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"Já vi
o boy sair com o motorista para tirar R$ 1 milhão
do Banco Rural. Para dividir dinheiro, entendeu?"
"No dia 23 de setembro de 2003, uma terça-feira,
foi fechada a suíte presidencial do Sofitel para
levar todo mundo para lá. Era uma festa para oito
pessoas, com gente do PT também" |
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A
testemunha Karina
Ex-secretária
do publicitário Marcos Valério, acusado de ser
um dos operadores do mensalão pago a aliados do PT,
revela o elo da agência SMP&B com o governo

Por Leonardo Attuch
Fernanda Karina Ramos Somaggio, entre abril de 2003 e janeiro
de 2004, foi secretária direta do publicitário
Marcos Valério de Souza, um dos donos da agência
de publicidade mineira SMP&B. Responsável pelas
contas de duas estatais, os Correios e o Banco do Brasil,
e ainda da Câmara dos Deputados, a SMP&B está
entre as agências que mais cresceram nos últimos
anos. Seu sócio, Marcos Valério, foi apontado
pelo deputado Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB,
como um dos operadores do mensalão. “Era ele
quem pagava; era o homem de Delúbio Soares (o tesoureiro
do PT) que carregava a mesada na mala”, disse Jefferson.
Como o parlamentar não apresentou provas, a cúpula
do governo passou a atacá-lo. O ministro José
Dirceu, por exemplo, disse que Jefferson é um réu
que tenta se transformar em vítima. Marcos Valério
divulgou nota contestando as acusações. “Jefferson
desqualifica a sua própria denúncia, uma vez
que garante não ter provas, documentos nem testemunhas
do que afirmou” dizia o texto divulgado pela SMP&B.
A secretária Karina estava numa posição
privilegiada na equipe de Marcos Valério. E foi dessa
posição estratégica que ela presenciou
fatos – relatados na entrevista a seguir – que
podem vir a endossar as denúncias de Jefferson. “Já
vi saírem malas de dinheiro”, disse Karina. “Às
vezes, mandavam tirar R$ 1 milhão, em dinheiro, no
Banco Rural”.
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| Roberto Jefferson:
Deputado acusa Marcos Valério de carregar a mala
com o dinheiro da propina |
Era Karina quem agendava os compromissos pessoais e profissionais
de Marcos Valério, anotando tudo na agenda, que guarda
em seu poder. Nela, constam os encontros, com dia, local e
hora, entre Marcos Valério e vários dirigentes
do PT. O interlocutor mais freqüente de Valério,
segundo Karina, era Delúbio Soares. “Eles se
falavam pelo menos uma vez por semana”, afirma. O segundo
na lista era Sílvio Pereira, secretário-geral
do PT e responsável pelas nomeações nas
estatais. Ela cita até mesmo o ministro José
Dirceu. “O Dirceu e o Marcos Valério falavam
diretamente” Segundo Karina, os encontros entre Valério
e os petistas ocorriam sempre em hotéis. “Tudo
na surdina”, diz ela. Num deles, no Maksoud Plaza, em
São Paulo, Valério teria se encontrado com Sílvio
Pereira. Em outro, no Blue Tree, em Brasília, a reunião
era com Delúbio Soares. Karina acusa o ex-chefe de
organizar festas para dirigentes do Banco do Brasil. Festas
em que, segundo ela, “rolava dinheiro, rolava mulher”.
Karina também afirma ter comprado passagens aéreas,
com recursos da SMP&B, para uso pessoal da secretária
do deputado João Paulo Cunha (PT-SP), na época
em que ele presidia a Câmara dos Deputados. Ainda em
2003, um irmão de Anderson Adauto, então ministro
dos Transportes, teria ido à sede da SMP&B. “Ele
saiu de lá com uma mala de dinheiro”. Suas revelações
atingem até personagens de governos passados. Pimenta
da Veiga, ministro das Comunicações no segundo
mandato de Fernando Henrique Cardoso, teria recebido R$ 150
mil da SMP&B, em duas parcelas.
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| "O Delúbio
Soares voa no jato do Banco Rural. É a pessoa mais
próxima da agência e fala com o Valério
uma vez por semana" |
Karina foi entrevistada pela DINHEIRO em duas ocasiões.
Seu primeiro depoimento foi dado no dia 2 de setembro de 2004.
Naquele momento, a decisão editorial da revista foi
guardar a fita e continuar avançando nas investigações
sobre as relações entre a agência SMP&B
e a cúpula do PT. Como se tratam de acusações
graves, era necessário buscar mais elementos para,
com segurança, publicar a história. Nesta semana,
após a afirmação do deputado Roberto
Jefferson, que diz ter presenciado pagamento feito pelo publicitário
Marcos Valério de R$ 4 milhões ao próprio
PTB, a revista DINHEIRO voltou a entrevistar Karina, que poderá
ser uma testemunha importante da CPI dos Correios e do “mensalão”.
Ela reafirma as acusações e ainda acrescenta
novos detalhes, como as datas, os locais e as horas dos encontros
de Valério com dirigentes petistas.
Karina é uma brasileira de classe média. Mora
em Belo Horizonte, vive numa casa simples e tem um filha.
Diz que faz as denúncias por patriotismo. “Quero
que o Brasil melhore”. Em todas as eleições
que participou, ela votou no PT. “Sempre fui petista”.
Seu depoimento remete ao de outro brasileiro comum, o motorista
Eriberto França que, em 1992, apontou ligações
entre o tesoureiro PC Farias e a Casa da Dinda, onde morava
o ex-presidente Fernando Collor de Mello. A seguir, as duas
entrevistas exclusivas que Karina concedeu à DINHEIRO,
em que ela relata até ameaças que teria sofrido.
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| " Depois do Delúbio,
a pessoa mais ligada à SMP&B é o Sílvio
Pereira. Em outubro de 2003, ele esteve com o Valério
no Maksoud Plaza" |
DINHEIRO – Durante quanto tempo a senhora trabalhou
na agência de publicidade SMP&B?
KARINA SOMAGGIO – Trabalhei lá
entre abril de 2003 e janeiro de 2004.
DINHEIRO – O que a senhora fazia?
KARINA – Eu era secretária direta
do Marcos Valério, um dos donos.
DINHEIRO – O que chamou sua atenção
ali?
KARINA – Eu li a entrevista que vocês
fizeram com o Delúbio Soares, o tesoureiro (capa da
DINHEIRO, em 25 de agosto de 2004). Parecia que ele é
gente boa, mas não é nada disso.
DINHEIRO – Por quê?
KARINA – Ele faz intermediação
de negócios. Por exemplo: a SMP&B tem a conta do
Banco do Brasil na parte de esportes através da Multiaction,
uma das agências do grupo. E é tudo negociata.
Eu sei que eles passam dinheiro para o pessoal do governo.
DINHEIRO – Como isso é feito?
KARINA – O Marcos Valério manda
e tem um pessoal do departamento financeiro que só
faz isso.
DINHEIRO – E como a senhora tinha conhecimento?
KARINA – Ele era meu chefe. Eu estava
sempre com ele. Todo mundo sabe que tem mutreta no fato de
a empresa ter um bom dinheiro do Banco do Brasil.
DINHEIRO – Haveria pagamentos de propinas a
gente do governo?
KARINA – Eu já vi sair muito
dinheiro de lá.
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