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ECONOMIA Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2004
A MISSÃO ÍNDIA
Lula leva 104 empresários à Ásia para desbravar
país de 1 bilhão de pessoas, que cresce 7% ao ano

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Leonardo Attuch

  Fotomontagem: Evandro Rodrigues
  COOPERAÇÃO
Lula assinará um
acordo para dar
acesso facilitado
a 800 produtos

O executivo indiano Ragvinder Rekhi recebeu uma tarefa que, anos atrás, parecia impossível. Ele teria que implantar a operação do McDonald’s na Índia. Primeiro problema: lá, a vaca é um animal sagrado e, portanto, não se come carne bovina. Segundo problema: quase metade da população é vegetariana. Porém, pouco tempo depois, Rekhi havia instalado 50 restaurantes, servindo carne de carneiro, peixe e até hambúrgueres à base de vegetais. “Meus chefes do McDonald’s foram pela primeira vez à Índia sem acreditar no potencial do mercado”, disse Rekhi à DINHEIRO. “Voltaram lamentando não terem ido antes.” Rekhi saiu do McDonald’s, instalou-se no Brasil, montou uma consultoria e é um dos 104 empresários que acompanham o presidente Lula na missão que chega à Índia no domingo 25. Rekhi foi con-
vidado pelo chanceler Celso Amorim para aproximar empresas dos
dois países. “Nossas economias se complementam”, avalia Amorim. “Eles têm o software; nós temos a indústria de alimentos mais competitiva do mundo.”

 
  RAGVINDER REKHI: Big Mac ao povo que venera a vaca

A Índia, porém, ainda é uma miragem. Muitos empresários brasileiros olham para o país, dez horas distante no fuso horário, com as lentes do preconceito e do estereótipo. O povo tem uma cor diferente, usa turbante e reverencia a vaca. Porém, grandes empresas globais já colocaram a Índia no centro de suas estratégias. É lá que corporações como General Electric e Microsoft pesquisam novos produtos – a base indiana de cientistas tem 300 mil engenheiros com Ph.D. Retardatário, só agora o Brasil tenta recuperar o tempo perdido. “Ainda há enormes perspectivas de exportação nos setores de calçados, móveis, cerâmica e pedras preciosas, entre muitos outros”, garante Juan Quirós, presidente da Apex, a agência brasileira de promoção de exportações. Convidado para as comemorações do Dia da República, na segunda-feira 26, Lula irá assinar um acordo de acesso a mercados, que criará condições especiais para a venda de 800 produtos. É o primeiro passo para um bloco de livre comércio entre Mercosul e Índia.

 
  TAJ MAHAL: Além de atrair turistas para os seus palácios, a Índia tornou-se um dos maiores exportadores de software do mundo

A missão empresarial também se insere na nova geopolítica do Brasil, que tenta se aproximar de países emergentes – e a Índia é um dos mais dinâmicos. Tem um PIB de US$ 515 bilhões e cresce 7% ao ano. No ano passado, as empresas brasileiras exportaram US$ 550 milhões para lá e importaram US$ 500 milhões. Foi um volume de comércio que triplicou nos últimos cinco anos. Porém, as importações indianas com origem no Brasil ainda representam menos de 1% do total. “É muito pouco perto do que se pode atingir”, diz Roberto Nóbrega, presidente da Câmara de Comércio Brasil-Índia. Um dos negócios recentes foi fechado pela Embraer, que vendeu cinco jatos executivos Legacy para o governo de Nova Déli. A metalúrgica Dedini, de Piracicaba, em São Paulo, assinou um contrato com a empresa indiana Uttam para transferir tecnologia na produção de álcool. “Vamos ajudá-los a instalar 30 destilarias”, comemora José Francisco Davos, vice-presidente da empresa. “Assim como o Brasil fez no passado, a Índia também planeja ter o seu Proálcool”.

A transferência de tecnologia também ocorre no sentido inverso. Há quatro anos, o executivo Harittar Balakrishna, da Torrent, multinacional farmacêutica com receitas de US$ 1 bilhão, desembarcou no País. Trouxe na bagagem remédios para tratamentos cardiovasculares e psiquiátricos. No ano passado, sua empresa vendeu US$ 7 milhões no Brasil e deve chegar a US$ 20 milhões em 2004. “Nós sabemos produzir remédios para uma população de baixa renda”, diz Balakrishna. “É disso que o Brasil precisa.”

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