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NEGÓCIOS/CAPA


Biô Barreira
No Brasil: Filial fez aporte de capital de US$ 500 mi

Por trás da mudança nos negócios, há uma nova postura dentro da IBM. Por exemplo: a empresa nunca esteve tão aberta a parcerias. Foram mais de duas dezenas desde o começo do ano. Algumas alianças chegam a surpreender. Quem poderia imaginar a fechada IBM sentando à mesa com arqui-rivais como a Compaq ou a Dell? Com a primeira, fez um acordo para desenvolver e revender produtos de armazenamento de dados. Com a Dell, foi uma megaoperação de US$ 16 bilhões em que a Big Blue se torna a fornecedora principal de componentes para computador. A lista de alianças segue com Intel, Nokia, Cisco, Ericsson, AT&T e outros ícones do mundo da tecnologia. O interesse neste caso é na dobradinha Internet–telefonia. Toda essa movimentação é um claro sinal de que as coisas estão mudando dentro da corporação. Durante muito tempo, a IBM insistiu em fazer tudo sozinha e tentar depois vender sua idéia ao resto do mercado. Percebeu, agora, que trabalhar em conjunto com outras empresas facilita, entre outras coisas, a criação de padrões que as demais companhias do ramo possam licenciar e usar. “Estamos acatando definitivamente os padrões abertos. A razão é simples: o patrimônio do cliente não é o computador, mas sim as aplicações”, diz Mitri.

O arquiteto desta mudança na IBM é um senhor discreto, de 58 anos, chamado Louis Gerstner. Ele chegou à companhia em 1993, num período em que a Big Blue vivia uma crise existencial sem precedentes. O próprio Mitri reconhece que era uma fase de rearrumação de identidade muito forte (leia box). Gerstner havia sido contratado junto a Nabisco e quando abriu as portas do QG da IBM ouviu nos corredores algo do tipo: “O que ele faz aqui? Ele entende é de biscoito”. Errado. Gerstner entende de negócio, de relação com cliente, de parcerias, enfim, de tudo aquilo que move uma companhia e a coloca em sintonia com as necessidades de mercado. Era exatamente isto que faltava à Big Blue. A empresa tinha tecnologia de ponta, laboratórios eficientíssimos, teoria em abundância. Faltava alguém para direcionar tanto conhecimento. Lou Gerstner não deixou o bonde on-line passar e também não pegou carona só para fazer o óbvio. Agregou serviços, inventou departamentos. Até uma unidade para desenvolver sistemas de leitura do código genético humano foi inventada. É a Life Sciences. Gerstner fez a corporação enxergar que mainframes (computadores de grande porte) e outros produtos só ganham força se andarem de mãos dadas com a parte de serviços. Ele quis uma IBM pensando no suporte, na infra-estrutura, no e-business. Tanto que algumas unidades, incluindo o Brasil, terceirizaram a produção.

Aqui e nos Estados Unidos, a tarefa foi entregue à Solectron. A empresa é responsável pela montagem e configuração de PCs, servidores e sistemas de automação industrial. “É uma tendência mundial da IBM”, revela Mitri. O primeiro resultado da parceria IBM-Solectron é um produto que casa perfeitamente com esta nova fase: o PC Netvista. Ele permite acesso rápido à Internet, com configurações simples e de fácil utilização.

Enquanto a Solectron cuida da montagem, a IBM investe pesado no fornecimento de tecnologia para a parceira. Gastou US$ 5 bilhões em uma fábrica de chip nos Estados Unidos, e está ampliando a unidade do Japão. “A IBM está em todas as fases do mundo digital”, afirma Mitri. Ainda assim, os pregões reagiram negativamente ao desempenho da companhia. Pouco depois de a IBM divulgar seus resultados, no último dia 19, o preço das ações caiu. A rentabilidade foi aquém das expectativas. “Precisamos melhorar nesse sentido. Talvez por todas as mudanças, o mercado esperasse algo maior em termos de rentabilidade”, comenta o presidente da filial brasileira. “Mas mudar a história de uma companhia de 80 anos e US$ 87 bilhões não é tão simples e instantâneo quanto parece.”

A MUDANÇA SEGUNDO MITRI
O presidente da IBM Brasil, Fernando Mitri, recebeu a reportagem de DINHEIRO na segunda-feira, 30, para falar sobre a nova fase da empresa. Eis os principais trechos:

DINHEIRO – A IBM entra na era dos serviços. Como foi o processo de mudança?
Fernando Mitri –
Esta é uma conquista de Louis Gerstner. Ele assumiu numa fase de rearrumação de identidade da IBM. Havia um movimento grande de reforma tecnológica. A percepção de mercado era de que o pequeno computador era bonito e o grande, feio. A Internet, nesse meio tempo, estava se firmando, trazendo novos concorrentes. A empresa tinha que se posicionar sob a ótica do cliente. E isto foi feito, com investimentos pesados, parcerias e ênfase na tecnologia de informação e no e-business.

DINHEIRO – Pela primeira vez, a empresa começou a fazer parcerias com rivais históricos. Houve uma mudança de postura?
Mitri –
Cobrimos todas as fases do que se pode chamar de mundo digital. Mas, obviamente, existem empresas com tecnologias avançadas e produtos bem aceitos no mercado. Se nos propusemos a fornecer soluções, temos que cobrir todas as brechas.

DINHEIRO: Quanto a IBM Brasil investiu para se adequar à filosofia da matriz?
Mitri –
Fizemos um aporte de capital de meio bilhão de dólares, a serem investidos em fábricas, infra-estrutura e pessoal. Criamos também os consultores móveis. São profissionais dotados de computador portátil e celular que ficam na rua resolvendo os problemas dos clientes. Dentro do laptop, eles carregam uma mini-IBM, com o portfólio dos clientes, produtos, contas a receber, etc.. Este homem informatizado custa US$ 15 mil. No Brasil, temos 600 deles. No mundo, 60 mil.

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