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ECONOMIA Quarta-feira, 24 de março de 2004
  Adão Nascimento/AE
  GEISEL NA SADIA: O nacionalismo do governo irrigou com crédito barato a indústria brasileira, que cresceu acelerado

Esse tipo de ambiente econômico hoje tem nome científico: crony capitalism, ou capitalismo de compadres, cunhado pelos economistas anglo-saxões para definir modelos asiáticos baseados no poder de Estado e no favorecimento dos apaniguados. Isso não explica o que aconteceu no Brasil durante a ditadura, mas é parte da explicação. Havia muito poder e muito dinheiro concentrados em Brasília, a imprensa estava sob censura, e isso criou distorções. Os amigos se deram bem e os inimigos ficaram de fora. É claro que, mesmo nesse ambiente, a maioria dos negócios floresceram sem que seus comandantes tivessem laços com a ditadura, mas esses empresários também dependiam dos ventos de Brasília. Pegue-se o caso da construtora Método, de São Paulo. Ela foi criada em 73 e decolou no foguete do milagre econômico. “Crescemos construindo hospitais, escolas, creches, prédios públicos e fóruns”, conta Hugo Marques da Rosa, fundador da companhia. “O governo representava 80% de todos os investimentos.” Assim a Método chegou ao início dos anos 80 com 4 000 funcionários – e logo em seguida começaram os problemas. Primeiro veio a ressaca da segunda crise do petróleo de 79, depois a elevação dos juros internacionais e, finalmente, a inadimplência do Estado brasileiro. Em dezembro de 82 a empresa já empregava apenas 700 pessoas. “A partir daí tivemos que nos reestruturar a tocar a empresa de um outro jeito”, diz Rosa. Hoje a economia quase não cresce e o ambiente escasseia em oportunidades de negócios. Mas há estabilidade e são os empresários, e não o governo, quem decide os rumos dos negócios. Com a ditadura acabou um período selvagem e obscuro da vida econômica brasileira. Agora o país vive sob a luz. Só falta que ela conduza ao crescimento.

OCASO NA DITADURA
 
  HANGAR DA PANAIR
OCUPADO:
em 65 governo
cassou os vôos da empresa
e decretou sua falência sumária

À 3 da tarde do dia 10 de fevereiro de 1965, uma quarta-feira calorenta no Rio de Janeiro, um telegrama do Ministério da Aeronáutica chegou aos escritórios da Panair do Brasil. A mensagem curta e grossa, um simples despacho, informava a decisão do governo militar, representado pelo ministro Eduardo Gomes, de cassar o certificado de operação da Panair, com base em uma suposta posição financeira “insustentável”. Este comunicado seco e implacável, típico do estilo castrense do período, abateu em pleno vôo a mais conhecida e glamurosa empresa brasileira de aviação, detentora de pelo menos 10% do mercado aeroviário. Na mesma noite, com os hangares da empresa já ocupados pela tropa, a Varig assumiu todas as rotas internacionais da rival -- e decolou imediatamente, sem qualquer atraso, numa demonstração de eficiência sem precedentes na história da aviação mundial. “Embora a Varig seja uma grande empresa, assumir vôos de outras companhias com horas de antecedência só poderia ser feito se houvesse informação prévia”, afirma o especialista R. Davies, autor do clássico americano Airlines of Latin America. No dia seguinte à intervenção, uma quinta-feira, a Panair entrou com pedido de concordata preventiva. Na segunda, por iniciativa própria, o juiz transformou o pedido de concordata em falência – alegando que a empresa, que não tinha um único título protestado e gozava de outras fontes de receita, não teria como saldar suas dívidas por estar proibida de voar. Terminava ali, de maneira kafkiana, uma trajetória de 35 anos de charme e eficiência.

“Fomos vítimas de perseguição política”, resume Rodolfo Rocha Miranda, filho do falecido dono da empresa e atual diretor-presidente da Panair do Brasil, uma holding sem atividade empresarial mantida com o intuito de lutar por ressarcimento na Justiça. A origem da perseguição é dupla. De um lado, Celso da Rocha Miranda, o pai de Rodolfo morto em 81, era um empresário muito próximo à Juscelino Kubitschek. Depois do golpe as outras empresas da família, que atuava no ramo de seguros, perderam todos os contratos com o governo e sofreram seguidas investigações da receita. Mas o problema principal da Panair talvez tenha sido acarretado pelo sócio de Rocha Miranda na Panair, Mario Wallace Simonsen. Milionário e influente dono da TV Excelsior de São Paulo e de 40 outras empresas, este paulistano era considerado pelos golpistas como homem do “esquema Jango” de comunicação. Também ele foi perseguido pelo regime e sua empresas sistematicamente prejudicas. Morreu em Paris em 24 de março de 1965, em depressão, dias depois de ter seus bens seqüestrados pelo governo. Entrará para a história, com a Panair, na relação das primeira vítimas fatais da ditadura.

APOGEU NA DITADURA
 
  MACHILINE GESTICULA: contatos militares fizeram grupo Sharp crescer na ditadura, mas não garantiram sobrevivência

Poucos empresários se movimentaram com tanta desenvoltura no regime militar como o gaúcho Matias Machline. Sua ascensão teve início em 1965, um ano após os generais se instalarem no Palácio do Planalto, quando obteve dos japoneses a autorização do uso da marca Sharp no Brasil. Seu declínio começou em 1990, ano em que o primeiro governo eleito democraticamente desde 1964 assumiu o comando do País e promoveu a abertura de mercado. A partir dali, a Sharp mergulhou em uma longa agonia, agravada em 1994, com a morte do próprio Machline, em um acidente de helicóptero nos Estados Unidos. Sete anos depois, com a operação paralisada e vergada por dívidas de US$ 350 milhões, o grupo teve sua falência decretada.

