (foto)
Boris Berezovski, nascido em Moscou há 60 anos, formado
em matemática, membro da Academia de Ciências
da antiga União Soviética e colecionador das
telas do austríaco Egon Schiele, é um dos mais
polêmicos personagens da recente história econômica
e política do mundo pós-comunismo. Tornou-se
bilionário com o desmonte do socialismo na terra de
Lênin e Stalin – diz ter um patrimônio de
US$ 3 bilhões, embora as estimativas de mercado ponham
o valor em um patamar dez vezes maior. Enriqueceu ao comprar
empresas do Estado a preços aviltados. Começou
com a aquisição e venda de carros Lada, entrou
no universo do petróleo, arrematou a companhia aérea
Aeroflot e parte de emissoras de rádio e televisão.
Tornou-se aquilo que Vladimir Putin, o presidente russo, chama
de “oligarca”. Há cinco anos, os dois romperam.
Hoje são inimigos. Tão rapidamente como enriquecera,
Berezovski passou a ser alvo de denúncias de crime,
que vão de lavagem de dinheiro a incentivo das operações
da Al Qaeda de Osama Bin Laden.
Berezovski vive hoje com status de asilado político
em Londres. Na semana passada esteve no Brasil, introduzido
pelo cardiologista Renato Duprat, antigo dono do Unicor, ex-investidor
do Santos Futebol Clube, a quem conheceu em um encontro da
FIFA por meio de Alberto Duailib, presidente do Corinthians.
Teve despachos com os executivos da Varig, da Embraer e da
Petrobras. Marcou também audiência com o governador
de São Paulo, Cláudio Lembo. Concedeu uma única
entrevista exclusiva em sua passagem pelo Brasil. Acompanhe:
O REAL INTERESSE PELO
BRASIL
“A distância do Oriente Médio é uma vantagem brasileira.
Nos próximos três ou quatro anos, o Brasil terá o crescimento
mais espetacular no mundo”
DINHEIRO – O que o senhor faz no Brasil?
BORIS BEREZOVSKI – Negócios. Dedico-me
a analisar o que acontece com a economia dos diferentes países
do mundo em busca de oportunidades. Há dois critérios
que tornam um país atraente para investir.
DINHEIRO – Quais são?
BEREZOVSKI – O primeiro deles é a estabilidade
política. O segundo é o potencial de crescimento
da economia. O Brasil atende plenamente essas duas condições.
Os recursos naturais são imensos. Há profissionais
intelectualmente muito bem preparados, tanto na iniciativa
privada quanto no setor público.
DINHEIRO – O Brasil é, portanto, uma
boa alternativa à China e Índia?
BEREZOVSKI – Há algum tempo, o banco
de investimentos Goldman Sachs preparou um relatório,
hoje célebre, referindo-se ao BRIC - as iniciais para
Brasil, Rússia, Índia e China - , como centro
de bons negócios. Mas não gostaria de traçar
comparações. Esses países oferecem oportunidades
fantásticas, têm imenso potencial de crescimento,
mas o interessante é que nenhum deles depende dos outros.
O Brasil não depende da Índia. O Brasil não
depende da China, e vice-versa, apesar da globalização.
São todos auto-suficientes.
DINHEIRO – Mas há algo que torne o Brasil
especial como pólo de investimento?
BEREZOVSKI – Sim. Ele está bastante
distante do Oriente Médio. Não depende da produção
de petróleo daquela região do mundo, que continuará
a ser instável e perigosa. Essa distância geográfica
é uma vantagem brasileira. Nos próximos três
ou quatro anos tenho convicção que o Brasil
será a nação de crescimento mais espetacular
no mundo.
DINHEIRO – Onde o senhor pretende investir
no Brasil?
BEREZOVSKI – Petróleo, gás, fontes
alternativas de energia, como o biodiesel, e transportes.
Neste último setor há diversos caminhos: rodovias,
ferrovias e transporte aéreo. Note que, mesmo com o
atual crescimento moderado, para não dizer tímido,
do Brasil, há um estrangulamento no campo de transportes.
O governo brasileiro conhece perfeitamente esses gargalos,
e vê com bons olhos o aporte financeiro em grande escala
nessas áreas.
DINHEIRO – O que é investir em grande
escala?
