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ENTREVISTA |
Quarta-feira, 26 de maio
de 2004 |
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DINHEIRO
O governo Lula tem uma relação melhor com o
setor produtivo?
WEVER Creio que sim. Os ministros Roberto Rodrigues (Agricultura)
e Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento), por exemplo, são
mais ouvidos que os respectivos ministros dessas áreas na
gestão anterior. Havia uma ditadura muito forte do Ministério
da Fazenda. A herança deixada por eles é que causou
a vulnerabilidade externa do País. Mesmo com os grandes esforços
feitos pelo governo Lula, o Risco Brasil continua alto.
DINHEIRO
O sr. destacaria outros avanços na gestão Lula?
WEVER Poucos se deram conta do seguinte: de janeiro a
março deste ano o governo comprou papéis da dívida
interna, indexados ao dólar, no valor aproximado de US$ 12
bilhões. Com isso, reduziu a parcela dos papéis corrigidos
nessa moeda de 37% (no final do governo FHC) para 17,7% do débito
total. Esse é um passo enorme para diminuir nossa vulnerabilidade
externa. É certo que a relação entre o PIB
e a dívida interna continua muito alta para um país
como o Brasil; algo como 58%, mais que o dobro de quando o Plano
Real foi lançado, em 1994.
DINHEIRO
O spread (diferença entre os juros básicos
e a taxa cobrada pelos bancos) é o mais alto do planeta.
O sr. não acha que isso compromete a gestão Lula pelo
lado econômico?
WEVER De certa forma, as taxas refletem o Risco Brasil.
Podemos discutir se é justo ou não, mas o certo é
que prevalece a lógica dos banqueiros. Acho que o spread
é excessivo e fica difícil dizer o contrário
quando vemos que o lucro dos bancos está muito acima do obtido
pelo setor produtivo. Isso, no entanto, tem um lado positivo, porque
mostra que o sistema financeiro do Brasil está sólido.
Contudo, acho que está na hora de começarmos a crescer
e, nisso, o governo não está conseguindo avançar.
DINHEIRO
O sr. acha que falta no governo a figura do gerentão,
alguém capaz de fazer a máquina andar?
WEVER Sem dúvida, o PT está precisando
de mais tempo que o habitual para colocar a máquina em operação.
E a oposição está certa quando diz que o governo
está lento. Mas se a equipe econômica tiver sucesso
com a política de redução gradual dos juros,
haverá recursos excedentes para investir em 2005. No ano
passado, o Tesouro gastou cerca de R$ 150 bilhões com o pagamento
de obrigações ligadas à dívida. A expectativa
é que essa parcela se reduza para algo entre R$ 110 bilhões
e R$ 120 bilhões este ano. Se usarmos esse excedente para
aumentar a velocidade dos investimentos públicos certamente
o País vai entrar em um novo ciclo de desenvolvimento.
DINHEIRO
Mas isso é o bastante?
WEVER Claro que não. Para crescermos entre 4%
e 5% precisaríamos investir algo em torno de 24% do Produto
Interno Bruto (PIB). Em 2003, ficou em 18% do PIB. Não há
perigo de comprometer a estabilização, porque no passado
já avançamos nesse patamar sem qualquer problema.
No entanto, sem melhorias na infra-estrutura (estradas, ferrovias
e garantia de fornecimento de energia), fica difícil convencer
os empresários a desengavetar planos de crescimento.
DINHEIRO
O presidente Lula foi eleito com a bandeira da esperança,
mas o sentimento de frustração já começa
a tomar conta de parte da população. Isso prejudica
a governabilidade?
WEVER Fui eleitor do Serra (José Serra, candidato
do PSDB), mas vejo o presidente Lula como um líder carismático
que consegue, com bom senso extraordinário e palavras simples,
motivar a todos. Acho que ele sempre vai conseguir ser percebido
pelo povo de maneira mais positiva que o governo. As próprias
pesquisas mostram isso.
DINHEIRO
Mas a popularidade dele sofreu uma grande baixa...
WEVER Ninguém consegue manter o mesmo nível
de aprovação do início do mandato. Agora, sem
dúvida isso é preocupante. Espero que o governo consiga
rapidamente resultados práticos para que a sensação
do não-cumprimento das promessas não se solidifique
na cabeça da população.
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