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ECONOMIA Quarta-feira, 06 de Agosto de 2003
continua...
A MÁQUINA EMPRESARIAL DO MST
O Movimento dos Sem-Terra virou uma S/A. Tem R$ 20 milhões
em caixa, explora a marca, exporta e conquista mercados

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A empresa têxtil Matrics, localizada em Apucarana, no Paraná, há muito tempo não sabe o que é recessão. É lá que, a cada mês, são produzidos cinco mil bonés e duas mil camisetas para um cliente especial: o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Estima-se que a receita mensal com a encomenda seja de R$ 25 mil, representando um faturamento de R$ 300 mil por ano. “Eles sempre nos pagaram em dia”, conta Patrícia Lima, responsável pelo atendimento ao MST. “Nunca atrasaram uma fatura.” Há oito anos, a Matrics fornece roupas, chapéus e bandeiras para os militantes do movimento. Nenhum cliente da empresa cresceu tanto em tão pouco tempo. E aquilo que, no início, despertava uma certa desconfiança nos donos da Matrics, hoje é o carro-chefe da produção.

Há dias em que todos os 45 funcionários dedicam-se exclusivamente ao MST. O gasto dos sem-terra com as camisetas e bonés – o mesmo que causou celeuma ao ser usado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva – revela um lado pouco conhecido de uma organização que vem chacoalhando o País. É a versão S/A do MST. Hoje, os sem-terra atuam como se formassem uma grande corporação empresarial, com todas as divisões internas: produção, vendas, logística, finanças, treinamento e marketing. E, como têm capacidade para promover ações relâmpago em diversos pontos do território nacional, muitas delas simultâneas, os sem-terra reúnem qualidades que faltam a muitas empresas: liderança, disciplina e determinação. Só na última semana, houve invasões coordenadas em Pernambuco, no Paraná e em Minas Gerais. “Temos de admitir que, como uma organização econômica, eles são muito competentes”, reconhece o adversário Luiz Hafers, conselheiro da Sociedade Rural Brasileira.

Na retórica, o MST S/A ainda é bastante duro e agressivo. Os líderes pregam a ocupação à força dos latifúndios, a ampla reforma agrária e até mesmo uma revolução socialista. No entanto, na prática, muitas das iniciativas do movimento são cem por cento capitalistas. O MST administra um caixa milionário, explora o valor da sua marca como poucas empresas, recolhe vastas contribuições internacionais, vende e exporta seus produtos, faz a intermediação financeira nos empréstimos agrícolas governamentais e treina intensamente seus quadros profissionais. Um exemplo é a construção de um centro de formação em Guararema, São Paulo, ao custo de R$ 7,4 milhões. Assim como muitas multinacionais, o MST também terá sua “universidade corporativa”, batizada como Escola Nacional Florestan Fernandes, em homenagem ao sociólogo que inspira o movimento. Uma outra escola já funciona em Caçador, Santa Catarina.

No organograma do poder, a corporação também tem o seu CEO. Ainda que não exista formalmente o cargo de presidente, o líder incontestável, desde a fundação do movimento, em 1984, é o gaúcho João Pedro Stédile, que, há poucos dias, deixou os produtores rurais em estado de alerta ao dizer que existem mil trabalhadores sem-terra para cada latifundiário e conclamou seu exército de 80 mil famílias acampadas a novas invasões. Abaixo de Stédile, há um número restrito de executivos, como Gilmar Mauro, de São Paulo, Roberto Baggio, do Paraná, e Mário Lill, do Rio Grande do Sul. Estes três fazem parte da direção central e Lill, que chegou a entregar uma bandeira dos sem-terra ao palestino Yasser Arafat, é quem cuida das finanças. Descendo na hierarquia, chega-se aos 90 coordenadores regionais em 23 dos 27 Estados brasileiros e aos militantes – quase todos assalariados. Mas de onde vem o dinheiro para manter tanta gente em acampamentos, tantos quadros internos e promover ocupações em regiões tão remotas? “Nós não temos controle sobre o dinheiro, porque é tudo descentralizado e cada regional recolhe os recursos que usa nas suas atividades”, garantiu Lill à DINHEIRO.

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