| O
DIÁRIO SECRETO DA PARMALAT |
Escrito
no Brasil pelo filho do fundador do grupo, o caderno
revela sua angústia com a crise, a venda de jogadores
e
rastros de um calote de R$ 100 milhões na telefonia |
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Por
Leonardo Attuch
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ESTÁGIO
Stefano
cuidou dos negócios
no Brasil em 2000 |
A crônica
de uma das mais espetaculares farsas do capitalismo moderno, que
produziu um rombo de 14 bilhões de euros, foi escrita no
Brasil. Está registrada em letras miúdas, nas 80 páginas
de um diário de folhas corroídas pelo tempo. Seu autor
é Stefano Tanzi, filho de Calisto Tanzi, criador da Parmalat.
O diário, obtido com exclusividade pela DINHEIRO, foi escrito
no primeiro semestre de 2000, quando Stefano morou em São
Paulo e conduziu as operações do grupo na América
Latina.
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ESQUEMA
PALMEIRAS
Stefano era fanático por futebol.
Anotou a venda de Asprilla (à
esq.) e o salário de Alex |
Nele,
Stefano registrou sua angústia com os resultados ruins e
anotou transações com jogadores de futebol. Em suas
confissões, também rascunhou um plano de atuação
da Parmalat na telefonia através da empresa Tecnosistemi,
criada para instalar a rede da TIM, uma subsidiária da Telecom
Italia na área de celulares. Hoje, a Tecnosistemi está
em concordata. A empresa deixou um calote de R$ 100 milhões
com bancos nacionais e é o foco de uma investigação
sobre pagamentos de propinas a autoridades públicas. Apreendido
pelos policiais italianos na mansão dos Tanzi em Collechio,
vilarejo italiano que foi palco da batalha do Monte Castelo, a última
dos pracinhas brasileiros na II Guerra Mundial, o diário
é uma peça importante nas investigações
conduzidas pelos procuradores italianos e pela juíza Antonella
Iofredi, de Parma. Isso porque a Parmalat anunciou aos investidores
que o crescimento das vendas e dos lucros no Brasil havia sido próximo
a 15% em 2000. Mas entre o que foi dito ao mercado e o que efetivamente
aconteceu há uma grande distância. Enquanto os balanços
fajutados apontaram lucros, o diário de Tanzi revelou quedas
dramáticas nas vendas e prejuízos em toda a América
Latina. As fraudes começavam a se avolumar.
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RUÍNA
ESCONDIDA Aos investidores, a empresa dizia que as
vendas cresciam. No diário, Stefano anotava queda de
receita em vários negócios da Parmalat |
No
dia 16 de fevereiro, Stefano fez anotações sobre a
Etti, empresa de molhos de tomate que acabara de ser adquirida pela
Parmalat. “Há um problema de controle e contabilidade.
Parece que não eram desonestos, mas incompetentes.”
Em 27 de março, apontou que o faturamento da Batavo, outra
subsidiária do grupo, seria reduzido de R$ 352 milhões
para R$ 298 milhões. Stefano queixou-se ainda de reduções
de venda em várias marcas de leites especiais que haviam
sido lançadas. E escreveu que havia ociosidade de até
50% nas fábricas e um problema na estrutura de preços
da empresa. Em seguida, fez uma revelação: “Falei
com Gianni sobre dinheiro”. O Gianni em questão era
Gianni Grisendi, que presidiu a Parmalat nos anos 90 e deixou a
empresa para se tornar acionista da Tecnosistemi e presidente da
própria TIM, antes de se envolver em mais uma confusão
com tempero italiano: a da Bombril. Hoje, com seus bens bloqueados,
Grisendi está sendo investigado por fraude, lavagem de dinheiro
e evasão de divisas num processo que corre na 42ª Vara
Cível de São Paulo. Muitos outros personagens do diário,
porém, conectavam-se à empresa indiretamente. Eram
jogadores de futebol. Stefano, que presidiu a equipe do Parma, listou
a venda de dois atletas de um time que foi patrocinado pela Parmalat:
o Palmeiras. Eram o atacante colombiano Asprilla e o lateral-esquerdo
Júnior. Mencionou também o contrato publicitário
de Ronaldinho, que teria ganho R$ 5,5 milhões para atuar
na campanha publicitária dos mamíferos, que vestia
crianças como animais de pelúcia. E citou ainda a
renovação de contrato do meia Alex, hoje no Cruzeiro,
que ganhava R$ 390 mil por ano e pedia R$ 2,5 milhões. Tamanho
interesse pelo futebol se explica. Os procuradores italianos estão
convictos de que as transações com jogadores eram
um meio de desviar dinheiro. Como o valor dos passes não
correspondia à realidade, suspeita-se que parte retornava
às contas dos Tanzi em paraísos fiscais.
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