Era o fim de um império que, no auge, abrigou cerca de 30 empresas e registrou receitas à beira do US$ 1 bilhão. O motor desse crescimento reunia, além do faro comercial de Machline, uma excelente rede de amizades com os ocupantes do poder e a capacidade de aproveitar o ambiente econômico daquele momento, formado por abundantes recursos financeiros oficiais e um mercado fechado à competição internacional. Até 1965, Machline era um importador de máquinas à frente da desconhecida Cimpro. Naquele ano, com o domínio da marca Sharp ele iniciou a trajetória de industrial que o levaria à liderança nas vendas de calculadoras, televisores, vídeo-cassetes e até microcomputadores. O grande salto aconteceu em 1972, quando se tornou um dos pioneiros na fabricação de eletroeletrônicos na Zona Franca de Manaus. Para
a empreitada, ele contou com o apoio (e dinheiro) do então Mi-
nistro da Comunicações Higino Corsetti. As portas do governo
federal foram abertas graças à amizade com o general João Baptista Figueiredo, um dos mais próximos colaboradores do presidente
Emílio Garrastazu Médici. O próprio Médici ficou encantado com a conversa daquele jovem empresário e suas promessas de desenvolver uma indústria eletroeletrônica nacional e assistir
a Copa do Mundo de Futebol a cores.

O relacionamento entre Figueiredo e Machline também ajudou a colocar de pé a Lei de Informática, em 1982, quando o general já ocupava a Presidência da República. Com a reserva do setor para as empresas nacionais, a Sid Informática, de Machline, se transformou em uma das líderes na fabricação de microcomputadores – e num dos primeiros empregos de Jonnhy, um dos filhos de Figueiredo.

No governo seguinte, Machline continuou circulando à vontade pelos corredores do Brasília. Um de seus principais amigos, José Sarney, ocupava a Presidência e o grupo Sharp arriscou-se por outros caminhos, como a TV por assinatura, em associação com o Grupo Abril. O negócio não prosperou e ajudou ao Grupo Machiline entrar na trajetória de problemas que o levou á bancarrota dez anos depois.

SOBREVIVENTE DA DITADURA
 
  USINA NUCLEAR ANGRA I: construtura Odebrecht
ergueu as obras mais
emblemáticas do Brasil Grande

O setor da construção civil foi o mais impulsionado pelos ventos do regime militar. Nesta raia, nenhuma outra empresa manobrou melhor do que a Construtora Norberto Odebrecht. Antes da ditadura, a Odebrecht jamais atingiu dimensão nacional. Fundada em 1944, na véspera da derrocada do Estado Novo, nos 20 anos seguintes de democracia a empresa teve sua vida restrita a obras regionais. Em nada aproveitou a grande onda de desenvolvimento representada pela construção de Brasília, no governo de Juscelino Kubistchek. O que parecia um erro, no entanto, se revelou um atestado de salvo-conduto a partir de 1964, quando a ditadura militar chegou para ficar por 21 anos. Os militares odiavam Juscelino e seus amigos.

“No Brasil dos generais, quem quisesse crescer tinha de ter uma relação de dependência absoluta com o setor público”, lembra um alto executivo do grupo. “Norberto entendeu essa lei”, completa sobre a estratégia do fundador. Durante o governo de Castelo Branco, ele teceu a partir da Bahia uma ampla rede de “acessos e simpatias” entre os militares da linha dura. Acertou na mosca. Esta corrente chega ao poder com a unção de Costa e Silva à Presidência, no final de 1967, e a companhia zarpa para o sucesso. Logo em 1969, afinado com o czar da economia Delfim Netto, Norberto arrebata a construção da sede da Petrobras, no Rio. Em 1972, com Emílio Médici no Planalto, vence a concorrência para erguer a primeira usina nuclear brasileira, em Angra dos Reis. No ano seguinte, passa a fazer o Aeroporto Internacional do Galeão. Pouco depois, sob a gestão de Ernesto Geisel, levanta o monumental edifício-sede do BNDES, de onde obtinha empréstimos com juros pré-fixados e carência. Com a inflação, reajustava os preços de seus contratos e pagava suas dívidas com tranquilidade. A maior obra física do regime, a Hidrelétrica de Itaipu, foi feita pela companhia. Por determinação de Geisel, a Odebrecht comprou em 1978 a participação da Camargo Corrêa no Pólo Petroquímico da Bahia e se diversificou. Hoje, o grupo é o principal acionista da petroquímica Braskem, cujas ações subiram mais de 400% no ano passado.

O faturamento de US$ 14 milhões da Construtora em 1971 duplicou no ano seguinte, decuplicou em 1973 e alcançou o pico de US$ 902 milhões em 1982, quando tocava 853 obras no País. A partir de 1978, Emílio Odebrecht, filho do fundador, direcionou a empresa o exterior, usando o know-how desenvolvido no Brasil para vencer duras concorrências. No ano passado, a Odebrecht tocou 1.305 obras pelo mundo, tornando-se a 31a em faturamento fora de seu país de origem, com US$ 1,6 bilhão. A empresa que pegou o vendaval da ditadura aproveitou a brisa da democracia e tornar-se a maior multinacional brasileira.

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