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Família
média: desde 1872, é a primeira vez que o grupo
encolhe
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Vai
acabar a classe média?

Por IVAN MARTINS
Um estudo liderado pelo do professor Marcio Pochmann, economista
da Universidade de Campinas, acaba de lançar outro
facho de luz sobre um processo doloroso para o Brasil: o encolhimento
da classe média. Pelas contas do acadêmico, nada
menos que 10 milhões de pessoas deixaram a classe média
entre 1980 e 2000. Não por coincidência, foram
esses os anos de menor crescimento da economia brasileira.
Negativa em si mesma, uma vez que a extensão da classe
média costuma ser vista como um fator de estabilidade
e desenvolvimento, essa estatística sinaliza, adicionalmente,
um processo inédito na história brasileira.
Desde 1872, quando começou o censo no Brasil, é
a primeira vez que se registra um encolhimento desse setor
social. No final do século passado, a classe média
compreendia cerca de 12% das famílias brasileiras.
Em 1980, no auge do enriquecimento do País, o percentual
havia atingido exatos 31,7%. Desde então, houve uma
queda contínua que levou essas famílias, cuja
renda família situa-se entre R$ 1,5 mil e R$ 17 mil,
a se tornaram apenas 27,4% do total. Os pesquisadores acreditam
que desde então a situação não
tenha melhorado.
A culpa por esse fenômeno, segundo Pochmann, pode
ser atribuída a dois fatores. O primeiro é o
baixo crescimento, que reduziu o número de empregos
e aumentou a competição pelos postos de trabalho
e oportunidades. Embora a escolaridade tenha subido, a reprodução
da classe média está se tornando mais difícil
a cada geração. Não é por outro
motivo que 2 em cada 10 jovens graduados na universidade vão
viver fora do Brasil. Estão em busca de oportunidades
como as que seus pais tiveram e eles já não
têm. Trata-se de um dado crudelíssimo de fuga
de cérebros em um país com 6 anos de escolaridade
média. Parte substancial dos que estudaram 15 anos
tem de buscar trabalho como imigrante. A outra explicação
para o encolhimento da classe média, convergente com
a primeira, é que as exportações tornaram-se
o setor mais dinâmico da economia brasileira, mas elas
ainda concentram-se em produtos de baixo valor agregado. Geram
empregos – foram 1,2 milhão deles no ano passado
– mas não de classe média. 90% das novas
vagas paga apenas salário mínimo. A forma de
inserção do País no mercado global, segundo
Pochmann, precisa ser alterada em benefício de postos
de trabalho mais qualificados.
Com a redução da classe média –
que os autores do estudo não acham irreversível
– abre-se uma porta para inquietações
sociais e políticas. A estabilidade dos países
desenvolvidos deve-se, em grande medida, ao fato de que lá,
há várias gerações, duas em cada
três famílias está na classe média.
Aqui, embora forme um contingente numeroso de 57 milhões
de pessoas, a classe média inclui apenas uma de cada
três famílias. Com bom grau de escolaridade,
socialmente informado e crítico, esse grupo forma o
cimento da opinião pública e, ao mesmo tempo,
constitui o esteio da democracia liberal. Países com
classe média reduzida tendem a ser polarizados entre
pobres e ricos, a exemplo do que ocorre ao redor do Brasil
em boa parte da América Latina. E aí reside
o problema. Nos últimos anos, as políticas econômicas
têm sido dramaticamente concentracionistas, reduzindo
a importância do setor industrial (que democratiza renda
e gera empregos) em benefício do setor financeiro,
que faz o mesmo em muito menor proporção. No
limite, as estatísticas de Pochmann, projetadas para
o futuro, apontam para uma pirâmide social com imensa
base de pobres e uma elite reduzida no topo. Um sistema político
desse tipo tende ao impasse e ao confronto, quando não
à pura estagnação. Até o momento,
com alguma sorte e a presença decisiva da classe média,
esse tipo de cenário nunca se produziu no Brasil. Mesmo
a eleição de Lula, com forte apoio nas camadas
populares, teve suporte decisivo das classes médias.
Elas funcionam como fator de moderação e vigilância
do governo. Na ausência dessa massa crítica,
governos podem sentir-se tentados a apoiar-se exclusivamente
na massa empobrecida, que exerce menos controle sobre o executivo.
Essa situação precisa ser evitada. A revitalização
da economia brasileira, a qualificação dos empregos
e o fortalecimento da classe média são essenciais
para que o Brasil continue a ter cara de Brasil. Ela pode
não ser muito bonita, mas ainda é melhor que
a cara da Venezuela ou da Bolívia. 
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