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-COMMERCE Quarta-feira, 21 de abril de 2004
EXCLUSIVO  
O PAI DA INTERNET
O físico que criou a internet em cores rompe silêncio
para reagir à cobrança de royalties na rede

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"Dinheiro não faz falta", diz o físico

Taís Lobo

  Henry Horenstein/Corbis
  BERNERS-LEE Há quem
o compare a Albert Einstein,
mas ele rejeita o rótulo

Poucas vezes nos seus 49 anos, o britânico Tim Berners-Lee perdeu a fleuma característica dos habitantes do seu país. Sagrado Cavaleiro do Império em janeiro deste ano, o físico se envolveu em uma briga com a Universidade da Califórnia, a companhia Eolas Technologies e o escritório de patentes dos Estados Unidos, o Uspto. A sua irritação começou quando colegas da universidade e os executivos da empresa entraram anos atrás com pedidos de patentes sobre partes da internet. Sir Berners-Lee ficou ultrajado. Afinal, há 15 anos quando deu um rosto gráfico e cores à rede e cunhou a expressão web, ele mesmo abriu mão de todos os direitos autorais sobre a inovação para vê-la ganhar o mundo. Irritado, ele enviou no final do ano passado uma carta ao Uspto considerando descabidos e infames tais pedidos. Foi o último round da disputa. Na primeira semana de março, as autoridades americanas anunciaram a sua decisão. Berners-Lee estava com a razão. Ninguém pode exigir royalties sobre a internet e a patente concedida à universidade e à Eolas foi cancelada. Algo raro de acontecer. Dos 2 milhões de patentes aprovadas nos Estados Unidos desde 1981 apenas 136 foram suspensas. “Quando alguém se diz dono da internet é preciso se pronunciar ao contrário”, afirmou à DINHEIRO Berners-Lee. Nada melhor que a queixa do pai da invenção.

Até Berners-Lee, a rede era monocromática e sem qualquer glamour. Basicamente servia para a troca de e-mails e pesquisa acadêmica. Foi o cientista que abriu esse novo mundo e proporcionou o surgimento de uma indústria que movimenta bilhões de dólares por ano. Graças a ele, uma geração de empreendedores saiu das salas de aula de universidades direto para suas empresas. Rostos ficaram conhecidos internacionalmente. Foi o caso do americano Marc Andersen, criador do Mosaic, o primeiro navegador de internet para as páginas construídas de acordo com as diretrizes de Berners-Lee. Em seguida, Andersen ganhou milhões de dólares ao abrir o capital da sua empresa, na época já rebatizada de Netscape.

Atualmente, Berners-Lee dirige a W3 Consortium, entidade que regulamenta os padrões que regem as inovações relacionadas à internet. Espécie de ONU do mundo da tecnologia, a W3C atua para ampliar o acesso à rede independentemente da tecnologia, do idioma, do aparelho ou das limitações físicas de usuários. Menina dos olhos do físico é a proposta de criar um guia para o desenvolvimento da web unindo todos os aspectos legais, comerciais e sociais que devem ser levados com a tecnologia. Graças a sua trajetória há quem compare Berners-Lee a Albert Einstein, o pai da Teoria da Relatividade. O pai da internet rejeita tal rótulo. “Somos pessoas diferentes. Ele descobriu uma possibilidade matemática que revolucionou o mundo”, reconhece com modéstia o cientista. Einstein tecnológico ou não, Berners-Lee também é o responsável por uma revolução. A rede é fenômeno planetário e pode ser considerada a melhor tradução do conceito de globalização. Há mais de 600 milhões de usuários em todo o mundo, 45 milhões de endereços registrados e 6 bilhões de páginas. Algo que não pode ser considerado relativo.

“DINHEIRO NÃO FAZ FALTA”
Físico diz que acertou ao não cobrar pela criação
 
  GLOBALIZAÇÃO:
Antes de Berners-Lee a
rede era monocromática
e sem qualquer glamour
DINHEIRO – O sr. lamenta nunca ter recebido royalties pela sua invenção?
Berners-Lee – Às vezes penso como seria bom ter bastante dinheiro porque saberia como usá-lo em outras pesquisas. Por outro lado, se insistisse em cobrar direitos autorais, a rede jamais teria alcançado o êxito atual. Então, nesse caso dinheiro não faz falta.

Há a possibilidade de algum dia uma empresa dominar a internet?
É um movimento natural das grandes empresas, mas em mercados saudáveis essa intenção fica mais difícil. O fator de atenção deve ser quando uma empresa dominar todas as áreas. Seja controlando a venda do hardware, ou do sistema operacional, o acesso à internet, a venda de produtos e os sistemas de busca.

Em qual direção caminha a rede?
De certa maneira para dentro do celular. Em outras áreas ainda há muito a ser feito e pesquisado, mas as potencialidades existem para serem exploradas. Também aposto bastante nos sistemas colaborativos, como os blogs (diários on-line), nos programas multimídia e na tecnologia de comando de voz na rede.

O sr. é considerado o Einstein da tecnologia. Como vê essa comparação?
Não gosto de me comparar a ninguém. O Einstein e eu somos pessoas diferentes. Ele era um gênio matemático que descobriu
uma possibilidade matemática que revolucionou o mundo e ex-
plicou várias situações, que antes não podiam ser compreendidas.
Já no meu caso, os conceitos de internet, hipertexto e rede
mundial dos computadores já existiam. Eu só fui responsável
por unir todas essas teorias.

O princípio que o levou a criar a rede como conhecemos hoje era para ser um ambiente para troca de informações e experiências. A internet cumpriu a sua missão?
Mais do que nunca o conceito de trabalho colaborativo é algo
que existe na prática. As pessoas procuram a internet para se comunicar através de páginas de bate-papo, blogs e outras ferramentas similares de interatividade.

 

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