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Agora é quente!
Depois de cinco anos de boatos,
finalmente a rede americana de cafeterias chega ao País. A questão é: o brasileiro pagará R$ 10 por um expresso?


Por Lílian cunha

O diálogo está na comunidade Starbucks Lovers, no Orkut, um dos maiores sites de relacionamento da internet:

– Quando vai ter Starbucks no Brasil?
– Não sei. Já ouvi boatos de que eles vinham para cá várias vezes. Mas nunca chegam. Eu quero muito que eles venham!
– Eu também quero muuuuuito!

E assim segue. Só nesse tópico de discussão, há pelo menos 100 pessoas clamando pela chegada ao País da maior rede mundial de cafeterias. A comunidade tem mais de 38 mil membros, grande parte deles brasileiros. A boa notícia para esse pessoal louco para tomar café em copinho de isopor é que desta vez a americana Starbucks vem mesmo para o Brasil. Chega aqui pelas mãos do casal Maria Luisa e Peter Rodenbeck, sócios brasileiros dos restaurantes Outback e responsáveis, nos anos 80, pela vinda do McDonald’s. O investimento inicial será de R$ 20 milhões, metade para os americanos, metade dos brasileiros. Maria Luisa diz que está, sim, negociando com a Starbucks – há cinco anos – mas que não há nada de concreto. Fornecedores, empresários do setor e especialistas em varejo e franquias, entretanto, garantiram à DINHEIRO: o contrato já foi assinado e a primeira loja será inaugurada no Rio de Janeiro, em abril. DINHEIRO apurou ainda que um grupo de executivos da rede americana desembarca esta semana em terras cariocas para fechar a compra do imóvel onde será o primeiro Starbucks brasileiro.

 
Peter Rodenbeck: ele e a esposa,
Maria Luisa, sócios do Outback, serão
os parceiros da Starbucks
 

O sigilo é compreensível. Segundo um especialista do setor, contratado há quatro anos para fazer uma prospecção de mercado para o Starbucks, existe uma cláusula no contrato com o parceiro nacional que impede que qualquer anúncio ou informação seja dada antes que a sede, em Seattle, permita. “Mas que o negócio já foi fechado e assinado, isso é certo”, diz. Segundo ele, e a própria Maria Luiza Rodenbeck, a negociação se arrastou pelos últimos cinco anos. No início, um dos candidatos a parceiro da cadeia americana era a Ipanema Coffee, fornecedora da Starbucks e uma das maiores produtoras de café do País, pertencente ao bilionário Júlio Bozano, dono do grupo que leva seu sobrenome. A empresa, que vende 25% de sua produção para o Starbucks, é inclusive administradora de duas obras sociais da Starbucks no Brasil: dois orfanatos para crianças abandonadas, em Santos, no litoral paulista, e em Alfenas, no Sul de Minas Gerais, onde fica a sede da Ipanema. “Tínhamos duas maneiras de crescer em nosso negócio: entrando para o ramo de cafeterias, com o Starbucks como parceiro, ou ampliando nossa produção. Como não havia recurso para as duas coisas, optamos pela segunda”, diz Washington Luiz Alves Rodrigues, diretor superintendente da Ipanema. Apesar de não topar o negócio, a Ipanema não deixou totalmente de lado a idéia de entrar para o ramo das cafeterias e montou sua própria marca: a Cafeera, com quatro lojas em São Paulo.

Outra rede assediada pela Starbucks foi a Fran’s Café, hoje com mais de 90 lojas espalhadas por São Paulo, capital e interior, e Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília e Londrina. “Há quatro anos, o ‘ceo’ da Starbucks, Howard Schultz esteve aqui comigo em meu escritório”, diz José Henrique Ribeiro, diretor executivo do Fran’s. Para ele, a venda da rede não interessava, pois o foco do negócio de Ribeiro são as franquias – e o Starbucks trabalha com lojas próprias, em sociedade com empresários locais em cada país de atuação. Segundo o executivo do Fran´s Café, Schultz, em seus ensaios para fincar a bandeira Starbucks no Brasil, tentou até uma negociação com o governo federal para conseguir incentivos que ajudassem a baixar os preços dos produtos da rede. Em vão.

