Foto: Daniel Wainstein
NOVO DESTINO - GAISLER, DA VELHO OESTE: A empresa é de 1912, quando as carroças eram meio de transporte. Para manter as vendas, ele as transformou em objeto de decoração
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Duros na queda

Chapéus, carroças, discos de
vinil. Acredite, ainda há muitos consumidores sedentos por esses
produtos – e um punhado de empresas ganhando dinheiro com eles

Por Joaquim Castanheira

O cidadão acorda pela manhã e, defronte do espelho, espalha o creme de barbear com um pincel Batil, assim como fazia o avô. Prepara o café num coador de pano, da mesma forma que a avó. Ao sair, enfia um chapéu na cabeça e embarca em uma carruagem rumo ao trabalho, hábitos do tempo de nossos bisavós. A cena, óbvio, não faz parte do dia-a-dia atual. Mas se um sujeito mais excêntrico resolver mergulhar numa onda de nostalgia, ainda pode encontrar tais produtos em lojas e supermercados. Eles saem das fábricas de uma legião de empresas pequenas e médias. São itens que, atropelados pelo tempo ou pela tecnologia, sumiram do cotidiano dos consumidores. Ou quase sumiram seria a expressão correta. Essas companhias resistiram teimosamente ao encolhimento de seu setor, assistiram ao desaparecimento da concorrência e hoje atuam praticamente sozinhas em sua área de atuação. “São mercados cíclicos”, afirma Roberto Rinaldi, da consultoria Probusiness. “Eles vivem um momento de auge, entram em decadência e depois ressurgem como nichos.”

Ana Paula Paiva
EM HOLLYWOOD - ZAKIA, DA CURY: Hoje, o campeão de vendas é o chapéu de Indiana Jones. Foi o que garantiu a sobrevivência da empresa, depois que o chapéu deixou de ser item obrigatório para a elegância masculina
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O renascimento, lembra Rinaldi, não é espontâneo. Em alguns casos, como pincéis de barba e coadores de pano, a sobrevivência se deve ao baixo poder aquisitivo dos brasileiros. “Mas em outros casos, a empresa tem que reinventar o mercado, criar novas aplicações para seu produto e conquistar outro tipo de consumidor”, alerta ele. Desde 1920, a Cury, fundada por um imigrante libanês, vem moldando chapéus para homens e mulheres. Durante décadas, era um item obrigatório no guarda-roupa de qualquer cidadão. “As pessoas andavam muito a pé e os carros nem sempre tinham capota”, explica Paulo Cury Zakia, que, junto com o primo José Zakia Neto, comanda a empresa. Até que no final dos anos 50, o chapéu caiu em desuso e virou um objeto “cafona”, se utilizado diariamente, ou sofisticado, para ocasiões muito especiais. “Deixou de ser um produto de massa”, diz Zakia. Dos 15 fabricantes do País, sobraram apenas dois ou três – e a Cury é a maior delas. Estratégia de sobrevivência: adquirir as concorrentes. A marca mais conhecida do País, a Ramenzoni, hoje faz parte do portfólio da Cury. “Assim, nós aumentávamos nossa participação em um mercado cada vez menor. Mantínhamos uma escala mínima para continuar vivos”, explica.

No final da década de 80, veio a grande virada. A onda de rodeios e a moda country conquistaram a moçada e criaram um novo mercado para os chapéus produzidos por Zakia. A cada ano, ocorrem mais de 2,8 mil festas de peões de boiadeiros no Brasil. “O chapéu virou um artigo de moda. Hoje, produzimos até para grifes, como a Fórum”, afirma Zakia. Ao mesmo tempo em que os rodeios se multiplicavam, o empresário recebia a visita de dois americanos. Eles produziriam um filme de aventura e o protagonista usaria um chapéu que teria destaque no figurino. Zakia não sabia, mas o ator era Harrison Ford e a fita, Indiana Jones, um arrasa-quarteirão hollywoodiano. “Somos fabricantes exclusivos no mundo”, diz Zakia. “Temos 70 modelos de chapéu, mas esse do filme é nosso campeão de vendas.”

