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ESTILO
DINHEIRO |
Quarta-feira, 04 de fevereiro
de 2004 |
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| O
MAIOR DE TODOS |
| Um
livro de luxo de R$ 15.900, obra-prima do mercado editorial,
celebra o lendário campeão Muhammad Ali, o bailarino dos ringues
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Fábio
Altman
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“GOAT
- GREATEST OF ALL TIME, A TRIBUTE TO MUHAMMAD ALI”
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Páginas:
780 |
Dimensões:
50 x 50 cm |
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Peso:
35 quilos |
Preço:
R$ 15.900 |
Senhoras
e senhores... neste canto do ringue, com 35 quilos, 780 páginas,
50 cm em cada um dos lados e preço de capa de R$ 15.900,
o campeão mundial dos pesos pesados entre os livros de arte:
GOAT, A Tribute do Muhammad Ali. Produzido pela alemã
Taschen, editora de belos volumes de luxo, GOAT é o acrônimo
de Greatest of All Time, o maior de todos os tempos, homenagem ao
pugilista que transformou a lona em palco político, o negro
que se aliou a Malcom X e trocou o nome de batismo Cassius Clay
por outro, muçulmano. Se fosse necessário indicar
um único homem para representar os anos 60, tempo em que
as idéias velhas foram à lona, feridas pelo Black
Power e pelo Paz&Amor, ele seria Muhammad Ali. “Quisemos
construir um monumento editorial em sua homenagem”, diz Benedikt
Taschen.
A
edição, com tiragem inicial de 10 mil exemplares,
é autografada pelo próprio Ali. São 3 mil fotografias
de 150 profissionais – boa parte delas inédita. Os
textos foram escritos por monstros do jornalismo e da literatura
como Norman Mailer e ícones como Nelson Mandela. O conjunto
vem numa caixa que, aberta, tem quase o tamanho de uma mesa de ping-pong.
Um lote exclusivo de 1 mil unidades, acompanhadas de uma escultura
do artista plástico Jeff Koons, aquele que um dia se casou
com a porno-deputada italiana Cicciolina, custará quase o
dobro do preço: US$ 7.500. GOAT teve o tratamento
destinado às obras primas. Foi impresso na gráfica
do Vaticano, a única do mundo com recursos para imprimir
em papel de qualidade nessas dimensões, como se estivesse
tirando do prelo antigas bíblias com iluminuras. O tecido
rosa que embrulha a capa, numa referência à cor do
primeiro Cadillac de Ali, foi costurado na Louis Vuitton. “Gastamos
10 milhões de euros na produção do livro”,
disse à DINHEIRO María Eugenia Mariam, da Taschen.
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14
DE NOVEMBRO DE 1966
O nocaute imposto a Cleveland Williams pelas lentes de Neil
Leifer |
GOAT
está para o mercado editorial como Ali esteve para os ringues
– é o maior de todos, para usar a expressão iconoclasta
e arrogante que o campeão brandia para se autodefinir e que
empresta o título ao livrão. Ele é imbatível.
No ano passado, o MIT lançou Butão: Uma Odisséia
Virtual através do Reino. Tem 60 quilos, custa US$ 10 mil,
2,13 metros x 1,52 metro, mas perde num quesito para GOAT:
ostenta meras 114 páginas.
A
compra de exemplares do cartapácio de Ali será feita
mediante encomenda. Na semana passada, a livraria Cultura do Shopping
Villa Lobos, em São Paulo, recebeu um protótipo da
obra em tamanho original. Um jovem com pouco mais de 20 anos a viu
do lado de fora da vitrine. Encostou o rosto no vidro, a ponto de
embaçá-lo, e correu para folhear a peça. Espantado,
soltou um palavrão de sete letras como os desferidos pelo
Zé Pequeno do filme Cidade de Deus. E desferiu a pergunta:
“Por que não fazem um desses com Pelé?”.
O escritor José Castello, que acaba de lançar Pelé
– Os dez corações do Rei, tem um conjunto
de explicações. “Pelé foi injustamente
associado com as barbaridades da ditadura militar, que o utilizou
depois do tricampeonato mundial de 70”, diz. “Mas o
principal problema é o racismo, o preconceito brasileiro
não permitiria um rei negro. Imagine se o Pelé fosse
branco como o David Beckham”. O livro de Castello pesa pouco
mais de 200 gramas, mas, pela qualidade da prosa, emocionante e
precisa, tem, ao menos metaforicamente, os mesmos 35 quilos de GOAT.
Perde num aspecto – o estético – e isso faz toda
a diferença quando se trata de livros para pôr na sala
de estar.
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MIAMI,
DEZEMBRO
DE 1963 Antes da
luta contra Liston,
sentado no prêmio |
O brasileiro,
o atleta do século, um mito ainda hoje capaz de interromper
guerras, não soube se transformar num ícone político
como Ali, em parte porque não nasceu nos Estados Unidos.
O bailarino do boxe entendeu o mundo em que vivia, de modo a refleti-lo
em todos os seus gestos. Jogou a medalha de ouro que ganhara nas
Olimpíadas de Roma num rio, ofendido com uma garçonete
que se recusara a servi-lo por causa da cor da pele. Em 1967, recusou
o alistamento no Exército. Alegara motivações
religiosas, convertido ao islamismo, mas na verdade combatia a intromissão
americana no Vietnã. “Não tenho nada contra
os vietcon-
gues”, disse, mesmo ameaçado de cassação
do cinturão. Naquele tempo, num Brasil mergulhado na ditadura
militar, com um presidente que em 1970 aproveitou-se do tricampeonato,
Pelé apenas jogava futebol.
Ali
virou lenda. GOAT tem o seu tamanho. Folheá-lo dá
a impressão descrita por Norman Mailer no livro A luta,
o épico relato da disputa pelo título dos pesados
entre Ali e George Foreman, no Zaire, em 1974. “Há
sempre um choque quando o vemos de novo. Não ao vivo, como
na televisão, mas diante de nós, em pessoa, na sua
melhor aparência. Quando isso acontece, o Maior Atleta do
Mundo enfrenta o risco de ser o mais belo e, então, o vocabulário
de seus adeptos surge em sua grandeza. As mulheres suspiram sonoramente.
Os homens baixam o olhar, diminuídos, lembrados de
sua falta de mérito.”
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