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ECONOMIA Quarta-feira, 06 de Agosto de 2003
RABO DE FOGUETE
Empresas dos EUA, França e Japão se unem para controlar o
mercado de lançamento de satélites comerciais. Câmara dos
Deputados aprova acordo com a Ucrânia, em estratégia do Brasil
para abocanhar um pedaço desse bolo

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Juca Rodrigues

Animações e Galeria de fotos
Principais foguetes e bases de lançamento

 
  Confiável - Os foguetes da série Ciclone já realizaram mais de 200 lançamentos

Se não pode derrotar o inimigo, junte-se a ele. A francesa Arianespace, a americana Boeing e a japonesa Mitsubishi anunciaram que vão atuar em conjunto no mercado de lançamento de satélites comerciais. Seus clientes poderão colocar cargas na órbita da Terra utilizando os foguetes e bases de qualquer uma das três companhias. O acordo acontece em um momento de queda generalizada dos preços destes serviços e do aumento do número de países com programa espacial. Hoje, a Arianespace detém 80% do mercado, enquanto a Boeing é uma das donas da Sea Launch, plataforma flutuante de lançamento ancorada no Oceano Pacífico. Já a Mitsubishi constrói, vende e lança seu próprio foguete e cresce em ritmo acelerado.

O Brasil pretende entrar nesse clube com o Centro de Lançamentos de Alcântara, CLA, situado no Maranhão e um dos melhores locais do mundo para se mandar um veículo ao espaço. No último dia 23, a Câmara dos Deputados aprovou o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas assinado entre Brasil e Ucrânia em 2002. Nele, estão previstos respectivamente investimentos de R$ 90 milhões e US$ 130 milhões para fazer do centro maranhense base do Ciclone 4, foguete ucraniano de última geração, que tem seu primeiro vôo previsto para 2007. O acordo agora precisa ser apreciado pelo Senado. Além disso, continuamos a desenvolver nosso próprio foguete. Um terceiro protótipo do Veículo Lançador de Satélites, o VLS-1, tem lançamento previsto para este mês. Os dois primeiros falharam e tiveram de ser destruídos em vôo.

O bolo murchou

Segundo a Associação da Indústria de Satélites, entidade baseada nos Estados Unidos e que congrega as principais empresas do setor, o mercado mundial girou US$ 73,7 bilhões em 2000, sendo US$ 5,3 bilhões com serviços de lançamentos, US$ 2,7 bilhões só para os EUA. Houve um crescimento em 2002, foram US$ 86,9 bilhões de faturamento. Mas os ganhos com lançamento recuaram para US$ 3,7 bilhões, com os americanos levando US$ 1 bilhão deste total. Serviços de lançamento incluem o centro propriamente dito, a construção do foguete e a fabricação de componentes e sistemas.

O trunfo do Brasil para conquistar clientes espaciais é a localização do Centro de Alcântara. Por ficar muito próximo da Linha do Equador, ele comporta o lançamento de veículos mais pesados com menor gasto de combustível. Vários países têm interesse em usar a base brasileira.

 
  Independência - Terceiro protótipo do foguete brasileiro sobe aos céus em agosto

Tratado semelhante ao feito com a Ucrânia foi assinado pelo Brasil em 2000 com o governo dos Estados Unidos. Na época, houve grande polêmica sobre uma possível quebra da soberania do País, pois o documento não previa transferência de tecnologia e entre os termos constava o controle da base por funcionários americanos. Mas, deixar o controle do acesso com os fabricantes dos equipamentos é praxe em negociações desse tipo, que envolvem conhecimentos tecnológicos altamente estratégicos. A composição com a Ucrânia reza que “o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da Ucrânia envidarão seus melhores esforços para assegurar que autoridades brasileiras participem também do controle das áreas restritas, respeitada a proteção da tecnologia de origem ucraniana.” A vantagem deste acordo é que está prevista a transferência de tecnologia. O antigo, com os EUA, foi suspenso pelo governo brasileiro e retirado do Congresso, onde estava sendo analisado. Agora, o País estuda modificações. Resta saber como casar interesses de brasileiros, americanos e ucranianos.

Inimigo meu

Até o final dos anos 70, ir ao espaço era tarefa somente para americanos e russos. Em 1980, a chegada dos foguetes franceses Ariane fez este monopólio começar a ruir. Desde então, outros apareceram para disputar esta nova corrida espacial. Em 1998, o governo dos Estados Unidos transferiu do Departamento de Comércio para o Departamento de Estado a responsabilidade pela aprovação de negociações envolvendo satélites comerciais. O temor da Casa Branca era que a tecnologia caísse em mãos de países inimigos, pondo em risco a segurança nacional. Esta decisão resultou na perda irreparável de mercado, pois as exigências e o tempo gasto para se aprovar uma venda afugentaram antigos clientes.

É o que mostram vários documentos publicados nos últimos anos pelo Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, entidade que reúne dezenas de intelectuais e ex-funcionários do alto escalão do governo americano, como o ex-secretário de Estado Henry Kissinger. Nos trabalhos intitulados Preservando a Superioridade da América na Tecnologia de Satélites e Satélites Comerciais e Segurança Nacional: Nós Não Estamos Sozinhos, publicados em 2002, o Centro afirma que restringir a venda de equipamentos e serviços espaciais teve efeito contrário ao desejado. Em vez de manter o monopólio, a política adotada por Washington estimulou o desenvolvimento tecnológico de outras nações, ou seja, concorrência. Hoje, Cazaquistão, Ucrânia, China, Japão, Índia e Israel são competidores de respeito no cenário espacial. O Brasil chega lá.

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