Frederic Jean
André Linn/AE

Família média: desde 1872, é a primeira vez que o grupo encolhe

  COMENTE ESTE ARTIGO
 


Vai acabar a classe média?


Por IVAN MARTINS

Um estudo liderado pelo do professor Marcio Pochmann, economista da Universidade de Campinas, acaba de lançar outro facho de luz sobre um processo doloroso para o Brasil: o encolhimento da classe média. Pelas contas do acadêmico, nada menos que 10 milhões de pessoas deixaram a classe média entre 1980 e 2000. Não por coincidência, foram esses os anos de menor crescimento da economia brasileira. Negativa em si mesma, uma vez que a extensão da classe média costuma ser vista como um fator de estabilidade e desenvolvimento, essa estatística sinaliza, adicionalmente, um processo inédito na história brasileira. Desde 1872, quando começou o censo no Brasil, é a primeira vez que se registra um encolhimento desse setor social. No final do século passado, a classe média compreendia cerca de 12% das famílias brasileiras. Em 1980, no auge do enriquecimento do País, o percentual havia atingido exatos 31,7%. Desde então, houve uma queda contínua que levou essas famílias, cuja renda família situa-se entre R$ 1,5 mil e R$ 17 mil, a se tornaram apenas 27,4% do total. Os pesquisadores acreditam que desde então a situação não tenha melhorado.

A culpa por esse fenômeno, segundo Pochmann, pode ser atribuída a dois fatores. O primeiro é o baixo crescimento, que reduziu o número de empregos e aumentou a competição pelos postos de trabalho e oportunidades. Embora a escolaridade tenha subido, a reprodução da classe média está se tornando mais difícil a cada geração. Não é por outro motivo que 2 em cada 10 jovens graduados na universidade vão viver fora do Brasil. Estão em busca de oportunidades como as que seus pais tiveram e eles já não têm. Trata-se de um dado crudelíssimo de fuga de cérebros em um país com 6 anos de escolaridade média. Parte substancial dos que estudaram 15 anos tem de buscar trabalho como imigrante. A outra explicação para o encolhimento da classe média, convergente com a primeira, é que as exportações tornaram-se o setor mais dinâmico da economia brasileira, mas elas ainda concentram-se em produtos de baixo valor agregado. Geram empregos – foram 1,2 milhão deles no ano passado – mas não de classe média. 90% das novas vagas paga apenas salário mínimo. A forma de inserção do País no mercado global, segundo Pochmann, precisa ser alterada em benefício de postos de trabalho mais qualificados.

Com a redução da classe média – que os autores do estudo não acham irreversível – abre-se uma porta para inquietações sociais e políticas. A estabilidade dos países desenvolvidos deve-se, em grande medida, ao fato de que lá, há várias gerações, duas em cada três famílias está na classe média. Aqui, embora forme um contingente numeroso de 57 milhões de pessoas, a classe média inclui apenas uma de cada três famílias. Com bom grau de escolaridade, socialmente informado e crítico, esse grupo forma o cimento da opinião pública e, ao mesmo tempo, constitui o esteio da democracia liberal. Países com classe média reduzida tendem a ser polarizados entre pobres e ricos, a exemplo do que ocorre ao redor do Brasil em boa parte da América Latina. E aí reside o problema. Nos últimos anos, as políticas econômicas têm sido dramaticamente concentracionistas, reduzindo a importância do setor industrial (que democratiza renda e gera empregos) em benefício do setor financeiro, que faz o mesmo em muito menor proporção. No limite, as estatísticas de Pochmann, projetadas para o futuro, apontam para uma pirâmide social com imensa base de pobres e uma elite reduzida no topo. Um sistema político desse tipo tende ao impasse e ao confronto, quando não à pura estagnação. Até o momento, com alguma sorte e a presença decisiva da classe média, esse tipo de cenário nunca se produziu no Brasil. Mesmo a eleição de Lula, com forte apoio nas camadas populares, teve suporte decisivo das classes médias. Elas funcionam como fator de moderação e vigilância do governo. Na ausência dessa massa crítica, governos podem sentir-se tentados a apoiar-se exclusivamente na massa empobrecida, que exerce menos controle sobre o executivo. Essa situação precisa ser evitada. A revitalização da economia brasileira, a qualificação dos empregos e o fortalecimento da classe média são essenciais para que o Brasil continue a ter cara de Brasil. Ela pode não ser muito bonita, mas ainda é melhor que a cara da Venezuela ou da Bolívia.