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FINANÇAS

Quarta-feira, 09 de Abril de 2003
CALOTEIRO NÃO ENTRA
Banco Central, Associação Comercial de São Paulo e financeiras lançam banco de dados gigante, com 60 milhões de bons pagadores,
e abrem espaço para a redução dos juros ao consumidor

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Paula Pavon

  Fotos: Ana Paula Paiva
  Álvaro Musa, da Partner Consultoria: “Novo sistema reduzirá a inadimplência”

O consumidor sempre sente um friozinho na barriga toda vez que precisa pedir empréstimo e o comerciante consulta o serviço de proteção ao crédito. Mas agora a lista negra está com os dias contados ou, pelo menos, sofrerá uma concorrência muito forte. Estão entrando em operação os chamados cadastros positivos. São bancos de dados que invertem o raciocínio tradicional. Ao invés de registrar quem está inadimplente, informam todo o histórico de consumo do bom pagador. Estão ali dados sobre onde o cliente mora, trabalha, quanto ganha e quais financiamentos já fez. Com base nessas informações, a loja, financeira ou banco se sente mais segura para liberar o dinheiro e acena até com empréstimos mais baratos. “O banco de dados único facilita a decisão das instituições financeiras e permitirá a redução dos juros”, diz Álvaro Musa, diretor da Partner Consultoria, que montou o banco de dados conjunto de cinco financeiras.

No momento, existem três grandes cadastros positivos sendo montados no Brasil. O primeiro deles é o da Losango, Fininvest, Panamericano, Aymoré e Cacique em parceria com a Serasa. Juntas, as cinco financeiras controlam cerca 30% do setor de crédito ao consumidor no Brasil. Elas se uniram há um ano e, discretamente, começaram a reunir os dados da clientela. Hoje, o cadastro tem 30 milhões de nomes e já é consultado rotineiramente. Os outros dois cadastros que estão sendo montados no País são o do Banco Central e o da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). A expectativa é que entrem em operação em junho. Quando todos os novos bancos de dados estiverem prontos, haverá uma multidão de 60 milhões de consumidores cadastrados. Todo esse público pega empréstimos no valor estimado de R$ 25 bilhões.

As cinco financeiras que saíram na frente já estão sentindo o resultado do novo esquema de trabalho. “Antes podíamos consultar apenas se a pessoa estava ou não devendo. Agora sabemos quantos créditos ela tomou, quando e como pagou e nos sentimos mais seguros”, diz Roberto Lamy, diretor de crédito e risco da Fininvest. Uma financeira pode consultar dados de outra no cadastro único. Com isso, elas sabem quem já pediu emprestado e pagou em dia. Essa informação é vital para diminuir os riscos do empréstimo e reduzir as perdas com calotes. Aproximadamente 30% da diferença entre a taxa de juros básica da economia, a Selic, e os juros cobrados pelas instituições ocorre pela alta inadimplência, que hoje está em 8%. “Diminuímos em 20% nossa inadimplência”, diz Adalberto Savioli, diretor de risco do banco Panamericano. As financeiras dizem que estão repassando os ganhos pelo menos para alguns consumidores. Os clientes com fama de bons pagadores estariam pagando juros mais baixos. “Repassamos nossos ganhos na concessão de crédito”, diz Savioli. Para a massa dos consumidores, porém, nada mudou. As financeiras alegam que não puderam reduzir os juros devido a situação geral da economia.

  Fotos: Ana Paula Paiva
  Banco de dados: O novo sistema movimentará cerca de R$ 25 bilhões em crédito

Fiscalização. Enquanto as empresas buscam reduzir as perdas com inadimplência, o BC e a Associação Comercial de São Paulo têm objetivos diferentes com a criação do novo sistema. O BC está mais interessado em utilizar as informações coletadas no mercado para fiscalizar a concessão de crédito no País, ao mesmo tempo que serve de arquivo de dados para o setor. “Toda a sociedade vai se beneficiar pelo nível de detalhamento das informações que o sistema irá fornecer”, diz Vânio Aguiar, chefe do departamento de supervisão indireta do BC. Já a ACSP pretende melhorar o sistema que já tem hoje, onde ficam cadastrados somente os maus pagadores. Juntos, os sistemas devem ser consultados pelas 420 instituições financeiras existentes no País.

O novo sistema irá favorecer o crédito, mas já começa a gerar polêmica. O fato de as informações dos clientes ficarem totalmente disponíveis nos bancos de dados tem causado questionamentos por parte do órgão de defesa do consumidor. “Com esse sistema, o cliente perde a privacidade porque todos terão acesso aos seus dados”, diz Sonia Amaro, assistente de direção do Procon. Para não ter problemas jurídicos, as instituições já estão tomando providências. Nenhum cadastro vai parar no arquivo único sem o próprio cliente autorizar por escrito a migração. “O cadastro positivo não vai contra o consumidor. Ele agiliza a concessão do crédito e só quem deve temê-lo é o mau pagador”, diz Marcel Solimeo, economista da ACSP. A partir de agora, a fama de bom pagador pode ser um bom negócio.

FÓRUM 1
Você sente que o País
está melhorando?
FÓRUM 2
Saddam Hussein apareceu na TV
nesta sexta-feira,
dia 4, sorridente
e cercado pelo povo
em uma rua de
Bagdá . O que você
faria se estivesse
na pele dele?
ENQUETE 1

A violência no Rio
reflete o caos
da segurança pública
no País. O assunto
pena de morte volta
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