BEREZOVSKI – São bilhões de dólares.
Mas é importante ressalvar que, em áreas estratégicas
como as de transporte, é inevitável supor o
amálgama de um grupo de empresas, o que necessariamente
inclui também a participação do próprio
Governo. Como se trata de investimento de longo prazo, a participação
do Estado é crucial. Sei que o tempo de retorno é
muito variável. As companhias de aviação
permitem ganhos mais rápidos que rodovias, e estas
mais velozes que ferrovias. Daí meu interesse pela
Varig, que atravessa uma crise profunda no momento.
| Reuters |
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"O ponto central é
que a Varig, em crise, não tem fluxo de caixa.
Eu tenho." |
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OS PLANOS DE COMPRA
DA VARIG
“A experiência com a privatização da Aeroflot soviética,
nos anos 1990, pode ajudar na operação brasileira”
DINHEIRO – Como andam as negociações
com a Varig?
BEREZOVSKI – Tive reuniões em São
Paulo e Brasília com os dirigentes da companhia aérea.
Deram-me números da empresa. O problema deles é
de caráter urgente. Mas a pior coisa em um negócio
é ter pressa para concretizá-lo.
[A Varig tem uma dívida estimada em R$ 7 bilhões.
O governo brasileiro é credor de 55% deste total]
DINHEIRO – Qual é a proposta concreta
do senhor para a Varig?
BEREZOVSKI – Estou apenas há dez dias
dentro do assunto Varig. É tempo curto. Mas os profissionais
que trabalham comigo investigam tudo com rapidez. Lembre-se
que tenho experiência com recursos emergenciais para
companhias de aviação. Quando houve o colapso
da União Soviética, no início dos anos
1990, a crise da Aeroflot era imensa. Era preciso reestruturá-la.
Em três anos, sem que fosse desembolsado dinheiro do
governo russo, conseguimos sanear a Aeroflot.
[Em 1994, Berezovski adquiriu cerca de 20% das ações
da Aeroflot, em parceria com funcionários da empresa.
O governo russo manteve controle de 51%, sem onerar o Estado]
DINHEIRO – Existe a possibilidade de dividir
a Varig em dois blocos distintos – um totalmente saneado
e o outro, com passivo a pagar. Um grupo seria dedicado aos
vôos e operações domésticas. O
outro, trataria de negócios e rotas internacionais.
Neste cenário, o que o senhor pretende fazer?
BEREZOVSKI – O mercado doméstico brasileiro
tem enorme potencial. Faz sentido, sim, dividir a empresa
em duas partes. O ponto central, na minha opinião,
é que a Varig não tem fluxo de caixa.
DINHEIRO – O senhor tem esse fluxo de caixa?
BEREZOVSKI – O problema não é
saber se tenho dinheiro ou não, porque evidentemente
tenho. [Berezovski ri]. A questão é saber que
risco eu correria trazendo o dinheiro para o Brasil. Por isso
preciso entender o que pode acontecer em um prazo de três
ou cinco anos, se puser dinheiro agora, como pretendo fazer.
Fundos de investimento já estão na operação
da VarigLog. Conversei com eles, detalhadamente, para ter
uma idéia do tipo de resultados que poderei oferecer
aos parceiros de investimento.
[A VarigLog foi comprada pela Volo do Brasil - uma sociedade
criada para atuar no segmento da logística de transportes.
A Volo do Brasil é resultado de uma associação
entre os empresários brasileiros Marco Antonio Audi,
Marcos Haftel e Luis Eduardo Gallo com o fundo de investimentos
norte-americano MatlinPatterson. A Volo do Brasil detém
95% do capital votante da VarigLog, empresa que possui mais
de 47% do mercado doméstico e de quase 32% do mercado
internacional de carga.]
DINHEIRO – O senhor tem contato com representantes
do Governo brasileiro?
BEREZOVSKI – Nesta primeira fase tenho conversado
com os responsáveis pela gestão da Varig. É
delicado falar agora em ajuda do Governo, por isso a solução
está na iniciativa privada. Sei que qualquer participação
do Estado poderia cheirar a nacionalização,
mas creio, sinceramente, que em uma empresa vital como a Varig
é fundamental algum apoio público. Sei que as
leis no Brasil engessam as possibilidades de ação
do Governo, mas trata-se de área estratégica
e de solução imediata.
