| Fotos:Daniel
Wainstein |
|
 |
| |
Os rebeldes: Giulia
Taltassori, de 8 anos, faz parte do grupo de 40% das crianças
que não desistem quando seus pedidos são contrariados.
Em geral, são filhos únicos das classes
A e B. |
 |
|
| |
Eles mandam no seu bolso
As crianças assumem
o comando das finanças da família e hoje já influenciam gastos
da ordem de US$ 1 trilhão em todo o mundo

Por fernanda galvão
O verbo comprar, em forma de súplica, é o mais
utilizado pelas crianças. “Pai, vamos levar a
bicicleta do Batman?”. “Mãe, eu quero uma
mochila da Kipling”. “Compra, por favor, compra...
cooooompra!!” Basta acompanhar pais e filhos num passeio
por qualquer shopping center para ouvir os incessantes pedidos
infantis. É um fenômeno global. Os pequenos tornaram-se
um atraente público consumidor. O motivo: são
eles que mandam no bolso
dos adultos. No mundo inteiro, estima-se que espetaculares
US$ 1 trilhão em gastos nasçam por imposição
da petizada. No Brasil, a quantia é estimada
em R$ 90 bilhões. É um segmento cobiçado
pelo mercado e com imenso poder de fogo. Nos Estados Unidos,
terra
do consumo, os gastos com crianças de 4 a 12 anos aumentaram
400% entre 1989 e 2002 – um americano
de 12 anos gasta, em média, US$ 101 por semana. No
Brasil o cenário é o mesmo, sobretudo nas camadas
sociais mais abastadas.
| Fotos:Daniel
Wainstein |
 |
|
Os estrategistas:
Giancarllo Selucio, de 7 anos, está entre os
cerca de 33% que tentam driblar os pais – quando o pedido
não é atendido,
aceitam e voltam a
fazê-lo algum tempo depois |
 |
Estudo da empresa TNS InterScience no Brasil mostra que a
influência dos pequenos no orçamento da família
não pára de crescer. No levantamento realizado
em 2005 junto a 1,5 mil mães (de 18 a 44 anos) de crianças
e adolescentes com idades entre 2 e 4 anos, foi constatado
que 82% dos filhos influenciavam fortemente no orçamento.
Na mesma pesquisa realizada em 2000, o índice era de
71%. O que esses vorazes compradores infantis querem? Brinquedos
ainda são grande parte dos objetos de desejo, mas eles
agora disputam espaço com eletrônicos, roupas
e recreação. Segundo o levantamento da TNS InterScience,
33% das crianças decidem sobre eletrônicos, 31%
opinam na compra de brinquedos e 33% têm palpites decisivos
nos gastos com lazer. No entanto, o setor em que elas têm
maior poder é o de alimentos – 42% dos filhos
determinam o que será levado do supermercado. Não
à toa, o segmento de chocolate, cacau e balas faturou
R$ 6 bilhões no Brasil em 2005, um aumento de 16% no
período, o maior entre os gêneros da indústria
alimentícia.
O comportamento das crianças diante dos pais pode
ser classificado em três perfis. Entendê-los é
passo fundamental para tentar organizar as finanças
da família. A saber:
| Fotos:Daniel
Wainstein |
|
 |
| |
Os compreensivos:
Entre os pesquisados, 27% são mais resignados e não insistem
quando o pedido é negado, como Pietro Selucio, de 9 anos.
Pertencem em maior número às classes C e D. |
 |
REBELDES: Cerca de 40% das crianças
batem o pé e insistem com os pais. Giulia Taltassori,
de 8 anos, é um desses pequenos determinados até
o último fio de cabelo. “A Giulia é de
temperamento forte”, diz a mãe, a comerciante
Jaqueline Taltassori, de São Paulo. “Quando ela
quer alguma coisa, insiste até conseguir”, resume.
Filha única, Giulia tem seu próprio celular
(da dupla Sandy & Junior, da operadora Claro), adora comida
japonesa e faz questão de escolher todas as suas roupas.
“Se compro alguma coisa de
que ela não gosta, ela não usa mesmo, então,
é melhor fazer logo do jeito da mocinha”, diz
Jaqueline, resignada.
ESTRATEGISTAS: Representam em torno de 33%
dos pesquisados. Se o primeiro pedido é negado, eles
recuam e esperam a melhor hora para um novo ataque. Giancarllo
Selúcio, de 7 anos, é dessa turma. “O
Gian é muito esperto, quando pede alguma coisa e não
é atendido na hora, ele convence até os irmãos
a trabalharem para conseguir o que ele quer”, diz o
pai, Sidnei Selúcio, gerente da Oracle em São
Paulo. Apaixonado por esportes, os jogadores de futebol são
as grandes referências de consumo do menino. “Ele
quer a chuteira igual a do Ronaldo ou a bola que seja da Nike”,
diz o pai. “Eu digo que é muito caro e dou duas
opções: um artigo semelhante mais barato que
ele ganhará hoje ou o produto da marca preferida daqui
a um tempo”, afirma. “O Gian sempre prefere esperar.”
COMPREENSIVOS: De cada dez criança,
três fazem parte desse grupo, ainda segundo a pesquisa
da TNS. Pietro Selúcio, de 9 anos, é de temperamento
completamente diverso do irmão mais novo, Giancarllo.
“O Pietro não liga tanto para marcas e não
é tão consumista”, compara Sidnei. “Sua
única paixão são os games, outros produtos
a mãe compra sem problemas.”
A divisão das crianças segundo suas reações
aos limites dos pais revela o modo como elas deverão
se relacionar com o dinheiro na idade adulta. “Hoje
temos gerações de filhos de pais que trabalham
fora e tendem a querer materializar o afeto por meio de presentes”,
avalia a psicóloga infantil Fabiana Lambert. “Quais
as atividades dos pais com os filhos nas grandes cidades?”,
questiona. “Chega o fim de semana, todos vão
juntos ao shopping, o filho fica na área de jogos eletrônicos,
em seguida assistem a um filme no cinema e depois comem na
praça de alimentação, provavelmente fast
food,” diz. “Com isso, a interação
com os pais é sempre associada pela criança
a uma situação de consumo e isso deverá
ser repetido por ela quando for adulta, num círculo
vicioso que precisamos quebrar.” 
 |
 |
O
poder dos pequenos no orçamento doméstico
 |
 |
| Crianças
que influenciam
nas compras das famílias: |
Setores
em que as crianças
mais opinam: |
 |
| 71% em 2000
80% em 2003
82% em 2005
|
Alimentação
– 42%
Eletrônicos – 33%
Brinquedos – 31% |
 |
 |
Os produtos mais pedidos
são alimentos, entre eles: |
Fatores que determinam
a escolha infantil: |
 |
Biscoitos/ bolachas –
87%
Refrigerantes – 75%
Salgadinhos – 70% |
Propaganda na TV – 73%
Personagem famoso – 50%
Embalagens – 48% |
|
 |
 |
| Os
eletrônicos preferidos |
 |
 |
| 36%
das famílias brasileiras têm pelo menos
um filho com celular
41% é
o número de crianças com aparelho no Japão
15% é
o mesmo índice na Índia
Fonte: TNS InterScience - Estudo com 500 famílias brasileiras
com filhos entre 6 e 15 anos |
 |
 |
 |
|