| Fotos: Zeca Caldeira |
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A versão
aeroporto do Tietê
O maior terminal
rodoviário da
América Latina passa por uma reforma radical, se transforma
em um pólo de consumo e fatura R$ 150 milhões

Por Joaquim
Castanheira
Hoje, é possível afirmar sem medo de errar.
O Terminal Rodoviário do Tietê, o maior da América
Latina, se transformou em um verdadeiro aeroporto, pela modernidade
e estrutura de ponta que assumiu a partir de uma profunda
reforma iniciada há um ano – que mudou totalmente
suas feições e consumiu R$ 14 milhões.
A cada ano, mais de 30 milhões de pessoas circulam
por seus corredores amplos e claros. Tem gente que fica, tem
gente que vai, há encontros e despedidas. Mas entre
a chegada e a partida, eles consomem. E como consomem. Anualmente,
a multidão que transita por ali desembolsa R$ 150 milhões
em passagens, cafezinhos, sanduíches, perfumes, revistas,
pães de queijo, cartões telefônicos, mais
um cafezinho, corridas de táxi. Essa dinheirama é
o coroamento do processo de reestruturação.
A cirurgia plástica transformou o terminal radicalmente.
Marcas como Dunkin Donuts, Le Postiche e Casa do Pão
de Queijo desembarcaram no local. Os guichês envidraçados
para a venda de passagens foram substituídos
por balcões, à semelhança dos check-in
de aeroportos. As fileiras de cadeiras, concentradas em um
único ponto como se fosse sala de espera de repartições
públicas, deram lugar a ilhas de descanso, espalhadas
pelo terminal. O piso,
agora revestido por material plástico, claro e brilhante,
mantém aspecto
permanente de limpeza.
| Fotos: Zeca Caldeira |
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| SOUZA FILHO, O PRESIDENTE
“Com a reforma, atraímos marcas
conhecidas e, com elas, os passageiros passaram a consumir
mais e mais” |
Não há desníveis entre os ambientes
ou nas entradas de lojas, facilitando a locomoção
de idosos e deficientes físicos. Com as mudanças,
o tempo de permanência dos usuários na rodoviária
saltou de 33 minutos para 1h23. “Atraímos
marcas conhecidas e, com elas, os passageiros passaram a consumir
mais e mais”, diz Altair de Souza Filho, presidente
da Socicam, empresa responsável pela gestão
do terminal.
A multidão que atravessa os corredores do terminal
faz da loja do Bob’s a campeã de vendas entre
os 450 pontos-de-venda da rede no País, graças
a um faturamento mensal de R$ 320 mil. Um dos quiosques da
Casa do Pão de Queijo registra a maior venda por metro
quadrado no Brasil. São R$ 200 mil a R$ 250 mil arrecadados
mensalmente em apenas 16 metros quadrados. “É
um dos nossos melhores pontos”, diz Renata Rouchou,
gerente geral de expansão da Casa do Pão de
Queijo. “O desempenho nos incentivou a ir para outros
terminais.” Foi ainda no Tietê que a cafeteria
Ritazza, dona de quatro mil lojas em 30 países, desembarcou
pela primeira vez em território brasileiro.
| Fotos: Biô
Barreira |
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| GABRIELLE, BERENSTAIEN
E KHANIS Negócios, produtos e serviços
voltados para quem tem alto poder aquisitivo |
A bússola que norteou as mudanças foi uma pesquisa
realizada pela Nielsen. Dela, emergiu um tipo de consumidor
que passava incógnito. Cerca de 23% dos freqüentadores
têm renda superior a R$ 2 mil e um poder aquisitivo
que rejeitava o tradicional trio de alimentação
das rodoviárias, formado por empadinha, esfiha e coxinha.
O Ritazza se instalou ali de olho nesse público. Às
sextas-feiras, um piano dá o ritmo ao happy hour. Uma
barista, Gabrielle Rodrigues, foi contratada. Em seu currículo,
aparecem até cursos na Inglaterra. “O destaque
é nosso café 100% arábica, num blend
específico”, conta ela. Na hora da compra, revelou
a pesquisa, alguns sentimentos são predominantes. Há,
por exemplo, a busca pela auto-gratificação.
“Depois de um dia corrido, o passageiro procura se premiar”,
afirma Pierre Berenstein, diretor da SSP, empresa responsável
pela área de alimentação. Outro empurrão
para o consumo vem do chamado
guilty gift (o presente da culpa, numa tradução
literal). “O sujeito viaja muito e carrega certo remorso
pela ausência contínua junto à família.
Aí ele leva um presentinho para a mulher e os filhos”,
diz Berenstein. O empresário uruguaio Luis Khanis,
dono de duas perfumarias, aproveitou essa característica.
“Minha primeira loja vendia produtos básicos,
como xampus, pastas e escovas de dente”, recorda. “Mas
as pessoas queriam perfumes.” Hoje, a maior parte de
seu faturamento
vem de perfumes com grifes como Boss, Lacoste e Guerlain.
A cada dia, cerca
de 20 frascos, com preços entre R$ 40 e R$ 500, deixam
as prateleiras das
duas unidades de Khanis.
| Fotos: Biô
Barreira |
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PIANO BAR, SALAS VIP
E CYBER CAFÉ Havia um consumidor incógnito
no terminal |
Para incentivar mais o consumo, o mapa da Rodoviária
foi redesenhado. Agora, entre a compra da passagem e o embarque
o passageiro passa obrigatoriamente pelas lojas e lanchonetes.
A localização de cada uma foi escolhida a dedo.
O Bob’s, por exemplo, está plantado ao lado da
plataforma dos ônibus para o Rio de Janeiro, cidade
onde a marca possui presença mais forte. Um quiosque
da Casa do Pão de Queijo foi erguido junto ao desembarque.
“As pessoas chegam de viagem, tomam café e comem
pão de queijo para enganar a fome, antes de enfrentar
o trânsito da cidade”, diz Berenstein. O resultado:
o tíquete médio de alimentação
na rodoviária saltou de R$ 2,50 para R$ 5. 
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