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GEISEL
NA SADIA: O nacionalismo do governo irrigou com crédito
barato a indústria brasileira, que cresceu acelerado |
Esse
tipo de ambiente econômico hoje tem nome científico:
crony capitalism, ou capitalismo de compadres, cunhado pelos
economistas anglo-saxões para definir modelos asiáticos
baseados no poder de Estado e no favorecimento dos apaniguados.
Isso não explica o que aconteceu no Brasil durante a ditadura,
mas é parte da explicação. Havia muito poder
e muito dinheiro concentrados em Brasília, a imprensa estava
sob censura, e isso criou distorções. Os amigos se
deram bem e os inimigos ficaram de fora. É claro que, mesmo
nesse ambiente, a maioria dos negócios floresceram sem que
seus comandantes tivessem laços com a ditadura, mas esses
empresários também dependiam dos ventos de Brasília.
Pegue-se o caso da construtora Método, de São Paulo.
Ela foi criada em 73 e decolou no foguete do milagre econômico.
“Crescemos construindo hospitais, escolas, creches, prédios
públicos e fóruns”, conta Hugo Marques da Rosa,
fundador da companhia. “O governo representava 80% de todos
os investimentos.” Assim a Método chegou ao início
dos anos 80 com 4 000 funcionários – e logo em seguida
começaram os problemas. Primeiro veio a ressaca da segunda
crise do petróleo de 79, depois a elevação
dos juros internacionais e, finalmente, a inadimplência do
Estado brasileiro. Em dezembro de 82 a empresa já empregava
apenas 700 pessoas. “A partir daí tivemos que nos reestruturar
a tocar a empresa de um outro jeito”, diz Rosa. Hoje a economia
quase não cresce e o ambiente escasseia em oportunidades
de negócios. Mas há estabilidade e são os empresários,
e não o governo, quem decide os rumos dos negócios.
Com a ditadura acabou um período selvagem e obscuro da vida
econômica brasileira. Agora o país vive sob a luz.
Só falta que ela conduza ao crescimento. 
| OCASO
NA DITADURA |
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HANGAR
DA PANAIR
OCUPADO: em 65 governo
cassou os vôos da empresa
e decretou sua falência sumária |
À
3 da tarde do dia 10 de fevereiro de 1965, uma quarta-feira
calorenta no Rio de Janeiro, um telegrama do Ministério
da Aeronáutica chegou aos escritórios da Panair
do Brasil. A mensagem curta e grossa, um simples despacho,
informava a decisão do governo militar, representado
pelo ministro Eduardo Gomes, de cassar o certificado de operação
da Panair, com base em uma suposta posição financeira
“insustentável”. Este comunicado seco e
implacável, típico do estilo castrense do período,
abateu em pleno vôo a mais conhecida e glamurosa empresa
brasileira de aviação, detentora de pelo menos
10% do mercado aeroviário. Na mesma noite, com os hangares
da empresa já ocupados pela tropa, a Varig assumiu
todas as rotas internacionais da rival -- e decolou imediatamente,
sem qualquer atraso, numa demonstração de eficiência
sem precedentes na história da aviação
mundial. “Embora a Varig seja uma grande empresa, assumir
vôos de outras companhias com horas de antecedência
só poderia ser feito se houvesse informação
prévia”, afirma o especialista R. Davies, autor
do clássico americano Airlines of Latin America.
No dia seguinte à intervenção, uma quinta-feira,
a Panair entrou com pedido de concordata preventiva. Na segunda,
por iniciativa própria, o juiz transformou o pedido
de concordata em falência – alegando que a empresa,
que não tinha um único título protestado
e gozava de outras fontes de receita, não teria como
saldar suas dívidas por estar proibida de voar. Terminava
ali, de maneira kafkiana, uma trajetória de 35 anos
de charme e eficiência.
“Fomos
vítimas de perseguição política”,
resume Rodolfo Rocha Miranda, filho do falecido dono da empresa
e atual diretor-presidente da Panair do Brasil, uma holding
sem atividade empresarial mantida com o intuito de lutar por
ressarcimento na Justiça. A origem da perseguição
é dupla. De um lado, Celso da Rocha Miranda, o pai
de Rodolfo morto em 81, era um empresário muito próximo
à Juscelino Kubitschek. Depois do golpe as outras empresas
da família, que atuava no ramo de seguros, perderam
todos os contratos com o governo e sofreram seguidas investigações
da receita. Mas o problema principal da Panair talvez tenha
sido acarretado pelo sócio de Rocha Miranda na Panair,
Mario Wallace Simonsen. Milionário e influente dono
da TV Excelsior de São Paulo e de 40 outras empresas,
este paulistano era considerado pelos golpistas como homem
do “esquema Jango” de comunicação.
Também ele foi perseguido pelo regime e sua empresas
sistematicamente prejudicas. Morreu em Paris em 24 de março
de 1965, em depressão, dias depois de ter seus bens
seqüestrados pelo governo. Entrará para a história,
com a Panair, na relação das primeira vítimas
fatais da ditadura. |
| APOGEU
NA DITADURA |
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MACHILINE
GESTICULA: contatos militares fizeram grupo Sharp
crescer na ditadura, mas não garantiram sobrevivência
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Poucos
empresários se movimentaram com tanta desenvoltura
no regime militar como o gaúcho Matias Machline. Sua
ascensão teve início em 1965, um ano após
os generais se instalarem no Palácio do Planalto, quando
obteve dos japoneses a autorização do uso da
marca Sharp no Brasil. Seu declínio começou
em 1990, ano em que o primeiro governo eleito democraticamente
desde 1964 assumiu o comando do País e promoveu a abertura
de mercado. A partir dali, a Sharp mergulhou em uma longa
agonia, agravada em 1994, com a morte do próprio Machline,
em um acidente de helicóptero nos Estados Unidos. Sete
anos depois, com a operação paralisada e vergada
por dívidas de US$ 350 milhões, o grupo teve
sua falência decretada.