A cada ano, a Cury produz mais de um milhão de chapéus, o que garante um faturamento de R$ 17 milhões. Um terço desse valor vem de exportações para países como EUA e Austrália. “Produzimos mais do que há dez anos”, afirma Zakia. Neste ano, os negócios, que renderam R$ 17 milhões para a Cury, devem ser melhores ainda. Uma nova aventura de Indiana Jones chegará às telas e a próxima novela das oito da TV Globo será ambientada na área rural.

Biô Barreira
APELO À VAIDADE - MIGUEZ, DA BATIL: Para manter os pincéis de barba presentes no universo masculino, como antigamente, o empresário lançará modelos para os metrossexuais
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O marketing, como no caso da Cury, pode trazer de volta à vida um produto com lugar garantido no cemitério. “Principalmente quando ele ganha uma aplicação diferente da original”, sugere o consultor Rinaldi. Sempre que uma novela ambientada no início do século 20 entra no ar, a carteira de encomendas da Velho Oeste fica um pouco mais gorda. Uma das raras fabricantes de carroças, charretes e diligências do País, a companhia de Porto Feliz, interior de São Paulo, vende em média 10 a 12 veículos por mês. Alguns são utilizados para transporte de pequenas cargas no campo, como ocorria antigamente. Outros têm como destino as pistas esportivas – sim, há corridas de bigas em diversas partes do País. Mas a maioria acaba como peça de decoração em sítios e casas de veraneio ou nos sets das novelas ou filmes ambientadas em épocas passadas. Agora, uma nova frente se abre. Uma empresa de São Paulo oferecerá passeios de carruagem pelo centro antigo da capital paulista.
“O apelo de nossos produtos é a nostalgia”, afirma Rone Gaisler, dono da Velho Oeste. “A inovação tem garantido a sobrevivência da empresa que meu avô Augusto fundou em 1912.”

A Velho Oeste possui 25 diferentes modelos. O mais barato, a charrete básica, custa R$ 1,8 mil. No outro extremo (preço de R$ 25 mil) está a “diligência tipo americana”, como diz Gaisler. Com as vendas, ele embolsa de R$ 8 mil a R$ 10 mil por mês. “Dá para levar uma vida sossegada”, afirma, com forte sotaque interiorano. “O importante é sempre criar novas aplicações para os produtos antigos.”

Felipe Varanda
OUTRO RITMO - LUCIANA, POLYSOM: Os tempos em que a empresa vendia pilhas e pilhas de discos de vinil ficaram para trás. Hoje, os consumidores são apenas DJs e bandas de rock e hip-hop. Os LPs são usados até como convites para festas
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Para isso, o empresário precisa possuir faro para novas tendências do consumo. O carioca Manolo Miguez, proprietário da Escovas Fidalga, identificou uma oportunidade de negócios no advento dos metrossexuais, aquela categoria de jovens ambiciosos e vaidosos que têm no inglês David Beckham seu principal ídolo. São consumidores ávidos por produtos de beleza. Miguez quer fazê-los comprar mais pincéis de barba, um item cujas vendas estão estagnadas nas últimas décadas pelo surgimento do aparelho elétrico, pela espuma pronta e o gel de barbear. “O pincel é mais saudável, pois massageia a pele e remove as células mortas, garantindo mais beleza”, afirma Miguez. “É um apelo forte para os metrossexuais.” Para atrair a clientela mais endinheirada, a Fidalga lançará novos modelos de pincéis, com design mais moderno e cerdas mais macias. Até mesmo um modelo de R$ 100 (com cerdas de texugo importadas da Alemanha) sairá do forno em breve. “Mas o carro-chefe continuará sendo os itens mais baratos, com preços de R$ 4 a R$ 5. É um mercado que precisa de escala”, diz Miguez. Por isso, a Fidalga deu um passo largo no final do ano passado. Adquiriu a Batil, maior fabricante de pincéis do País controlada pela Tigre. Em uma só tacada dobrou sua capacidade de produção, para 100 mil unidades por mês. “Tornei-me o único do setor no Brasil”, diz Miguez.

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