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ECONOMIA

Quarta-feira, 31 de Julho de 2002
PORTA-AVIÕES A PREÇO DE BANANA
Navio Minas Gerais, símbolo da era JK, é vendido por US$ 2 milhões
e vira parque na China

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Galeria de fotos - Frota brasileira

Hugo Studart

 
Despedida: empresários chineses irão rebocá-lo do Rio de Janeiro já em agosto  

Destino insólito o da nau capitânea dos anos dourados brasileiros. O porta-aviões Minas Gerais, um dos grandes ícones dos tempos em que o País criava sua própria indústria e sonhava se tornar potência mundial, vai virar parque de diversões, para deleite do recém-nascido capitalismo chinês. O navio foi leiloado na segunda-feira 22, aos 58 anos, 42 no Brasil. Arrematou-o, por US$ 2 milhões, uma certa HK Jiexin Shipping, empresa com sede em Hong Kong, criada por um grupo de investidores asiáticos só para administrar a embarcação. Os novos donos do Minas Gerais não formam uma corporação conhecida. O que se sabe é que não gostam de aparecer e mantêm negócios dispersos na Ásia nos ramos do lazer e da navegação. Para cada negócio ou navio, uma empresa diferente. Em agosto, o Minas Gerais começará a ser rebocado da Baía de Guanabara, onde se encontra. A viagem deve durar entre 50 e 60 dias. Ficará estacionado no porto de Zhoushan, perto de Xangai, pulsante coração econômico da nova China. Os planos são de reinaugurá-lo em dezembro como centro de lazer privado, com lojas, bares e um pequeno museu. “O Minas Gerais foi um navio que marcou história, mas chegou à sua última fase de vida operacional”, disse à DINHEIRO o ministro da Defesa, Geraldo Quintão. “Esse navio engrandeceu o País e deixou uma reputação maior do que a de qualquer outro”, lembra o almirante Hélio Leôncio Martins, o primeiro comandante do porta-aviões. “Ele merecia um destino melhor.” Na verdade, poderia ser bem pior. A Marinha recebeu 12 propostas de compra da embarcação, nove delas para derretê-la como sucata. Há 16 mil toneladas de aço de excelente qualidade. Chegaram propostas da Europa e Ásia, quatro delas da Índia, quase todas com valores próximos a US$ 1 milhão. Somente uma empresa brasileira fez oferta: a Sidarta, do Rio de Janeiro. Cacifou míseros US$ 170 mil pela sucata. A Marinha brasileira torcia para que fosse arrematado por uma ONG britânica. A idéia era levá-lo até Portsmouth, na boca do Canal da Mancha, e ancorá-lo como museu naval. Mas os chineses bancaram mais.

Fotos: Anderson Scheneider

Construído a mando de Winston Churchill quando Hitler bombardeava Londres, o navio foi batizado como Vengeance (Vingança). É hoje o único porta-aviões do mundo sobrevivente da Segunda Guerra. Juscelino Kubitschek comprou-o em 1956. Ele, que foi eleito com forte oposição das Forças Armadas, pretendia bajular a Marinha. Também fazia parte de um plano maior de desenvolvimento econômico e de inserção do Brasil no cenário mundial. O Minas Gerais chegou ao País em dezembro de 1960, pouco antes da posse de Jânio Quadros. A esquerda fez acirrada campanha contra o navio. Juca Chaves se lançou como menestrel com uma inesquecível modinha: “O Brasil já vai à guerra/ comprou porta-aviões/ um viva pra Inglaterra/ de 82 bilhões/ mas que ladrões!”. Protagonizou um dos raros casos de censura às artes durante os anos democráticos.

Morte honrosa. O Minas Gerais foi aposentado em janeiro de 2001. Substituiu-o o porta-aviões Foch, de 40 anos, comprado da França por US$ 24 milhões e rebatizado de São Paulo. O velho Minas Gerais teve de se retirar do mar porque não comporta mais do que 12 aviões modernos. O São Paulo embarca 30. Nos meses de incerteza sobre o destino do Minas Gerais, sargentos chegaram a fazer promessa para que virasse museu. Marinheiros acreditam que navios tenham alma – e que as naus do imaginário popular tenham direito a uma morte honrosa. O encouraçado São Paulo, da frota de 1910, foi vendido por JK como sucata. Afundou no Atlântico um pouco antes de ser derretido. O cruzador Tamandaré há 25 anos também foi vendido como sucata, sendo a única nave a escapar intacta do ataque a Pearl Harbor. Os americanos só o chamavam de Lucky Lou (Sortudo Lou). “Haverá delírio na tropa se a alma do Minas Gerais se recusar a chegar à China”, diz o comandante Celso de Mello Franco. De fato, é longa e tormentosa a travessia pelo Pacífico até o porto de Zhoushan.


 
 
FÓRUM 1
Alta do dólar elevou
a dívida bruta do governo central para
quase R$ 1 trilhão
(não se assuste).
De quem é a culpa?

FÓRUM 2
Dados do IBGE
mostram que quase 44,5% dos idosos brasileiros vivem
com menos de um
salário-mínimo
por mês e ainda
chefiam famílias.
Como isso é possível?

FÓRUM 3
Estudo da Fiesp
revela que a Alca fará
o Brasil perder
US$ 1 bilhão por ano.
Aderimos ou não ?

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