 |
SEU
DINHEIRO |
Quarta-feira, 28 de Janeiro
de 2004 |
 |
 |
| COMO
PAGAR DÍVIDAS COM OBRAS DE ARTE |
A mostra Picasso, em São Paulo, cujas telas foram doadas
ao
governo francês para quitação de débitos
com o fisco, ajudam
a entender o funcionamento de um ótimo recurso tributário |
 |
|
Fernanda
Galvão
| |
 |
| |
RETRATO
DE HOMEM Óleo sobre tela de 1902/1903, de 93
x 78 cm, do acervo do Museu Picasso, em Paris |
As
125 obras da mostra “Picasso na Oca”, de 28 de janeiro
a 2 de maio, em São Paulo, só deixaram o ateliê
do gênio e os cofres de instituições financeiras
graças a uma imensa dívida dos herdeiros do maior
pintor do século XX com o fisco francês. Em 1990, os
parentes do mestre de Málaga utilizaram um recurso jurídico
– a “dação em pagamento” –
para quitar US$ 20 milhões em débitos com o governo
da França. Os tesouros expostos no Ibirapuera, como Retrato
de Homem, de 1902/1903 (ao lado), fazem parte desse lote
dado ao Ministério da Cultura de François Mitterrand
pela filha de Jacqueline Roque, a última mulher do pai do
cubismo. A dation, no original, em francês, permitiu
o enriquecimento do Museu Picasso, em Paris. Foram cinco anos
de negociações, até que os peritos separassem
o trigo do joio
e chegassem ao valor adequado ao pagamento do rombo
familiar. Os advogados do espólio insinuaram interromper
as conversas. A ameaça: caso o governo não quisesse
os quadros,
eles seriam vendidos no exterior – e o pagamento dos impostos
feito em dólares. Mas a transação deu certo.
No final, um recurso tributário resolveu os problemas de
herança e pôs de pé um
dos mais belos acervos do mundo.
Uma
parcela dele chega agora ao Brasil e induz a uma pergunta: é
possível quitar dívidas com obras de arte, como fizeram
os Picasso? Sim. A dação em pagamento também
é regulamentada no Código Civil Brasileiro. Ela prevê
a quitação de débitos por meio de qualquer
tipo de bem, de imóveis a jóias, de automóveis
a telas, desde que o credor aceite a oferta. É uma iniciativa
que vale para empresas e devedores individuais.
Nos
anos 80, o falido Banco Halles liquidou sua dívida com o
Banco Central com 15 peças de Portinari da década
de 50, hoje avaliadas em US$ 7,1 milhões. As peças
pertenciam, originalmente, à revista Cruzeiro. Entre
elas, está Desembarque dos Pioneiros, a mais valiosa,
estimada em US$ 2 milhões. As pinturas de Portinari, porém,
não estão sozinhas na coleção do BC.
Nas décadas de 70 e 80, o banco montou uma coleção
invejável, abrigada agora na sede em Brasília, numa
reserva técnica de primeira qualidade. São 200 peças
de autores brasileiros como Di Cavalcanti, Volpi, Tarsila do Amaral
e de estrangeiros como Salvador Dalí. O valor estimado: US$
11,8 milhões.
| |
 |
| |
COM
JAQUELINE ROQUE: Telas do tempo em que
ele vivia com sua última mulher foram cedidas ao governo
Mitterrand |
Na
prática, a dação em pagamento funciona como
um contrato comum de compra e venda. Segundo o advogado Bruno Balduccini,
do escritório Pinheiro Neto, de São Paulo, não
há restrições previstas em lei. A maior dificuldade
no processo de dação é que as duas partes envolvidas
precisam concordar com o valor definido para o bem. O acerto fica
ainda mais distante quando se refere ao preço de um objeto
de arte, já que a cotação depende de fatores
como raridade e qualidade da produção, quase intangíveis.
Por isso, quem pensa em usar o recurso jurídico precisa contratar
um marchand para avaliar a peça. Quase todas as galerias
e antiquários estão aptas a fazer o trabalho. Na hora
de escolher, porém, recomenda-se checar se o profissional
é um especialista naquele tipo de obra, seja pintura, escultura
ou fotografia. O ideal é que o avaliador também conheça
profundamente o autor, a época e o estilo do objeto.
Um
dos aspectos decisivos dessa avaliação é o
cálculo do tempo que o novo proprietário levará
para revender a obra. De acordo com o advogado Túlio Cohn,
do escritório paulista Simonetti Cohn, Passarelli e Germanos
Advogados, o trabalho pode ser de um grande artista, mas se não
houver demanda por ele no momento, não valerá muito.
Seu conselho aos inadimplentes: peça sempre uma segunda opinião,
e, se houver tempo, pondere se não é melhor vender
a peça e saldar a dívida em moeda corrente. “Com
esse procedimento, o devedor ainda poderá ter lucro”,
resume Cohn.

|