| Helvío
Romero/AJB |
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A
versão do juiz Nicolau
Em sua primeira entrevista,
o juiz
Nicolau dos Santos Neto fala dos
gastos no TRT, de sua riqueza, dos
carros importados, das contas no
Exterior e da vida na prisão domiciliar

Por Joaquim
Castanheira
Na manhã da quinta-feira passada, 19 de maio, o juiz
Nicolau dos Santos Neto sentou-se em uma poltrona da sala
de estar de sua residência para receber a reportagem
da DINHEIRO. Vestia um robe com listras verdes e azuis, sobre
o pijama de estampa idêntica. Os passos lentos revelavam
dificuldade de locomoção e um processo de decadência
física indisfarçável. Durante a conversa,
a voz fraca e claudicante sumia lentamente até se tornar
um sussuro. Mais de uma vez, ele interrompeu as respostas
para tomar fôlego.
Em outra oportunidade, fechou os olhos por alguns segundos,
num rápido cochilo. São os efeitos, segundo
ele, da pesada medicação contra a depressão
que se instalou há quase cinco anos. As feições
abatidas em nada lembravam o homem articulado de 1999, quando
se tornou protagonista de um dos maiores escândalos
financeiros da história do País, conhecido como
“caso Lalau”. No decorrer dos trabalhos da CPI
do Judiciário, uma denúncia de seu ex-genro
Marco Aurélio de Oliveira revelou desvio de R$ 169
milhões nas obras para construção do
Tribunal Regional do Trabalho, em São Paulo. O juiz
era presidente da Comissão de Obras do empreendimento.
A partir daí teve sua vida financeira esmiuçada.
Segundo os promotores, Nicolau havia acumulado um patrimônio
milionário que incluía apartamento em Miami,
carros esportivos de luxo e contas no exterior de US$ 12 milhões.
Quando o cerco se apertou, Nicolau desapareceu e ficou foragido
por mais de 220 dias. Em dezembro de 2000, entregou-se à
Justiça e nunca mais conheceu a liberdade. Passou pelas
celas da Polícia Federal, em São Paulo, até
que seu advogado conseguiu transformar a detenção
em prisão domiciliar. Foi condenado a 11 anos de prisão
dois meses atrás, em segunda instância. Nesses
quatro anos e meio, Nicolau nunca se pronunciou fora dos tribunais.
A entrevista à DINHEIRO foi precedida por cerca de
seis meses de negociações e diversos contatos
informais. Antes de concedê-la, fez questão de
solicitar autorização escrita à Justiça
de São Paulo, deferida pela desembargadora Suzana Camargo.
Na quinta-feira passada, conforme determinado pela Justiça,
um agente da Polícia Federal permaneceu à porta
da residência de Nicolau enquanto o encontro com a reportagem
de DINHEIRO se desenrolava. O viés de magistrado o
acompanha até hoje, como revela a exigência do
aval judicial para a entrevista e muitas de suas respostas.
Volta e meia, ele recorre aos autos do processo para expor
seus pontos de vista. A seguir, a versão do juiz Nicolau
dos Santos Neto sobre um dos mais rumorosos escândalos
dos últimos anos:
| Paulo Liebert/AE |
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| " Vou lhe contar
o que eu fiz: realizei um sonho há muito
reivindicado pela magistratura e pela população.
Dei-lhes um fórum moderno, à altura do cidadão
brasileiro, que não fosse aquele favelão
cheio de inundações e ratos" |
DINHEIRO – O prédio do TRT em São
Paulo custou caro?
Nicolau – Há nos autos uma declaração
do Ministério do Planejamento de que o prédio
custou em torno de R$ 169 milhões. Não sou eu
que falo. Não inventei. Está nos autos. Qualquer
pessoa pode ver.
DINHEIRO – Os promotores falam em desvio de
R$ 169 milhões da obra do TRT. Onde foi parar esse
dinheiro?
Nicolau – Não pode haver desvio.
Foi um plano para comprar um pacote fechado incluindo todas
as etapas, até escrituras e registro dos imóveis.
O preço foi estipulado antes. Não tinha como
aumentar ou diminuir o valor. Como então pode haver
desvio se o preço foi fechado antes? Além disso,
os prédios estão lá.
DINHEIRO – Mas a contestação
era a respeito do valor da obra e do desvio do dinheiro destinado
a ela.
Nicolau – O dinheiro público
da obra jamais passou pelas minhas mãos. A verba era
orçamentária, votada pelo Congresso Nacional
e sancionada pelo Sr. Presidente da República. Os pagamentos
eram feitos por Brasília diretamente à empreiteira
Incal. Eu não assinava nenhum cheque, nem qualquer
outro tipo de ordem de pagamento.
DINHEIRO – Não houve suplementações
da verba original, que encareceram a obra e teriam dado margem
a desvios?
Nicolau – Só houve suplementações
em função dos atrasos dos pagamentos da obra.
