| Roberto Castro |
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João Antonio Felício
"Vamos
radicalizar contra
os juros altos"
O novo presidente
da Central Única
dos Trabalhadores diz que pode usar
até greves para forçar o governo Lula
a mudar a política econômica
Por joaquim castanheira
A maioria das pessoas se surpreende quando o novo presidente
da Central Única dos Trabalhadores, CUT, João
Antonio Felício, declara sua profissão: professor
de artes plásticas. Num cargo sempre ocupado por metalúrgicos,
como Jair Meneghelli, Vicente Paulo da Silva e Luís
Marinho, ele não é um estranho no ninho? “Não”,
diz sorrindo. “Fiz um curso de torneiro mecânico.”
Mas o verdadeiro motivo de sua ascensão vem de uma
longa história de militância em agremiações
de esquerda no período da ditadura militar (1964/1985),
no PT e na CUT, onde se encontra desde a fundação.
Felício, 53 anos, completará o mandato de Luís
Marinho, convidado para assumir o Ministério do Trabalho
do governo Lula. À frente da maior central sindical
do País, Felício garante que será mais
incisivo nas críticas à política econômica
do atual governo. “A situação já
permite um afrouxamento da política de juros. Tivemos
até deflação. Não há porque
manter os juros nesse patamar”, diz ele, na entrevista
a seguir. Mas, sobre a crise política, faz um alerta:
“não aceitamos o impeachment do presidente.”
DINHEIRO – Nesses dois anos e meio de governo
Lula, a CUT não foi
pouco enfática na condenação de uma política
econômica que criticava com veemência no governo
de Fernando Henrique Cardoso? Em sua gestão isso mudará?
JOÃO ANTONIO FELICIO – Quando o presidente
Lula foi eleito, criou-se uma expectativa muito forte, e nós
tivemos de agir de acordo com essa expectativa, com a esperança
depositada no novo governo. O Lula foi obrigado a fazer um
choque, pois a situação que ele encontrou era
muito difícil. O País não tinha credibilidade,
não era respeitado, a inflação voltara
com muita força. Mas essa fase passou. Agora, ela exige
uma radicalização de nossa parte na crítica
à política econômica e aos juros altos,
principalmente. Não podemos aceitar uma gestão
econômica que mantém uma lógica com a
qual não temos qualquer identidade. A situação
de hoje já permitiria um afrouxamento na política
de juros. Tivemos recentemente mais de um mês com deflação.
Não há porque manter as taxas nesses níveis.
DINHEIRO – Então por que a CUT está
demorando para agir se a gestão do governo Lula é
semelhante à de FHC?
FELICIO – Eu nunca faria uma comparação
entre eles. O Fernando Henrique criava 20 mil empregos por
mês com carteira assinada. O Lula, 120 mil. Mas o Brasil
precisa de um crescimento de 5% a 6% durante vários
anos.
DINHEIRO – Essa mudança passaria pelo
afastamento de Henrique Meirelles da presidência do
Banco Central?
FELICIO – Por mim, o Lula deveria ter afastado
o Meirelles há muito tempo. Eu já o teria demitido.
DINHEIRO – E o Palocci (Antonio Palocci, Ministro
da Fazenda)?
FELICIO – Eu não entraria nesse processo.
Ele faz parte do círculo íntimo de Lula, tem
uma história vinculada ao partido e foi responsável
por uma gestão boa em Ribeirão Preto. O que
ele precisa é se libertar das amarras, da visão
ortodoxa da economia. Tirar o Palocci agora seria temerário.
É melhor fazer uma mudança paulatina do que
uma ruptura brusca.
DINHEIRO – Até onde essa radicalização
pode chegar?
FELICIO – Nosso objetivo é disputar
espaço na opinião do governo e, para isso, podemos
até nos aliar com setores empresariais que possuem
críticas à política econômica.
Mas podemos chegar a um grau de radicalização
maior com diversos instrumentos.
DINHEIRO – Quais?
FELICIO – Podemos radicalizar as categorias
profissionais que querem aumentos salariais. A greve, por
exemplo, é um instrumento legítimo. Para ter
aumento salarial, é necessário que a economia
cresça.
DINHEIRO – Com a crise política e o
enfraquecimento do governo, o
sr. vê possibilidade de mexer na área econômica,
a única preservada
no governo?
FELICIO – Queremos preservá-la, mas
com sinais de mudança, porque caso contrário
não haverá crescimento duradouro. Não
temos objetivo de derrubar ninguém. O governo Lula
foi forçado a estabelecer certas alianças por
ser um partido minoritário no Congresso.
DINHEIRO – As alianças poderiam ser
outras, e não essas com PTB e PMDB, que negam a própria
história do PT?
FELICIO – As alianças eram necessárias.
O erro foi no método, como estabelecer alianças
com partidos de comportamento fisiológico. O certo
seria fazer alianças pontuais, em cima de projetos
específicos. Por isso, quando o Lula tomou posse, a
primeira grande reforma defendida pela CUT foi a política
e, logo a seguir, a tributária. Esta é importante
porque define a arrecadação, o tamanho do estado
e quem vai pagar a conta. Hoje quem paga a conta é
a classe média. O sistema financeiro não paga
nada e é quem mais ganha no País.
DINHEIRO – O sr., como antigo militante, não
se sente traído quando vê essas denúncias
no jornal?
FELICIO – Eu me sinto como a grande maioria
da base militante. Não tivemos informações
e agora somos surpreendidos com um conjunto de informações
que afeta a história do partido – um partido
que surgiu criticando duramente a falta de transparência
e ética. Mas a história vai preservar esse partido.
O PT vai se recuperar. Precisamos fazer um debate interno
e mudanças necessárias na forma de gestão,
para que o PT se volte novamente para os movimentos sociais.
DINHEIRO – O envolvimento do deputado João
Paulo Cunha é um caso em particular. Sua trajetória
foi a de um típico militante de base do movimento sindical,
da CUT e do PT. Como o sr. vê esse caso?
FELICIO – Eu acho uma pena. Um deputado do
PT, como o João Paulo, é informado de que há
um montante de recursos numa agência bancária
para financiar uma campanha. Depois ele é obrigado
a se afastar, ser cassado ou a renunciar, pois apanhou esses
recursos. A cassação é a opção
mais radical. Mesmo que tenha havido um desrespeito à
lei eu não optaria por esse tipo de radicalização.
DINHEIRO – Não seria o momento de radicalização,
já que é necessário dar punições
exemplares para depurar o ambiente político?
FELICIO – Observe bem: um deputado é
informado de que havia recursos no banco para pagar despesas
de campanha. Quem avisou esse deputado que os recursos eram
de caixa dois? Você é informado que tem R$ 20
mil ou R$ 30 mil, e isso para os padrões das campanhas
brasileiras é dinheiro de pinga, e de repente é
cassado?
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