| CALOTEIRO
NÃO ENTRA |
Banco
Central, Associação Comercial de São Paulo
e financeiras lançam banco de dados gigante, com 60 milhões
de bons pagadores,
e abrem espaço para a redução dos juros
ao consumidor |
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Paula
Pavon
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Álvaro
Musa, da Partner Consultoria: “Novo sistema reduzirá
a inadimplência” |
O consumidor
sempre sente um friozinho na barriga toda vez que precisa pedir
empréstimo e o comerciante consulta o serviço de proteção
ao crédito. Mas agora a lista negra está com os dias
contados ou, pelo menos, sofrerá uma concorrência muito
forte. Estão entrando em operação os chamados
cadastros positivos. São bancos de dados que invertem o raciocínio
tradicional. Ao invés de registrar quem está inadimplente,
informam todo o histórico de consumo do bom pagador. Estão
ali dados sobre onde o cliente mora, trabalha, quanto ganha e quais
financiamentos já fez. Com base nessas informações,
a loja, financeira ou banco se sente mais segura para liberar o
dinheiro e acena até com empréstimos mais baratos.
“O banco de dados único facilita a decisão das
instituições financeiras e permitirá a redução
dos juros”, diz Álvaro Musa, diretor da Partner Consultoria,
que montou o banco de dados conjunto de cinco financeiras.
No momento, existem três grandes cadastros
positivos sendo montados no Brasil. O primeiro deles é o
da Losango, Fininvest, Panamericano, Aymoré e Cacique em
parceria com a Serasa. Juntas, as cinco financeiras controlam cerca
30% do setor de crédito ao consumidor no Brasil. Elas se
uniram há um ano e, discretamente, começaram a reunir
os dados da clientela. Hoje, o cadastro tem 30 milhões de
nomes e já é consultado rotineiramente. Os outros
dois cadastros que estão sendo montados no País são
o do Banco Central e o da Associação Comercial de
São Paulo (ACSP). A expectativa é que entrem em operação
em junho. Quando todos os novos bancos de dados estiverem prontos,
haverá uma multidão de 60 milhões de consumidores
cadastrados. Todo esse público pega empréstimos no
valor estimado de R$ 25 bilhões.
As cinco financeiras que saíram na frente
já estão sentindo o resultado do novo esquema de trabalho.
“Antes podíamos consultar apenas se a pessoa estava
ou não devendo. Agora sabemos quantos créditos ela
tomou, quando e como pagou e nos sentimos mais seguros”, diz
Roberto Lamy, diretor de crédito e risco da Fininvest. Uma
financeira pode consultar dados de outra no cadastro único.
Com isso, elas sabem quem já pediu emprestado e pagou em
dia. Essa informação é vital para diminuir
os riscos do empréstimo e reduzir as perdas com calotes.
Aproximadamente 30% da diferença entre a taxa de juros básica
da economia, a Selic, e os juros cobrados pelas instituições
ocorre pela alta inadimplência, que hoje está em 8%.
“Diminuímos em 20% nossa inadimplência”,
diz Adalberto Savioli, diretor de risco do banco Panamericano. As
financeiras dizem que estão repassando os ganhos pelo menos
para alguns consumidores. Os clientes com fama de bons pagadores
estariam pagando juros mais baixos. “Repassamos nossos ganhos
na concessão de crédito”, diz Savioli. Para
a massa dos consumidores, porém, nada mudou. As financeiras
alegam que não puderam reduzir os juros devido a situação
geral da economia.
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Banco
de dados: O novo sistema movimentará cerca de
R$ 25 bilhões em crédito |
Fiscalização.
Enquanto as empresas buscam reduzir as perdas com inadimplência,
o BC e a Associação Comercial de São Paulo
têm objetivos diferentes com a criação do novo
sistema. O BC está mais interessado em utilizar as informações
coletadas no mercado para fiscalizar a concessão de crédito
no País, ao mesmo tempo que serve de arquivo de dados para
o setor. “Toda a sociedade vai se beneficiar pelo nível
de detalhamento das informações que o sistema irá
fornecer”, diz Vânio Aguiar, chefe do departamento de
supervisão indireta do BC. Já a ACSP pretende melhorar
o sistema que já tem hoje, onde ficam cadastrados somente
os maus pagadores. Juntos, os sistemas devem ser consultados pelas
420 instituições financeiras existentes no País.
O
novo sistema irá favorecer o crédito, mas já
começa a gerar polêmica. O fato de as informações
dos clientes ficarem totalmente disponíveis nos bancos de
dados tem causado questionamentos por parte do órgão
de defesa do consumidor. “Com esse sistema, o cliente perde
a privacidade porque todos terão acesso aos seus dados”,
diz Sonia Amaro, assistente de direção do Procon.
Para não ter problemas jurídicos, as instituições
já estão tomando providências. Nenhum cadastro
vai parar no arquivo único sem o próprio cliente autorizar
por escrito a migração. “O cadastro positivo
não vai contra o consumidor. Ele agiliza a concessão
do crédito e só quem deve temê-lo é o
mau pagador”, diz Marcel Solimeo, economista da ACSP. A partir
de agora, a fama de bom pagador pode ser um bom negócio.

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