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Chocolate amargo
A marca centenária está mais presente na mente e no coração dos brasileiros do que em seu café da manhã. É possível reverter esse quadro?

Por joaquim castanheira

Peça a qualquer brasileiro para citar as marcas de achocolatados que ele conhece. Ao lado dos obrigatórios Nescau e Toddy, certamente aparecerá o nome Ovomaltine (a rigor nem é achocolatado, pois a principal matéria prima é extrato de malte). É daqueles produtos que todos conhecem e gostam, mas poucos lembram da última vez que o consumiram. Uma das mais tradicionais marcas de produtos matinais do País, o Ovomaltine de hoje está muito mais presente na mente dos consumidores do que no café da manhã dos brasileiros. Sua participação de mercado não supera 2%, segundo dados da Nielsen – fruto de anos sem investimentos em inovação e marketing. A última campanha publicitária foi ao ar há sete anos. Agora, a Novartis, dona da marca, tenta tirar o produto da hibernação. Nada que vá alterar significativamente sua posição, mas que pode lhe dar um novo alento. “Vamos preservar esse patrimônio”, diz Nelson Mussolini, diretor corporativo da Novartis.

Fotos: Ana Paula Paiva
Mussolini, diretor: próximo passo é lançar novos produtos com a marca Ovomaltine.

Será uma tarefa árdua. O centenário Ovomaltine possui atualmente, segundo especialistas, uma imagem difusa. Não carrega o apelo de aventura e energia de seus concorrentes, mas também não padece do estigma de produto ultrapassado, envelhecido. O Ovomaltine vive hoje uma situação inusitada. Pertence a uma empresa, a inglesa Associated British Foods, é administrada no Brasil por outra, a suíça Novartis, e fabricado por uma terceira, a brasileira Liotécnica. Mais: no portifólio da Novartis, gigante farmacêutico de US$ 28 bilhões, o ele é um produto deslocado e solitário. A divisão onde está alocado, chamada Infant & Baby, fatura R$ 37 milhões no Brasil (a receita total da companhia atinge R$ 1,3 bilhão). Uma parte das vendas da divisão vem da Lillo, uma linha de acessórios para bebês, como chupetas e mamadeiras, dona de 50% desse mercado. O que há mais próximo do achocolatado são dois itens, também voltados para os fedelhos: uma farinha láctea e um mingau de arroz, lançados há pouco menos de dois anos. Ou seja, o Ovomaltine é um produto de consumo numa empresa de medicamentos. Distribuição, marketing, canais de venda, apelos de consumo – tudo é diferente entre eles.

Talvez por isso, os planos da Novartis são modestos para o Ovomaltine. “Não temos intenção de aumentar a produção”, afirma César Boulos, gerente de marketing da divisão Infant & Baby. “Pretendemos crescer com extensão de marca.” Nos próximos anos, sete ou oito novos itens chegarão ao mercado, sempre utilizando o nome Ovomaltine. Podem ser novos sabores ou outros produtos como sorvete, chocolate, cereal ou até uma pasta à base de malte, muito em voga na Europa. Talvez a Novartis também aproveite a oportunidade para resgatar um dos traços de identidade da marca: a embalagem. A tradicional lata cilíndrica envolta num rótulo alaranjado foi substituída por sachês.

A decisão, tomada há pouco mais de um ano, tinha como objetivo minimizar um dos principais obstáculos à expansão das vendas: o preço. A nova embalagem é mais barata do que a lata convencional. O Ovomaltine sai por 25% a 30% mais do que outros achocolatados e essa foi uma forma de reduzir custos. Segundo Boulos, há limites para abater despesas no processo de produção. “A matéria-prima é o extrato de malte e não chocolate e açúcar como o dos concorrentes”, cutuca ele. “E o malte é muito mais caro.” Além disso, complementa, o processo de produção é mais demorado para que não haja perda de nutrientes. “Por isso, resolvemos mexer na embalagem.” Para especialistas, a solução pode ter sido equivocada. “Uma embalagem tradicional é parte integrante da marca”, diz Eduardo Tomiya, da Interbrand, consultoria em gestão de marcas. “Se havia um problema de preço, uma saída seria posicioná-lo como produto premium.”

A Novartis possui a seu favor um patrimônio preservado pelo Ovomaltine. As mães ainda o vêem como produto nutritivo, daqueles que incentivam a molecada a tomar leite. A galera se amarra no sabor. Tanto que o milkshake de Ovomaltine é um campeão de vendas no Bob’s, uma das maiores redes de fast food do País. Segundo Boulos, há quatro comunidades de orkut no Brasil sobre o produto. Nele, navegam 120 mil consumidores. O desafio da Novartis é transformar esse potencial em consumo.

R$ 1,3 bilhão é a movimentação do mercado de achocolatados

2% é a fatia de mercado do Ovomaltine

R$ 27 milhões é seu faturamento anual