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Silvio Corrêa da Fonseca
"Plano
de saúde é o pior negócio do mundo"
Presidente da Lincx
Serviços de Saúde diz que a crise na medicina privada vai
chegar às operadoras de alto padrão e avisa: em dois anos
não haverá mais nenhum plano individual no mercado
Por ALEXANDRE TEIXEIRA
O presidente da Lincx Serviços de Saúde, Silvio
Corrêa da Fonseca, começou 2006 em uma situação
de conforto que parece um oásis no deserto de lucros
da medicina privada. O recém-fechado balanço
do ano passado mostra crescimento de 35% nas vendas de planos
de saúde e de 25% no faturamento da empresa, focada
em consumidores de alto poder aquisitivo. Isto, naquele que
talvez tenha sido o ano mais difícil da história
das empresas privadas de assistência médica,
que, apertadas pelo controle de preços da Agência
Nacional de Saúde (ANS), estão desistindo de
vender planos para pessoas físicas. A posição
privilegiada, no entanto, não lhe deixa otimista. “A
crise do nosso setor é seríssima e inevitavelmente
vai chegar ao topo do mercado”, observa Fonseca. “Se
a ANS insistir nas regras atuais, as empresas vão quebrar
ou desistir desse negócio. Em dois anos, ninguém
mais estará vendendo planos individuais”, adverte.
Nesta entrevista à DINHEIRO, o médico-empresário
sugere a criação de um índice de preços
exclusivo para a área médico-hospitalar, a ser
usado como referência para reajustes. E pede tabelamento
de preços de medicamentos, combinado com liberação
das importações para conter o aumento dos custos
médicos.
DINHEIRO – A Lincx cresceu 25% no ano passado,
vendendo planos de saúde para ricos, enquanto os planos
populares andaram para trás. A crise não atingiu
a classe A?
SILVIO CORRÊA DA FONSECA – Somos um plano
diferente. A gente reembolsa consultas e exames de imediato
e cirurgias em cinco dias úteis. E temos credenciadas
as maiores estrelas da medicina brasileira. O público
de alta renda é mais exigente. É um pessoal
que tem condições de pagar um pouco mais para
ter uma qualidade melhor, um atendimento diferenciado. Mas
que exige um produto que cumpra o que promete e tenha um preço
correto.
DINHEIRO – Assim como a Lincx, a Omint também
foca no público de alta renda e vai bem. Plano de saúde
virou artigo de luxo?
FONSECA – Esta crise vai afetar os planos de
saúde de nicho. O que acontece é que nosso produto
foi formulado com preços maiores, tanto de pagamento
para médicos como para clínicas. Então,
nós temos mais capacidade de ajustes.
DINHEIRO – Por que o senhor defende que os
planos top, que já são mais caros, possam dar
reajustes maiores?
FONSECA – Porque há planos de saúde
que trabalham com médicos recém-formados, pagando
15 reais a consulta. E há planos top, que pagam 200
reais aos médicos. Há planos que trabalham com
clínicas mais populares. E outros que trabalham com
clínicas caras, laboratórios caros. Os custos
são diferentes. Do jeito que está, proibido
de reajustar preço, você vai ter que começar
a tirar qualidade da rede. Tirar, por exemplo, os hospitais
de primeira linha, que é o que muitos já fizeram.
Tira-se um Sírio, um Einstein para baixar o custo.
Tira-se um Laboratório Fleury. Detalhe: sem os planos
de saúde, esses hospitais não têm como
continuar.
DINHEIRO – Por que?
FONSECA – Porque hoje 85% da receita dos hospitais
quem dá são os planos de saúde. A hora
em que os planos não puderem pagar esses hospitais,
como eles vão se modernizar? Como o Brasil vai continuar
na vanguarda da medicina? Ou o governo permite a atuação
das operadoras de saúde privadas com uma certa liberdade
de preço ou acaba com a qualidade médica no
Brasil.
DINHEIRO – Se a situação é
difícil nos planos de alto padrão, no restante
do mercado é desastrosa.
FONSECA – Veja o caso da Interclínicas.
Deixaram quebrar um plano de saúde com mais de 80 anos
de mercado. Um plano de saúde sério, que sempre
foi correto. Então eu pergunto: a ANS está aí
só para regular o mercado e deixar as quebradeiras
acontecerem? Ou está aí para, em conjunto com
os planos de saúde, procurar uma solução?
DINHEIRO – O caso da Interclínicas
é uma exceção ou outras empresas grandes
podem ter o mesmo destino?
FONSECA – Permanecendo o controle de preços,
em dois anos não vai ter mais nenhum plano individual
no mercado. A única coisa que vai sobrar vão
ser os planos empresariais, nos quais há a possibilidade
de acerto de preço.
DINHEIRO – Os planos para empresas são
imunes à crise?
FONSECA – Não. Esta é a ilusão
do momento no mercado de planos de saúde. Todas as
empresas estão anunciando que não vão
mais vender planos individuais e familiares, só empresariais.
Mas se o custo da medicina continuar subindo no ritmo em que
está, se o governo não fizer nada para segurar
o custo da medicina, as empresas clientes não vão
ter condições financeiras de aceitar os reajustes
necessários.
DINHEIRO – E aí o que acontece?
FONSECA –Vai começar a rotatividade.
A empresa vai sair desta operadora e mudar para outra que,
para pegar o cliente, põe o preço mais para
baixo. Até que uma outra ofereça um preço
ainda menor e comece tudo de novo. No longo prazo, os planos
empresariais terão problemas.
DINHEIRO – Qual é a saída para
conter os custos médicos?
FONSECA – Hoje em dia, o que impacta mais no
custo médico é o preço de medicamentos
e materiais cirúrgicos. Então, o governo podia
ter uma lista de medicamentos e materiais que não são
fabricados no Brasil e isentá-los de impostos. Ou o
governo tira o imposto ou subsidia esse material, para fazer
com que o custo da medicina caia.
DINHEIRO – E o que não é importado?
FONSECA – É preciso que o governo passe
a olhar os fornecedores desses materiais, como agulha, seringa,
tudo isso. Porque senão os planos de saúde não
vão agüentar. A Anvisa (Agência Nacional
de Vigilância Sanitária) poderia fazer um controle
de tudo isso. O Idec e o Procon, que se preocupam em defender
o consumidor, deviam começar a discutir isso. Como
baixar o custo da medicina, para que os planos fiquem mais
baratos, para trazer mais gente para dentro do sistema, diminuir
a sobrecarga do SUS e todo mundo ter um atendimento melhor?
DINHEIRO – O senhor defende o controle de preços
para remédios?
FONSECA – Deveria haver um preço único
para todos esses materiais, determinado pela Anvisa. Aí,
um hospital quer cobrar 10% de taxa de comercialização?
Cobra. O outro quer cobrar 30%? Cobra. Só precisa ver
se o plano de saúde quer pagar aquele de 30%.
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