| PORTA-AVIÕES
A PREÇO DE BANANA |
Navio
Minas Gerais, símbolo da era JK, é vendido por
US$ 2 milhões
e vira parque na China |
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Hugo
Studart
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| Despedida:
empresários chineses irão rebocá-lo do Rio de Janeiro já em
agosto |
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Destino
insólito o da nau capitânea dos anos dourados brasileiros.
O porta-aviões Minas Gerais, um dos grandes ícones
dos tempos em que o País criava sua própria indústria
e sonhava se tornar potência mundial, vai virar parque de
diversões, para deleite do recém-nascido capitalismo
chinês. O
navio foi leiloado na segunda-feira 22, aos 58 anos, 42 no Brasil.
Arrematou-o, por US$ 2 milhões, uma certa HK Jiexin Shipping,
empresa com sede em Hong Kong, criada por um grupo de investidores
asiáticos só para administrar a embarcação.
Os novos donos do Minas Gerais não formam uma corporação
conhecida. O que se sabe é que não gostam de aparecer
e mantêm negócios dispersos na Ásia nos ramos
do lazer e da navegação. Para cada negócio
ou navio, uma empresa diferente. Em agosto, o Minas Gerais começará
a ser rebocado da Baía de Guanabara, onde se encontra. A
viagem deve durar entre 50 e 60 dias. Ficará estacionado
no porto de Zhoushan, perto de Xangai, pulsante coração
econômico da nova China. Os planos são de reinaugurá-lo
em dezembro como centro de lazer privado, com lojas, bares e um
pequeno museu. O Minas Gerais foi um navio que marcou história,
mas chegou à sua última fase de vida operacional,
disse à DINHEIRO o ministro da Defesa, Geraldo Quintão.
Esse navio engrandeceu o País e deixou uma reputação
maior do que a de qualquer outro, lembra o almirante Hélio
Leôncio Martins, o primeiro comandante do porta-aviões.
Ele merecia um destino melhor. Na verdade, poderia ser
bem pior. A Marinha recebeu 12 propostas de compra da embarcação,
nove delas para derretê-la como sucata. Há 16 mil toneladas
de aço de excelente qualidade. Chegaram propostas da Europa
e Ásia, quatro delas da Índia, quase todas com valores
próximos a US$ 1 milhão. Somente uma empresa brasileira
fez oferta: a Sidarta, do Rio de Janeiro. Cacifou míseros
US$ 170 mil pela sucata. A Marinha brasileira torcia para que fosse
arrematado por uma ONG britânica. A idéia era levá-lo
até Portsmouth, na boca do Canal da Mancha, e ancorá-lo
como museu naval. Mas os chineses bancaram mais.
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Construído
a mando de Winston Churchill quando Hitler bombardeava Londres,
o navio foi batizado como Vengeance (Vingança). É
hoje o único porta-aviões do mundo sobrevivente da
Segunda Guerra. Juscelino Kubitschek comprou-o em 1956. Ele, que
foi eleito com forte oposição das Forças Armadas,
pretendia bajular a Marinha. Também fazia parte de um plano
maior de desenvolvimento econômico e de inserção
do Brasil no cenário mundial. O Minas Gerais chegou ao País
em dezembro de 1960, pouco antes da posse de Jânio Quadros.
A esquerda fez acirrada campanha contra o navio. Juca Chaves se
lançou como menestrel com uma inesquecível modinha:
O Brasil já vai à guerra/ comprou porta-aviões/
um viva pra Inglaterra/ de 82 bilhões/ mas que ladrões!.
Protagonizou um dos raros casos de censura às artes durante
os anos democráticos.
Morte
honrosa. O Minas Gerais foi aposentado em janeiro de 2001. Substituiu-o
o porta-aviões Foch, de 40 anos, comprado da França
por US$ 24 milhões e rebatizado de São Paulo. O velho
Minas Gerais teve de se retirar do mar porque não comporta
mais do que 12 aviões modernos. O São Paulo embarca
30. Nos meses de incerteza sobre o destino do Minas Gerais, sargentos
chegaram a fazer promessa para que virasse museu. Marinheiros acreditam
que navios tenham alma e que as naus do imaginário
popular tenham direito a uma morte honrosa. O encouraçado
São Paulo, da frota de 1910, foi vendido por JK como sucata.
Afundou no Atlântico um pouco antes de ser derretido. O cruzador
Tamandaré há 25 anos também foi vendido como
sucata, sendo a única nave a escapar intacta do ataque a
Pearl Harbor. Os americanos só o chamavam de Lucky Lou (Sortudo
Lou). Haverá delírio na tropa se a alma do Minas
Gerais se recusar a chegar à China, diz o comandante
Celso de Mello Franco. De fato, é longa e tormentosa a travessia
pelo Pacífico até o porto de Zhoushan.
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