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O
ópio do povo
Economistas mostram
que o futebol faz o torcedor esquecer os altos impostos

Por fábio altman
| Reuters |
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| Angústia: Brasileiro
rói as unhas antes do Penta |
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“A
religião é o ópio do povo”, cunhou
Karl Marx em uma de suas máximas mais repetidas. No
Brasil, a maior nação católica do mundo,
trocou-se a devoção no altar pelo futebol. Na
terra de Pelé, Garrincha e Ronaldinho Gaúcho,
dá-se como certo que o futebol é o ópio
do povo. Será? Sim, respondem dois economistas, torcedores
do Cruzeiro de Belo Horizonte. Cláudio Shikida, professor
do curso de Ciências Econômicas do IBMEC de Minas
Gerais, e seu primo, Pery Francisco Assis Shikida, da Unioeste
de Toledo, no Paraná, comprovam na ponta do lápis
que o andor da economia tem relação direta com
a alienação do povo que vai aos estádios.
Assim: um aumento de 1% nos dias de servidão que o
brasileiro tem com relação ao governo, transformada
em pagamento de tributos, gera um crescimento de 1,16% no
número de pagantes em partidas do Campeonato Brasileiro.
“Servidão” é uma variável
econômica difundida – ela traduz o número
de dias dedicados ao pagamento de impostos ao Estado, em todas
as suas esferas, municipal, estadual e federal. Hoje, no Brasil,
com uma carga tributária na casa dos 40%, estima-se
que 120 dias de nossas vidas sejam destinadas a deixar quites
as contas com o fisco. Resumo da ópera, segundo o irreverente
estudo dos Shikida: o governo conquista o silêncio dos
cidadãos, apesar dos elevados impostos, porque o grito
nos estádios faz a população aliviar-se
diante da mordida do Leão. Não há grandes
conspirações para que isso aconteça,
mas assim é. “O povo brasileiro não desrespeita
a lei, paga o que pedem que pague”, diz Pery. “Já
que paga em dia, tenta se consolar com seu time de futebol”.
Cláudio brinca: “É uma maneira ruim de
encher os estádios”.
Pode-se tratar essa constatação, do futebol
como válvula de escape, por óbvia. A novidade
é que, pela primeira vez há cálculos
sérios, de econometria, tentando explicá-la.
Os dois especialistas fazem um pouco como Steven Levitt, autor
de Freakonomics, best-seller mundial. De temas aparentemente
banais, do cotidiano, tentam extrair conclusões econômicas.
Há, naturalmente, amplas brechas para discussão,
e a própria dupla admite inaugurá-la: há
outras dezenas de variáveis para encher os estádios,
especialmente a influência das transmissões de
TV, e esse aspecto não foi medido. Sem contar a dificuldade
em colher dados. De qualquer modo, o estudo – ancorado
em equações complexas - é um divertido
olhar para um dos problemas cruciais do País, a exagerada
tributação. “O futebol é como o
panis et circenses dos romanos”, diz Cláudio,
referindo-se ao termo cunhado pelo poeta Decimus Junius no
século II para brincar com a atávica mania do
Estado Romano, tributador que só ele, de calar os súditos
com circo. 
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