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ECONOMIA Quarta-feira, 19 de maio de 2004
POR QUE LULA FEZ ISSO?
Ao cassar visto de jornalista americano, o presidente transforma
repórter irresponsável em mártir da liberdade de imprensa.
Os ministros da área econômica agora temem pelas relações
comerciais com os Estados Unidos

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Hugo Studart e Fábio Altman

  Carlos Silva/Ag. o Globo
 

".. hoje ele deve estar mais
preocupado do que eu"
Lula, aos jornalistas brasileiros, antes do anúncio da suspensão do visto

"... alguns de seus conterrâneos começam a se perguntar se sua preferência por bebidas fortes não está afetando sua performance no cargo"
Larry Rohter, (à esq.) correspondente
do The New York Times, num artigo
intitulado “Hábito de bebericar do
presidente vira preocupação nacional”

O Brasil vive momentos decisivos em suas relações comerciais com os Estados Unidos e com os blocos econômicos. Atravessa, hoje, duras conversas na construção da Alca – aliança à qual se opõe aos anseios e ao desenho de George W. Bush. Recentemente travou queda-de-braço em relação à exportação de algodão. Venceu a disputa, histórica, e conseguiu barrar na justiça os subsídios destinados aos fazendeiros americanos. Aguarda ainda, porém, intensas negociações nesse campo. Não é fácil a vida do País quando se trata de vender e ocupar espaço. Tudo o que o Brasil menos precisava, portanto, era o desastre diplomático que se produziu depois de uma reportagem publicada pelo The New York Times no domingo 9, insinuando que Lula teria o hábito de consumir álcool em doses exageradas e que isso se transformara num problema para o País, minando sua capacidade de comandar. Irritado, o presidente decidiu cassar o visto de trabalho do repórter Larry Rohter, o autor da baboseira. “Não peça ao presidente para responder auma sandice daquela. Hoje ele deve estar mais preocupado do que eu”, disse Lula a um grupo de jornalistas brasileiros antes do anúncio do veredito contra Rohter.

Roberto Stuckert Filho/Ag. o Globo
ESPANTO: Correspondentes
estrangeiros logo depois do anúncio

A decisão emocional de Lula transformou o americano, autor de um texto construído por rumores, em mártir da liberdade de imprensa. Mais do que isso, e aí reside o principal resultado da confusão, levou o imbróglio ao campo das relações internacionais. Nesse rota, impôs riscos ao desempenho econômico do País. Os ministros Antônio Palocci, da Fazenda, Roberto Rodrigues, da Agricultura, e Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, não escondem o receio de que o desfecho da história gere prejuízos no comércio com os EUA.

A bomba correu o mundo em manchetes. A The Economist diz que a resposta dada por Lula “imitou a forma de as ditaduras lidarem com seus críticos”. Para o Financial Times, “o que começou como uma reportagem que foi quase universalmente ridicularizada virou incidente diplomático”. A reviravolta atiçou os analistas de mercado, ansiosos em medir as perdas. Um relatório do Dresdner Bank diz que “o episódio deve deteriorar ainda mais as relações do governo com a imprensa e afetar negativamente as expectativas econômicas do País”. Em 22 de junho, Lula tem encontro agendado com investidores americanos em Nova York. Será recebido com status diferente. É difícil, naturalmente, estimar o estrago em cifras – mas é certo que há danos à imagem do Brasil.

O Departamento de Estado dos EUA, por meio de seu porta-voz, Richard Boucher, disse que o artigo do NYT não representa o ponto de vista dos EUA – e não há nenhum opositor de Lula, à exceção
de inimigos rancorosos como Leonel Brizola, que acreditasse na estultice de Rohter com a suposta embriaguez do presidente. Era uma bobagem que merecia no máximo um processo judicial. Feita a ressalva, o Departamento de Estado foi além. “Diria que a decisão do governo brasileiro de cancelar o visto do jornalista que escreveu o artigo não condiz com o forte compromisso do Brasil com a liberdade de imprensa”, disse o porta-voz. A Organização dos Estados Americanos também condenou a iniciativa. “É um erro punir um correspondente desta maneira”, disse à DINHEIRO o jornalista James Fallows, autor de um clássico, Como a Mídia Corrói a Democracia Americana. “Imagine quantos repórteres estrangeiros seriam
expulsos dos EUA se o governo punisse todos os que criticam
George W. Bush.” Cabe ressaltar, contudo, que nenhum órgão de imprensa, muito menos o NYT, acusou Bush de beber demais –
ele sim um ex-alcoólatra confesso.

Lula foi caluniado e difamado, como observou o porta-voz André Singer, e apenas à Justiça cabe decidir contenciosos desse gênero. A cassação do jornalista virou sinônimo de censura – tanto que, na quinta-feira 13, o Superior Tribunal de Justiça emitiu um salvo-conduto a Rohter, autorizando sua permanência no Brasil. Fez-se muito barulho por nada. O governo perdeu ótima oportunidade para expor o comportamento preconceituoso de parte da imprensa dos EUA diante do Brasil. Rohter escreveu um artigo de 1.319 palavras. Havia duas fontes centrais a sustentá-las. Brizola e o cronista de uma revista de quem não se espera mais que comentários supostamente polêmicos. Atribuir importância a essa dupla seria o mesmo que tomar como verdade, sem verificação, a denúncia feita à DINHEIRO pelo americano Alberto Giordano – criador de um jornal especializado em
vigiar a imprensa, o Narco News –, de que Rohter é fantoche de Roger Noriega, subsecretário para Assuntos Latino-americanos
de Bush. “Ele não escreve nada a respeito da América Latina
antes de consultar Noriega”. Seria leviano dar a essa infor-
mação tom de verdade absoluta.

O correto é lembrar fatos. Em outubro de 2001, Rohter divulgou prematuramente a existência de bactérias antraz num envelope recebido por ele em seu escritório no Rio. Deu a notícia antes do parecer da Fundação Oswaldo Cruz. Era uma barriga, como os jornalistas definem o erro crasso. “Os profissionais do NYT foram arrogantes, pareciam mais interessados em ter o furo do que preocupação com funcionários supostamente contaminados”, disse à DINHEIRO Paulo Buss, presidente da Fiocruz. “Não paravam de dizer, ‘somos do NYT’. Ora, vão tomar banho”, diz Buss. Como não tiveram o resultado em primeira mão, o inventaram. A arrogância do texto de Rohter, com doses extras de insinuações, não explica o desempenho de Lula numa crise que era pequena e transbordou.

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