Ana Paula Paiva

Marco Stefanini, da Stefanini: “A meta é ter metade de nossa receita proveniente
do exterior”

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Gestão para viagem
Aumento de exigências para empresas nos
EUA abre mercado para exportação de
software brasileiro



Por Mariana Ditolvo

Uma das melhores partes do filme Loucuras de Dick e Jane, atualmente em cartaz, são os créditos. Assim que o filme estrelado por Jim Carrey termina, aparecem em letras garrafais agradecimentos a Kenneth Lay, da Enron, Bernard Ebbers, da WorldCom e outros tantos executivos envolvidos nos grandes escândalos corporativos americanos do início da década, que ajudaram a inspirar
a história. Pode parecer exagero, mas algumas empresas brasileiras também deveriam agradecê-los. As novas exigências da lei criada para evitar a “criatividade” contábil, a Sarbanes-Oxley (SOX), obrigaram grandes corporações americanas a buscar soluções alternativas a seus sistemas de controle. Os produtos desenvolvidos por empresas brasileiras – que vivem uma realidade legal, tributária e contábil muito mais complexa – acabaram tornando-se uma boa alternativa a quem tem capital nas bolsas americanas. Segundo estimativas, para atender a SOX, as empresas americanas gastarão US$ 6,5 bilhões em 2006, sendo US$ 2 bilhões previstos para o setor de tecnologia. Parte dessa receita poderá parar nas mãos de empresas brasileiras.

A produtora de software carioca Módulo, por exemplo, tem em seu catálogo um produto em que os relatórios de risco são emitidos a cada três meses, em vez de apresentar apenas a versão anual. O software agradou em cheio ao mercado americano. “Entramos nos EUA no ano passado com o produto certo, na hora certa”, diz Álvaro Lima, sócio-fundador da Módulo. Lançado no Brasil em 2003, o produto foi desenvolvido para atender as necessidades da própria Módulo. Agora, depois de um investimento de US$ 1 milhão, foi adaptado às normas e exigências legais nos Estados Unidos e ganhou espaço. Foi uma aposta certeira. Agora a Módulo pretende fazer com que sua carteira de clientes no exterior passe dos atuais 3% para 10% até o final do ano. Na semana passada, executivos da empresa estavam de malas prontas para embarcar para os Estados Unidos e atender a outro cliente de peso: o governo federal daquele país.

Oportunidades como essa têm sido bem aproveitadas por outros produtores nacionais. Stefanini, RM Sistemas e Datasul são algumas das empresas brasileiras que têm trilhado o mercado externo. “O Brasil já é visto como modelo em software de gestão empresarial”, afirma Jorge Steffens, presidente da catarinense Datasul. A empresa começou sua internacionalização em 1995 e já vende seus produtos na Argentina, considerado o país mais maduro nessa área, Chile, México e Estados Unidos. Sua aposta agora é a Colômbia, onde o mercado de software deve faturar US$ 36 milhões em 2006, segundo a IDC, com cerca de 2 mil potenciais clientes. “A Colômbia está no centro da América Latina. É estratégica”, diz Steffens. O motivo para o sucesso no exterior é o mesmo nos mais diferentes países: o excesso de exigências no Brasil torna o programa facilmente adaptável a qualquer cenário. “Como os produtos já são complexos, é mais fácil prepará-los para outros mercados por preços sedutores”, diz Eduardo Couto, diretor da RM Sistemas, que foca seus negócios internacionais na Europa. Uma das primeiras empresas a buscar a internacionalização, a Stefanini já tem 20% de sua receita anual de R$ 247 milhões proveniente de clientes internacionais. “A meta da empresa é ter metade do faturamento proveniente do exterior em cinco anos”, diz Marco Stefanini, fundador. Felizmente alguém tem se beneficiado com as dificuldades burocráticas para gerir uma empresa no Brasil.

US$ 2 bilhões é quanto as empresas dos EUA gastarão em software para se adequar à lei Sarbanes-Oxley