 
  Schultz, fundador: “O primeiro lugar de uma pessoa é sua casa, em segundo o trabalho e depois, o Starbucks”
 

Café ou cerveja? - São eles – os preços - um dos maiores desafios que o Starbucks irá enfrentar por aqui. Nos Estados Unidos, um expresso custa US$ 2. Aqui, conforme previsões de fornecedores e analistas de mercado, o valor chegaria a R$ 10. Cafés mais elaborados, como o Caffè Latte e o Caffè Vanilla Frapuccino, ficariam em torno de R$ 15. “Lá nos Estados Unidos, eles são uma rede voltada para classe média e média alta. Aqui, ficariam restritos a
um público classe A”, diz João Guilherme Pires Martins, diretor de marketing da Alta Mogiana Specialty Coffee e administrador das fazendas de café do ex-governador Orestes Quércia (que também está ensaiando o lançamento de uma cafeteria, a Octávio). Isso mudaria bastante o perfil da rede, ao se instalar no Brasil. DINHEIRO apurou que ao invés de lojas de rua, a Starbucks migraria para os shoppings (onde está o público de maior poder aquisitivo). E, embora existam previsões iniciais de um crescimento explosivo, que chegaria a 100 unidades em dois anos, o número de cafeterias para o período pode ser mais restrito, até que o consumidor brasileiro se acostume com o cafezinho a R$ 10. Procurada, a porta-voz da Starbucks nos Estados Unidos, Mai Kulthol, não comentou as estratégias da rede. Disse apenas que a Starbucks está entusiasmada com o potencial do Brasil, “mas que, no momento, não tem nenhum anúncio a fazer”. O que se sabe é que o fundador Schultz não gosta nem um pouco de adiar ou frear planos de expansão de sua rede. Nesse ponto, o Starbucks tem o mesmo ímpeto territorial de uma Blockbuster, por exemplo. Schultz costuma dizer que o primeiro lugar de uma pessoa é sua casa, depois o local de trabalho e em terceiro, um Starbucks. “Isso vai ser difícil de acontecer por aqui”, diz Alberto Serrentino, consultor especializado em marketing e varejo e sócio-diretor da Gouvêa de Souza & MD. “Para boa parte dos brasileiros, o terceiro lugar que eles mais freqüentam é o bar, para tomar cerveja, e não café”, diz. Além disso, existe a diferença entre o café que o brasileiro está acostumado a tomar e o servido pela companhia americana.

Mas essa diferença, segundo o próprio Serrentino, pode se tornar um trunfo para o Starbucks. “A marca tem um apelo fortíssimo. As pessoas não vão ao Starbucks só pelo café, mas sim pela experiência. Além, disso, andar com um copinho de café da Starbucks dá status”, diz ele. Marcelo Cherto, presidente do Grupo Cherto, consultoria especializada em franquias, vai mais longe. “Para muita gente, o Starbucks é algo como uma religião. Há até uma linguagem própria dessas pessoas. Elas não falam mais em café com leite, mas sim em Caffè Latte”, afirma. “A loja é o grande chamariz e não o seu produto”. Nas cafeterias de Schultz, o consumidor pode passar de duas a três horas, não só tomando café, mas trabalhando (há como conectar laptops à internet), conversando com amigos ou comprando música. Isso mesmo: há alguns anos, o Starbucks lançou um serviço pelo qual o cliente pode escolher músicas e gravá-las em um CD, tudo dentro da cafeteria. Paga-se por faixa. O sucesso foi tanto que a empresa passou a lançar faixas exclusivas e também criou um selo próprio, com artistas exclusivamente contratados. Até os Rolling Stones já lançaram faixas com o café. A última novidade lançada por Schultz vai um pouco mais além. Agora ele irá, em parceria com, a distribuidora de filmes Lionsgate, promover o lançamento do filme “Akeelah and the Bee”, com estreia em 28 de abril no Estados Unidos. Os baristas – os funcionários que servem os cafés – irão assistir à fita antes da estréia e depois irão comentar o filme com os clientes. A rede também venderá o CD com a trilha sonora. A contrapartida será um percentual não revelado da receita das bilheterias.

O gigante das cafeterias
Getty Images

Fundação: 1971

Número de lojas: mais de 10,5 mil

Movimento: 33 milhões de consumidores por semana

Valor da empresa: US$ 23,94 bilhões

Faturamento: US$ 6,37 bilhões em 2005

Lucro bruto: US$ 3,76 bilhões

Funcionários: 90 mil

E A CONCORRÊNCIA?

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No Brasil o consumo de cafés especiais cresce 18% ao ano. É esse nicho, explorado atualmente por pequenas cafeterias e redes como o Fran’s Café, que o Starbucks quer pegar. “Nosso negócio é diferente. Não temos cara de americano”, diz José Henrique Ribeiro, diretor do Fran’s. Para enfrentar a vinda da Starbucks, ele mudou a arquitetura das lojas, melhorou o cardápio e vai inaugurar mais 22 cafés este ano. A iataliana Illy também já está se mexendo: até 2007 lança no País os Illy Bar Concept. Marco Suplicy, da cafeteria paulistana Suplicy, acredita que o consumo de cafés especiais crescerá.”O interesse pela novidade criará mais consumidores”, diz. Alberto Carneiro, presidente da Casa do Pão de Queijo, concorda. “O Starbucks melhorará a qualidade, o serviço e os preços do setor”, afirma. Que venha o Starbucks!