| Arte:
André Felix |
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Os criadores:
Zatz, à esq.,e Halaban (na montagem, na caixa do jogo)
inspiraram-se nos muambeiros da Ponte da Amizade |
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Pague
propina, ou volte
duas casas
Um jogo brasileiro
sobre comércio e contrabando leva o famoso “jeitinho” para
o tabuleiro e faz sucesso na Alemanha

Por Carlos Sambrana
Pagar propina, corromper policiais, contrabandear produtos
ilegais e revendê-los pelo dobro do preço é
tarefa de bandido, de gente grande, correto? Para a SB Jogos,
empresa brasileira que desenvolve jogos de tabuleiro, o que
daria uma ficha corrida com metros de extensão, virou
brincadeira de criança. Uma brincadeira, é bom
salientar, lucrativa. Inspirados nos muambeiros que cruzam
a Ponte da Amizade, a fronteira do Paraguai com o Brasil,
os donos da SB, o jornalista André Zatz e o engenheiro
Sérgio Halaban, criaram o “Perto da Fronteira”.
É um jogo no qual até seis pessoas atravessam
uma alfândega imaginária controlada por um policial.
Na história, os participantes, com idade a partir de
10 anos, tentam passar para um outro país com malas
repletas de charutos e garrafas de tequila, produtos ilegais
representados por cartas, para revender por um preço
acima da média, com o já clássico “jeitinho
brasileiro” (leia algumas das regras abaixo).
A idéia agradou a Kosmos, a terceira maior fabricante
de jogos da Alemanha, com faturamento de 30 milhões
de euros. Cruzou a fronteira brasileira e, no país
da Copa, foi traduzido e batizado de Hart an der Grenze,
versão ao pé da letra do original “No
mercado europeu há mais espaço para histórias
picantes”, diz Zatz. A primeira edição
teve uma tiragem de 10 mil unidades a um preço sugerido
de 30 euros cada exemplar – 5% de royalties para os
inventores. Mal chegou às prateleiras e já é
sucesso entre o público alemão. Estima-se a
venda de 20 mil unidades até o fim de 2006. “Se
for eleito o jogo do ano, chegaremos a 300 mil cópias”,
diz Fritz Gruber, do departamento de comunicação
da Kosmos. No Brasil, os direitos foram adquiridos pela Estrela,
com lançamento previsto para maio. A versão
nacional, porém, chegará com algumas modificações.
“Não haverá pagamento de propina”,
diz Aires José Leal Fernandes, diretor de marketing
da Estrela. “Quem for pego pelo policial será
punido”. No tabuleiro, parece fácil.
O tema é polêmico. Indagado se o jogo não
ensina uma criança a desrespeitar a lei, Halaban, um
dos criadores, defende a idéia e a compara com outros
sucessos do tabuleiro como o War e o Banco Imobiliário.
“No War, o jogador derrota os oponentes para conquistar
territórios”, afirma. “No Banco Imobiliário
tenta-se levar os adversários à falência,
é tudo lúdico, não se pode levar a sério”.
Há quem rebata essa tese. “Este jogo mostra uma
crise de valores pela qual o Brasil atravessa”, diz
Emerson Kapaz, dono da fabricante de brinquedos Elka e presidente
do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial, o ETCO.
Atualmente, o contrabando e a pirataria movimentam R$ 18 bilhões
no País. Perde-se R$ 9 bilhões em impostos e
1 milhão de empregos deixam de ser gerados apenas em
São Paulo. “Para que isso mude, é necessário
conscientizar as pessoas”, diz Kapaz. “Esse jogo
não é um bom caminho”. 
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