Era o fim de um império que, no auge, abrigou cerca
de 30 empresas e registrou receitas à beira do US$
1 bilhão. O motor desse crescimento reunia, além
do faro comercial de Machline, uma excelente rede de amizades
com os ocupantes do poder e a capacidade de aproveitar o ambiente
econômico daquele momento, formado por abundantes recursos
financeiros oficiais e um mercado fechado à competição
internacional. Até 1965, Machline era um importador
de máquinas à frente da desconhecida Cimpro.
Naquele ano, com o domínio da marca Sharp ele iniciou
a trajetória de industrial que o levaria à liderança
nas vendas de calculadoras, televisores, vídeo-cassetes
e até microcomputadores. O grande salto aconteceu em
1972, quando se tornou um dos pioneiros na fabricação
de eletroeletrônicos na Zona Franca de Manaus. Para
a empreitada, ele contou com o apoio (e dinheiro) do então
Mi-
nistro da Comunicações Higino Corsetti. As portas
do governo
federal foram abertas graças à amizade com o
general João Baptista Figueiredo, um dos mais próximos
colaboradores do presidente
Emílio Garrastazu Médici. O próprio Médici
ficou encantado com a conversa daquele jovem empresário
e suas promessas de desenvolver uma indústria eletroeletrônica
nacional e assistir
a Copa do Mundo de Futebol a cores.
O relacionamento entre Figueiredo e Machline também
ajudou a colocar de pé a Lei de Informática,
em 1982, quando o general já ocupava a Presidência
da República. Com a reserva do setor para as empresas
nacionais, a Sid Informática, de Machline, se transformou
em uma das líderes na fabricação de microcomputadores
– e num dos primeiros empregos de Jonnhy, um dos filhos
de Figueiredo.
No governo seguinte, Machline continuou circulando à
vontade pelos corredores do Brasília. Um de seus principais
amigos, José Sarney, ocupava a Presidência e
o grupo Sharp arriscou-se por outros caminhos, como a TV por
assinatura, em associação com o Grupo Abril.
O negócio não prosperou e ajudou ao Grupo Machiline
entrar na trajetória de problemas que o levou á
bancarrota dez anos depois. |
| SOBREVIVENTE
DA DITADURA |
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USINA
NUCLEAR ANGRA I: construtura Odebrecht
ergueu as obras mais
emblemáticas do Brasil Grande |
O
setor da construção civil foi o mais impulsionado
pelos ventos do regime militar. Nesta raia, nenhuma outra
empresa manobrou melhor do que a Construtora Norberto Odebrecht.
Antes da ditadura, a Odebrecht jamais atingiu dimensão
nacional. Fundada em 1944, na véspera da derrocada
do Estado Novo, nos 20 anos seguintes de democracia a empresa
teve sua vida restrita a obras regionais. Em nada aproveitou
a grande onda de desenvolvimento representada pela construção
de Brasília, no governo de Juscelino Kubistchek. O
que parecia um erro, no entanto, se revelou um atestado de
salvo-conduto a partir de 1964, quando a ditadura militar
chegou para ficar por 21 anos. Os militares odiavam Juscelino
e seus amigos.
“No Brasil dos generais, quem quisesse crescer tinha
de ter uma relação de dependência absoluta
com o setor público”, lembra um alto executivo
do grupo. “Norberto entendeu essa lei”, completa
sobre a estratégia do fundador. Durante o governo de
Castelo Branco, ele teceu a partir da Bahia uma ampla rede
de “acessos e simpatias” entre os militares da
linha dura. Acertou na mosca. Esta corrente chega ao poder
com a unção de Costa e Silva à Presidência,
no final de 1967, e a companhia zarpa para o sucesso. Logo
em 1969, afinado com o czar da economia Delfim Netto, Norberto
arrebata a construção da sede da Petrobras,
no Rio. Em 1972, com Emílio Médici no Planalto,
vence a concorrência para erguer a primeira usina nuclear
brasileira, em Angra dos Reis. No ano seguinte, passa a fazer
o Aeroporto Internacional do Galeão. Pouco depois,
sob a gestão de Ernesto Geisel, levanta o monumental
edifício-sede do BNDES, de onde obtinha empréstimos
com juros pré-fixados e carência. Com a inflação,
reajustava os preços de seus contratos e pagava suas
dívidas com tranquilidade. A maior obra física
do regime, a Hidrelétrica de Itaipu, foi feita pela
companhia. Por determinação de Geisel, a Odebrecht
comprou em 1978 a participação da Camargo Corrêa
no Pólo Petroquímico da Bahia e se diversificou.
Hoje, o grupo é o principal acionista da petroquímica
Braskem, cujas ações subiram mais de 400% no
ano passado.
O faturamento de US$ 14 milhões da Construtora em 1971
duplicou no ano seguinte, decuplicou em 1973 e alcançou
o pico de US$ 902 milhões em 1982, quando tocava 853
obras no País. A partir de 1978, Emílio Odebrecht,
filho do fundador, direcionou a empresa o exterior, usando
o know-how desenvolvido no Brasil para vencer duras concorrências.
No ano passado, a Odebrecht tocou 1.305 obras pelo mundo,
tornando-se a 31a em faturamento fora de seu país de
origem, com US$ 1,6 bilhão. A empresa que pegou o vendaval
da ditadura aproveitou a brisa da democracia e tornar-se a
maior multinacional brasileira. |
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