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A culpa é do mordomo
por
Carlos José Marques
É todo mundo inocente – ou “inocêncio”,
na definição ato falho do ex-ministro José
Dirceu no seu depoimento, semana passada. Ninguém na
corrente financeira que torrou milhões para azeitar
relações dos partidos com o Governo sabia de
nada. Dinheiro ia e vinha, malas voavam, centrais de distribuição
eram montadas em bancos e hotéis, tudo com o desconhecimento
geral. O então presidente do PT, José Genoíno,
antes de renunciar, adotou a estratégia de dizer que
nada sabia das gestões de seu ex-tesoureiro Delúbio
Soares, acusado de estar à frente de um polpudo caixa
de repasse a partidos. Genoíno assinava sem ver, emprestava
autonomia, concordava sem saber. O ex-ministro Dirceu –
no mesmo comportamento padrão, que vai se tornando
sistêmico – foi taxativo: também nada sabia.
Se ocorreram empréstimos privados ao PT e este repassou
recursos a outros partidos para que eles se alinhassem com
o Governo na pauta de votações, não tinha
nada a ver com o então ministro chefe do Gabinete Civil,
José Dirceu. Logo ele que, no cargo, cuidava justamente
do quê? Da articulação política
e, inevitavelmente, se utilizou do seu partido PT –
do qual já foi comandante-mor por anos – para
negociar acordos parlamentares e montar a tão desejada
base de apoio. O dinheiro saía, o apoio vinha, PT e
Governo ficavam felizes, mas ninguém tinha nada a ver
com isso. E o que dizer do presidente, que governava, conquistava
o apoio parlamentar a sua gestão, e também nada
sabia? O deputado Darcísio Perondi, do PMDB gaúcho,
assistindo à cena do embate entre Dirceu e Jefferson
na CPI, deu talvez a melhor definição do atual
quadro: “Os dois (Jefferson e Dirceu) são inocentes
e Lula teve otite, ficou surdo, teve lepra, perdeu o olfato,
teve diabete, ficou ruim da cabeça. O Lula, coitado,
não sabe de nada”. Os brasileiros vão
descobrindo dia após dia, depoimento a depoimento,
no andar das CPIs, que vivem num país de abduzidos,
onde a alienação tomou conta e os saqueadores
podem fazer a festa. Depois, a culpa fica para o mordomo.
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