DINHEIRO – Essas suplementações
saíam do Ministério do Planejamento. Há
fitas que registram conversas suas, nas quais o sr. dizia
que o então ministro Martus Tavares liberava verbas
para o TRT a pedido de Eduardo Jorge (então secretário
geral da Presidência no governo Fernando Henrique Cardoso).
Nicolau – Quem inventou isso? Onde
estão as provas? Onde estão essas fitas? Nem
era meu papel solicitar verbas. As verbas eram orçamentárias
e cabia ao Congresso dizer se estavam regularizadas ou não.
O Congresso nunca vetou verba.
DINHEIRO – Nas fitas, o senador Romeu Tuma
aparece como o parlamentar que assinava esses pedidos de suplementação.
O sr. o conhecia? Chegou a nomear parentes do senador no Tribunal?
Nicolau – Também não
sei se o senador era defensor das obras. Eu disse Congresso,
não destaquei nome de ninguém. Enfim todos os
parlamentares que aprovaram as verbas.
DINHEIRO – O sr. tinha relacionamento com o
senador Romeu Tuma?
Nicolau – Era um relacionamento normal,
como o que eu tinha com todas as pessoas. Era muito fácil
se relacionar comigo. Hoje não é mais, porque
estou depauperado.
| Fotos: Katia Tamanaha/AE |
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| Prisão domiciliar:
O juiz mora com a mulher e uma das três filhas em
sua casa no Morumbi (SP) |
DINHEIRO – O próprio Eduardo Jorge comentou
que conversava com o sr. para que as sentenças no TRT
não fossem lesivas ao Plano Real.
Nicolau – Onde o sr. leu isso? Eu fui
acareado com o sr. Eduardo Jorge e ele não disse nada
disso.
DINHEIRO – Qual sua relação
com o Governo Federal, enquanto era presidente do Tribunal
Regional do Trabalho de São Paulo?
Nicolau – Exclusivamente funcional,
mas no Brasil inteiro todos sabiam que a Justiça do
Trabalho não abria mão de defender a população.
DINHEIRO – O sr. mantinha contatos freqüentes
com os empresários Fábio Monteiro de Barros
e José Eduardo Ferraz, donos da Incal, e o então
senador Luiz Estevão, que foi apontado como o verdadeiro
proprietário da Incal?
Nicolau – Não.
DINHEIRO –Mas na qualidade de presidente da
Comissão de Obra, o sr. não tinha contato com
eles?
Nicolau – Não. Só quando
eu visitava a obra e fazia isso quase diariamente, eu tinha
contato não com eles, mas com os engenheiros. A cada
dois ou três meses, íamos todos os juízes
juntos, fazíamos reuniões com os proprietários.
Mas eram encontros públicos, abertos a todos.
DINHEIRO – Os promotores falam que Luiz Estevão
fez depósito de US$ 1 milhão em uma de suas
contas no exterior. Por que ele fez esse depósito?
Nicolau – Eu já li uma vez sobre
isso e tive uma grande surpresa.
DINHEIRO – A Justiça diz que encontrou
US$ 12 milhões em contas suas no exterior.
Nicolau – Eu gostaria de ter tanto
dinheiro, mas não tenho US$ 12 milhões. O que
eu tenho é o que está nos autos.
DINHEIRO – Menos do que isso?
Nicolau – Mas não chega nem
perto de parte disso.
DINHEIRO – Como o sr. acumulou sua fortuna?
Nicolau – Eu trabalhei como advogado
antes de entrar na magistratura. Tinha clientela ampla e tive
muito êxito. Eram muito e bons clientes. E trabalhei
desde 1954. Mesmo quando fui nomeado procurador do Ministério
Público junto à Justiça do Trabalho eu
continuei advogando. E recebi uma herança de uma pessoa
que era como se fosse meu pai. Um homem que teve muito sucesso
na vida e me deixou uma boa parcela de dinheiro para mim.
DINHEIRO – Qual quantia ele deixou para o sr.?
Nicolau – Tudo isso eu esclareci nos
autos. Alguns dados ... minha cabeça não ajuda.
Se eu falar para o sr. que é isso ... O sr. encontra
isso nos autos. Eu tinha um nível de vida muito bom
antes da magistratura. Tive colegas que também ingressaram
na magistratura e em minha aposentadoria, eles fizeram referência
à minha vida na faculdade. Eu estava sempre acima da
média.
DINHEIRO – Era o suficiente para o sr. ter
vários carros com os quais o sr. aparece em fotos,
além do apartamento em Miami?
Nicolau – Eu tinha dois veículos
que estavam declarados. Mas deram uma relação
de carros que nunca tive. Eu gosto de mecânica. Quando
se vai a uma viagem ao exterior é comum a gente se
fotografar ao lado de um carro. E a partir daí veio
essa história de que eu tinha vários carros.
DINHEIRO – Quais eram os carros?
Nicolau – Era uma Mercedes e um outro
esportivo.
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