| OS
ARQUIVOS DE DELFIM |
| O
czar da economia fala pela primeira vez das manipulações
na época do milagre e dos bastidores de como o Brasil
quebrou com a ditadura |
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Ouça
trechos
Os
segredos sobre a economia do regime militar
Por
Marco Damiani e Ricardo
Grinbaum
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“Geisel
não aceitava perder
para Médici. Fez um plano de
crescimento econômico maluco
que o País não pôde agüentar”
DELFIM NETTO |
Operador
do milagre brasileiro, czar econômico do regime militar e
ditador de normas, decretos e leis que moldaram a face produtiva
do País entre as décadas de 1960 e 1980, Antônio
Delfim Netto enfrentou nos últimos dias grossa pancadaria.
Ele foi empurrado às cordas acusado de manipular os índices
inflacionários de 1973, flagrado com sua vida financeira
investigada por antigos parceiros de governo e alçado ao
comando de um esquema para favorecer seus próprios interesses
na indústria da carne. Tudo nos tempos em que foi ministro
da Fazenda dos presidentes Costa e Silva (1967-1969) e Emílio
Garrastazu Médici (1969-1974). Com a imagem atingida, o civil
mais poderoso e bem informado do regime militar aceitou abrir seus
arquivos à DINHEIRO num contra-ataque sem meias palavras.
Em mais de três horas de conversa, repuxando os largos suspensórios
vermelhos entre modulações de voz que denunciavam
nostalgia em relação ao apogeu da ditadura e rancor
à lembrança do ex-presidente Ernesto Geisel (1974-1979),
Delfim apresentou sua versão da história. Ele retorquiu
os críticos, revelou bastidores do regime e detalhou como
o Brasil cresceu, parou e quebrou entre as décadas de 1960
e 1980. Confira o desabafo do homem que mandou e desmandou na economia
durante os tempos mais duros da história recente do País.
O
convite de Costa e Silva
A surpresa mudou sua vida e a economia
brasileira
Os
arquivos secretos do ex-ministro Delfim Netto sobre os bastidores
da economia durante a ditadura militar têm o seu primeiro
registro numa clara manhã carioca de outubro de 1966. Num
apartamento em Copacabana, cerca de 20 homens estão reunidos
desde as oito da manhã. Entre eles, o futuro presidente da
República, general Arthur da Costa e Silva (1967-1969).
“O
Costa já havia sido escolhido pelos militares e queria ouvir
uma exposição sobre agricultura. Eu era secretário
da Fazenda
de São Paulo e fui convidado pelo presidente da Associação
Co-
mercial do Rio para falar. Preparei gráficos e projeções.
Sabia
que era importante. Comecei às oito da manhã e terminamos
à uma da tarde”, conta Delfim.
Poucas
semanas depois chega a Delfim, em São Paulo, a surpresa que
iria mudar a sua própria vida – e com ela toda a economia
brasileira.
“Um
homem alto entrou no meu gabinete na Secretaria da Fazenda. Nunca
o vira na vida. Era o coronel Mario Andreazza e trazia uma carta
do Costa e Silva me convidando para ser ministro da Fazenda. Fiquei
surpreso. Podia imaginar a Agricultura, não a Fazenda. Aceitei
na hora. Peguei o telefone e disse sim ao presidente.”
AI-5
e crescimento turbinado
Delfim baixa regras de mercado sem
consulta
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“Geisel
teve medo que
eu fosse governador”
No Planalto, com o presidente e o chanceler Silveira:
pedido para voltar de Paris |
Indiretamente,
Costa e Silva deu a Delfim instrumentos que nenhum outro ministro
já teve para manobrar a economia em direção
ao crescimento. Em dezembro de 1968, baixou o AI-5 e deu início
à fase mais dura do regime militar, com o fechamento do Congresso,
a cassação de mandatos políticos e a suspensão
de garantias individuais. Presente à reunião do Conselho
de Segurança Nacional que determinou o ato, Delfim votou
a favor. A partir daí, tratou de usar o instrumento autoritário
para tomar decisões sem consultar ninguém e, assim,
turbinar índices de crescimento.
“Fui
oportunista”, admite. “Usei as condições
dadas pelo AI-5 para baixar um decreto-lei com praticamente toda
a reforma tributária que eu queria fazer e mais uma porção
de medidas importantes.” Sem debates ou oposição,
ele criou o ICM, alterou o sistema de exportações,
baixou regras sobre o mercado de capitais, mexeu no sistema financeiro
e ditou regras para o funcionamento da indústria. Um pacotaço.
Fez, aconteceu e não ouviu um pio de reclamação.
| “Fui
oportunista”, admite. “Usei as condições
dadas pelo AI-5 para baixar um decreto-lei com praticamente
toda a reforma tributária” |
“Chamei
os governadores e todos tiveram de entender que as regras eram aquelas.
Se eu não tivesse baixado as medidas, provavelmente não
teria havido o crescimento dos anos seguintes.”
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É mais fácil fazer política econômica
sem democracia?
“O
regime autoritário impediu a confusão geral. A democracia
exigiria muito mais paciência”, confessa.
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