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NEGÓCIOS

Quarta-feira, 04 de Junho de 2003
SANDOZ É GENÉRICO
Por que a Novartis resolveu usar uma das marcas mais conhecidas do mundo para comercializar produtos sem patente

Ivan Martins, de Viena (Itália)

 

É quase como se a Microsoft lançasse um programa grátis para concorrer com o Linux. Ou talvez como se a Sony criasse um site para distribuir música barata. Na semana passada, ao anunciar em Viena a unificação de sua linha de genéricos sob a marca Sandoz, a companhia farmacêutica Novartis legitimou um mercado visto com maus olhos por boa parte da indústria farmacêutica. Embora seja perfeitamente legal e respeitável fabricar drogas de outras empresas com patentes vencidas, ainda paira sobre essa atividade uma mistura de desconfiança e preconceito – inclusive da parte dos consumidores. “A presença de uma marca tradicional como a Sandoz vai ajudar a firmar mundialmente o negócio de genéricos”, prevê o economista Grahan Lewis, especialista na indústria de medicamentos. Sexta empresa farmacêutica do mundo, dona de um faturamento anual de US$ 21 bilhões, a Novartis já tem uma presença forte no mundo dos genéricos. Ela data de antes da fusão da Sandoz e da Ciba-Geigy, em 1996, que deu origem à Novartis. Mas agora, ao unificar seus diversos produtos sob uma única marca global, a empresa suíça dará visibilidade e sinergia a essa parte dos seus negócios. “O nome Sandoz comunica alta qualidade e inovação”, disse à DINHEIRO o executivo austríaco Christian Seiwald, presidente da Sandoz. “Com ele queremos ser líder incontestável em medicamentos genéricos.”

Nos EUA, 10 semanas depois de vencer uma patente os genéricos abocanham 92% do seu mercado O mercado farmacêutico mundial é de US$ 400 bilhões, dos quais US$ 30 bilhões são genéricos
Os genéricos são 6% do mercado farmacêutico brasileiro, que vale US$ 4,5 bilhões Genéricos representam 42% do mercado americano de medicamentos

 
  Seiwald, em Viena: Marca de tradição ajuda na luta pela liderança do mercado que mais cresce

Essa decisão reflete mudanças profundas no mercado farmacêutico, que podem ser resumidas pela palavra crescimento. Em 2002 a Novartis cresceu 11% em vendas. A menor parte desse crescimento, 13%, veio da área de novas drogas. O crescimento mais forte, de 25%, veio do setor de genéricos. Este ano, até agora, os percentuais são de 13% de crescimento total, 10% de crescimento nos medicamentos com marcas e nada menos que 83% de crescimento em genéricos. “A venda de genéricos não compensa as perdas decorrentes do vencimento das nossas patentes, mas estar nos dois mercados ajuda bastante”, diz Seiwald. Embora os genéricos ofereçam margens de comercialização bem menores, eles também têm custos menores. Não se gasta em pesquisa e a promoção do produto é barata. Mas há outro lado. “O essencial nesse mercado é preço, rapidez e qualidade”, resume Georg Naderegger, sócil da McKinsey alemã. Essa é outra forma de dizer que a concorrência entre genéricos é feroz e que não há chance de obter com eles os lucros proporcionados pelos remédios campeões de venda. Outro problema desse mercado é que ele depende integralmente do ritmo de vencimento de patentes. Em um ano em que muitas delas caducam – como 2002, quando 11 campeões de venda caíram no domínio público, entre eles o Prozac – os genéricos florescem. Em anos de poucas patentes o negócio é pior. O que o tem tornado atraente é que nos últimos anos ele tem concentrado boa parte do crescimento da indústria. Pegue-se o caso do Brasil, onde os genéricos foram regulamentados em 1999 e já representam 6% do mercado anual de US$ 4,5 bilhões. O crescimento da indústria farmacêutica tradicional no País foi pouco mais de zero em 2002, enquanto a venda de genéricos cresceu 80%. “Vender genéricos é uma forma de compensar a estagnação”, diz Paulo Muradian, presidente da Novartis do Brasil. “Não há conflito com o negócio principal.” A marca Sandoz será introduzida no Brasil gradualmente e a troca deve estar concluída em 18 meses.

Saúde barata. Parte do surto de crescimento dos genéricos deve-se à descoberta na América Latina e na Ásia de algo que os americanos sabem há tempos: as drogas sem patentes barateiam os custos da saúde. Nos Estados Unidos, onde os genéricos detêm 42% do mercado, o preço médio de uma receita é de US$ 10, contra US$ 40 das drogas com patente. Essa diferença é fundamental para as seguradoras de saúde, que têm nos medicamentos o seu item mais importante de custos e aquele que cresce mais rápido. São ainda mais importantes para os governos, que arcam com os custos crescentes da saúde pública causados pelo envelhecimento das populações. “Os medicamentos genéricos tornaram o tratamento de saúde muito mais barato”, constatou, dias atrás, o próprio presidente americano George W. Bush, amigo e insuspeito defensor da indústria farmacêutica. Isso sugere que a Sandoz, ao mergulhar de cabeça no mercado de genéricos, fará algo mais do que defender em outro terreno os lucros de seus acionistas – ajudará, também, a pôr de pé o setor da indústria farmacêutica que tem as melhores credenciais sociais.

FÓRUM 1
O PIB brasileiro
encolheu 0,1%,
segundo o IBGE. O
jornal The New York Times gostou e
publicou reportagem
com o título “Boas notícias do Brasil”.
Boas para quem,
cara-pálida?
FÓRUM 2
Para o BC, os reajustes salariais do 1º trimestres foram alguns dos principais culpados pela manutenção da
taxa de juros em
26,5 ao ano. Meu
Deus, o que é isso?
ENQUETE

O governo impediu a CPI do Banestado, que apuraria a remessa ilegal de US$ 30 bilhões para o exterior. Há uma lista na PF com nomes de empresários e políticos de vários partidos. Para você:

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