GUSTAVO
FRANCO
"FOZ É DOS DOLEIROS" |
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Leonardo
Attuch
Gustavo
Franco, ex-presidente do Banco Central, foi o principal personagem
da CPI do Banestado na última semana. Ele teve de explicar
durante 10 horas por que autorizou cinco bancos de Foz do Iguaçu
Banestado, Banco do Brasil, Araucária, Bemge e Real
a realizarem remessas superiores a
R$ 10 mil por contas CC-5. Disse que a medida visava normalizar
o fluxo de comércio local e que, sem ela, a região
acabou entregue, novamente, ao poder dos doleiros. Um dia depois
de depor, Franco, curiosamente, estava em Foz, onde fez uma palestra.
De lá, falou à DINHEIRO e deu uma sugestão
para o combate à lavagem. Por que não levar
os doleiros à Justiça?, indagou.
DINHEIRO
O sr. foi acusado de ter aberto uma avenida para a lavagem
de dinheiro. Qual a sua defesa?
GUSTAVO FRANCO A acusação não tem
fundamento. O Banco Central criou normas para permitir a repatriação
de reais gastos no Paraguai, trazendo para a legalidade um movimento
comercial e de turismo que vinha transitando pelo paralelo.
O BC faz normas para pessoas honestas, que se viam forçadas
a negociar com doleiros.
Mas
acabaram usadas por pessoas desonestas e teriam
servido à lavagem.
Existiram tentativas de fraude. Os responsáveis foram identificados
pelo BC e seus esquemas comunicados ao Ministério Público
em abril de 1997. Desde a denúncia, a lavagem parece ter
se deslocado para outras operações. As fraudes, na
minha opinião, não atingiriam valores sequer próximos
do que poderia ser descrito como avenida.
O
número de US$ 30 bilhões seria falso?
O volume de dinheiro remetido pelas CC-5 foi maior. Mas acho improvável
que as operações ilegais daqueles bancos tenham
sido tão grandes.
Não
teria sido melhor que as operações ilegais continuassem
no black, sendo reprimidas pela polícia?
O BC não criou facilidades para operações ilegais;
o BC passou a permitir que operações legais pudessem
ser feitas na legalidade. O que era ilegal e que buscou o caminho
dos bancos para ocorrer sob o manto da legalidade acabou descoberto
e denunciado.
Na
sua avaliação, que providências devem ser tomadas
no País para se reprimir a lavagem de dinheiro?
O que se faz em toda parte: coordenação das agências
de governo, com apoio político e da sociedade. Aqui no Brasil,
ao contrário, o que se faz é culpar o BC, a Receita
Federal ou a polícia pela falta de resultados. Há
outro ponto. O que se descobriu até agora foram várias
redes regionais, que têm no centro um doleiro. A juíza
Denise Frossard conseguiu levar os bicheiros à Justiça.
Por que não se faz o mesmo com os doleiros?
Por
quê?
Porque eles têm amigos poderosos, tanto nos meios empresariais
como nos meios políticos. Um juiz poderia convocá-los
e perguntar como funcionam suas empresas, por que elas se parecem
com verdadeiras fortalezas e também tentar entender de onde
vem tanto dinheiro.
O
Tribunal de Contas da União alega que o BC demorou
a tomar providências.
O BC faz normas para pessoas de bem. Remover as regras porque alguém
delas abusa é punir os inocentes, que são a maioria.
Mas as providências foram sim tomadas.
As autorizações dos bancos em Foz foram suspensas
pelo BC, na gestão Armínio Fraga. Quais as conseqüências
disso?
Isso acabou prejudicando o turismo e o comércio de Foz, que
foi entregue de volta aos doleiros. Acho que não foi uma
boa solução.
O
ministro Márcio Thomaz Bastos propõe uma anistia para
os capitais evadidos do País. O sr. é favorável?
Francamente, não tenho muita simpatia pela medida, pois entendo
como muito difícil de se fazer. Mas vejo como algo que deve
ser estudado de forma séria.
O
deputado José Mentor (PT-SP) disse que o seu depoimento
na CPI não foi convincente.
Isso faz parte do terreno da política, do imponderável.
É da liturgia de todas as CPIs. 
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