DINHEIRO – Qual é o risco caso as decisões
não forem ágeis?
BEREZOVSKI – Perder o direito de licença
de operação em rotas internacionais, perigo
real e imediato. Há semelhança com o caso da
Aeroflot. Quando assumimos o comando da companhia tivemos
que comprar aeronaves da Boeing, o que produziu muita controvérsia
na época. Achavam que seria ruim para a indústria
aeronáutica russa. Mas era fundamental agir rápido,
porque qualquer rota perdida é imediatamente tomada
por concorrentes.
DINHEIRO – Qual foi o erro da Varig?
BEREZOVSKI – É um exemplo típico
das empresas que não se guiam pela economia de mercado.
A Varig é dirigida pelos próprios funcionários,
por meio da Fundação. Basta comparar a crise
profunda pela qual ela passa diante do crescimento de concorrentes
como a TAM e a Gol. Quando você tem os próprios
funcionários no comando da gestão há
um conflito de interesses. Os funcionários querem lucro
em curto prazo – os investidores, ao contrário,
sabem que é preciso paciência, de modo a capitalizar
a empresa no futuro. A chave de tudo é saber o quão
eficaz pode ser o novo proprietário da Varig.
O FUNDO DE INVESTIMENTOS
DE US$ 1 BILHÃO
“É apenas o início do jogo. Com o tempo, pode ser
muito mais, porque dinheiro não tem nacionalidade”
DINHEIRO – O senhor está trazendo um
fundo de investimentos ao Brasil?
BEREZOVSKI – Em primeiro lugar, é preciso
dizer que o mercado financeiro no Brasil é muito interessante.
DINHEIRO – Por que?
BEREZOVSKI – A regulamentação
dos investimentos estrangeiros no Brasil é favorável,
muito favorável. Paga-se juros de 15% sem impostos
para o dinheiro que vem de fora. Levando-se em consideração
que a inflação brasileira é de pouco
mais de 4%, temos 10% a 11% sem fazer força. É
atraente, porque são papéis do governo. Mas,
por outro lado, creio que essa postura pode ser prejudicial
à economia do Brasil, porque leva a um patamar de endividamento
muito alto. É um risco adicional, embora seja fantástico
a curto prazo. Se investir US$ 1 bilhão, dentro de
um ano terei US$ 100 milhões de lucro, no mínimo.
DINHEIRO – É ótima aplicação...
BEREZOVSKI – Sim, sim. Mas não entendo
o propósito do Governo. Seria mais adequado atrair
investidores para o crescimento industrial e não apenas
para o mercado financeiro. O crescimento é incrível.
Antes desta legislação havia US$ 50 milhões
de capital estrangeiro no mercado – em dois meses aumentou
para US$ 3 bilhões. Não é montante que
afete a economia do Brasil, mas quando chegar a US$ 300 bilhões,
aí sim será outra história.
DINHEIRO – Como o senhor pretende fazer parte
deste mercado? Qual será o aporte inicial?
BEREZOVSKI – De US$ 1 bilhão. Apenas
para começar. É o início do jogo. Pode
aumentar, porque dinheiro não tem nacionalidade. O
interessante para mim é entrar em um novo país,
com novos parceiros. Aqui poderemos trabalhar em diversos
setores de investimento, inclusive o de créditos a
pequenas empresas, por exemplo.
DINHEIRO – Este aporte de US$ 1 bilhão
é muito diante da sua riqueza ?
BEREZOVSKI – Existem várias maneiras
de estimar o patrimônio de alguém, mas se pensarmos
nos ativos que possuo, diria que minha riqueza é de
US$ 3 bilhões. Estou, portanto, preparado para investir
uma parte disso no Brasil. Mas quero compartilhar o risco
com outros parceiros. Repito: o dinheiro não tem nacionalidade,
mas os investidores têm.
DINHEIRO – Como assim?
BEREZOVSKI – Um investidor russo costuma correr
mais riscos que um investidor americano. Isso explica o sucesso
dos negócios da Rússia na última década
diante do tímido crescimento nos Estados Unidos. Somos
mais tolerantes ao risco. Talvez porque tenhamos fome maior
por negócios.
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