| POR
QUE LULA FEZ ISSO? |
Ao
cassar visto de jornalista americano, o presidente transforma
repórter irresponsável em mártir da liberdade
de imprensa.
Os ministros da área econômica agora temem pelas
relações
comerciais com os Estados Unidos |
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Hugo
Studart e Fábio Altman
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".. hoje ele deve estar mais
preocupado do que eu"
Lula,
aos jornalistas brasileiros, antes do anúncio da suspensão
do visto
"...
alguns de seus conterrâneos começam a se perguntar
se sua preferência por bebidas fortes não está
afetando sua performance no cargo"
Larry Rohter, (à esq.) correspondente
do The New York Times, num artigo
intitulado Hábito de bebericar do
presidente vira preocupação nacional
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O Brasil
vive momentos decisivos em suas relações comerciais
com os Estados Unidos e com os blocos econômicos. Atravessa,
hoje, duras conversas na construção da Alca
aliança à qual se opõe aos anseios e ao desenho
de George W. Bush. Recentemente travou queda-de-braço em
relação à exportação de algodão.
Venceu a disputa, histórica, e conseguiu barrar na justiça
os subsídios destinados aos fazendeiros americanos. Aguarda
ainda, porém, intensas negociações nesse campo.
Não é fácil a vida do País quando se
trata de vender e ocupar espaço. Tudo o que o Brasil menos
precisava, portanto, era o desastre diplomático que se produziu
depois de uma reportagem publicada pelo The New York Times no
domingo 9, insinuando que Lula teria o hábito de consumir
álcool em doses exageradas e que isso se transformara num
problema para o País, minando sua capacidade de comandar.
Irritado, o presidente decidiu cassar o visto de trabalho do repórter
Larry Rohter, o autor da baboseira. Não peça
ao presidente para responder auma sandice daquela. Hoje ele deve
estar mais preocupado do que eu, disse Lula a um grupo de
jornalistas brasileiros antes do anúncio do veredito contra
Rohter.
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ESPANTO:
Correspondentes
estrangeiros logo depois do anúncio |
A decisão
emocional de Lula transformou o americano, autor de um texto construído
por rumores, em mártir da liberdade de imprensa. Mais do
que isso, e aí reside o principal resultado da confusão,
levou o imbróglio ao campo das relações internacionais.
Nesse rota, impôs riscos ao desempenho econômico do
País. Os ministros Antônio Palocci, da Fazenda, Roberto
Rodrigues, da Agricultura, e Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio, não escondem o receio
de que o desfecho da história gere prejuízos no comércio
com os EUA.
A bomba
correu o mundo em manchetes. A The Economist diz que a resposta
dada por Lula imitou a forma de as ditaduras lidarem com seus
críticos. Para o Financial Times, o que
começou como uma reportagem que foi quase universalmente
ridicularizada virou incidente diplomático. A reviravolta
atiçou os analistas de mercado, ansiosos em medir as perdas.
Um relatório do Dresdner Bank diz que o episódio
deve deteriorar ainda mais as relações do governo
com a imprensa e afetar negativamente as expectativas econômicas
do País. Em 22 de junho, Lula tem encontro agendado
com investidores americanos em Nova York. Será recebido com
status diferente. É difícil, naturalmente, estimar
o estrago em cifras mas é certo que há danos
à imagem do Brasil.
O Departamento
de Estado dos EUA, por meio de seu porta-voz, Richard Boucher, disse
que o artigo do NYT não representa o ponto de vista
dos EUA e não há nenhum opositor de Lula, à
exceção
de inimigos rancorosos como Leonel Brizola, que acreditasse na estultice
de Rohter com a suposta embriaguez do presidente. Era uma bobagem
que merecia no máximo um processo judicial. Feita a ressalva,
o Departamento de Estado foi além. Diria que a decisão
do governo brasileiro de cancelar o visto do jornalista que escreveu
o artigo não condiz com o forte compromisso do Brasil com
a liberdade de imprensa, disse o porta-voz. A Organização
dos Estados Americanos também condenou a iniciativa. É
um erro punir um correspondente desta maneira, disse à
DINHEIRO o jornalista James Fallows, autor de um clássico,
Como a Mídia Corrói a Democracia Americana.
Imagine quantos repórteres estrangeiros seriam
expulsos dos EUA se o governo punisse todos os que criticam
George W. Bush. Cabe ressaltar, contudo, que nenhum órgão
de imprensa, muito menos o NYT, acusou Bush de beber demais
ele sim um ex-alcoólatra confesso.
Lula
foi caluniado e difamado, como observou o porta-voz André
Singer, e apenas à Justiça cabe decidir contenciosos
desse gênero. A cassação do jornalista virou
sinônimo de censura tanto que, na quinta-feira 13,
o Superior Tribunal de Justiça emitiu um salvo-conduto a
Rohter, autorizando sua permanência no Brasil. Fez-se muito
barulho por nada. O governo perdeu ótima oportunidade para
expor o comportamento preconceituoso de parte da imprensa dos EUA
diante do Brasil. Rohter escreveu um artigo de 1.319 palavras. Havia
duas fontes centrais a sustentá-las. Brizola e o cronista
de uma revista de quem não se espera mais que comentários
supostamente polêmicos. Atribuir importância a essa
dupla seria o mesmo que tomar como verdade, sem verificação,
a denúncia feita à DINHEIRO pelo americano Alberto
Giordano criador de um jornal especializado em
vigiar a imprensa, o Narco News , de que Rohter é
fantoche de Roger Noriega, subsecretário para Assuntos Latino-americanos
de Bush. Ele não escreve nada a respeito da América
Latina
antes de consultar Noriega. Seria leviano dar a essa infor-
mação tom de verdade absoluta.
O correto
é lembrar fatos. Em outubro de 2001, Rohter divulgou prematuramente
a existência de bactérias antraz num envelope recebido
por ele em seu escritório no Rio. Deu a notícia antes
do parecer da Fundação Oswaldo Cruz. Era uma barriga,
como os jornalistas definem o erro crasso. Os profissionais
do NYT foram arrogantes, pareciam mais interessados em ter
o furo do que preocupação com funcionários
supostamente contaminados, disse à DINHEIRO Paulo Buss,
presidente da Fiocruz. Não paravam de dizer, somos
do NYT. Ora, vão tomar banho, diz Buss.
Como não tiveram o resultado em primeira mão, o inventaram.
A arrogância do texto de Rohter, com doses extras de insinuações,
não explica o desempenho de Lula numa crise que era pequena
e transbordou. 
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