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ENTREVISTA


“Não somos julgadores, não somos FMI. A única coisa que fazemos é avaliar”

DINHEIRO – Um pouco de inflação faz bem?
TRUGLIA –
Não estou falando de inflação fora de controle.

DINHEIRO – O sr. acha então que, mesmo que o novo governo seja formado por políticos de oposição como Lula ou Ciro Gomes, a austeridade nas contas públicas terá que continuar?
TRUGLIA –
Não há outra saída. Não quero falar em nomes. Mas se o próximo governo, qualquer que seja, desejar manter a credibilidade nos mercados financeiros, deverá manter um programa econômico relativamente austero. Esse é o grande desafio. Os investidores podem não entender as características políticas de um país, mas elas entendem o que é taxa de câmbio e de juros. Então, desde que o Brasil mantenha o regime de câmbio flexível e não faça nenhuma mudança radical da política econômica, tudo caminhará bem.

DINHEIRO – Outra crítica que se faz às agências de risco é dar notas iguais a economias completamente diferentes, sem conhecimentos profundos sobre o país com que se está lidando.
TRUGLIA –
Fazendo uma analogia com a vida real: se você não se sente bem, ninguém poderá saber como você está se sentindo. Mas se você for a um médico, ele terá experiência suficiente para diagnosticar seu mal. Nós somos como médicos do crédito. Trabalhamos nisso por tanto tempo e podemos apontar diferenças entre a situação dos países em relação à sua dívida. Nosso trabalho tem um foco muito específico. A nota não é nada mais que a capacidade de pagamento de um país. Mas o que acontece é que as pessoas usam as notas em outros tipos de situações. Elas olham para a nota como um julgamento do país ou uma maneira de ver se uma política está sendo adequadamente implementada. A classificação não é isso. Ter uma nota alta ou baixa significa nossa visão sobre o risco de não-pagamento. As pessoas acabam entendendo isso de forma inapropriada.

DINHEIRO – Não é perverso usar o mesmo diagnóstico para países que podem ter doenças diferentes?
TRUGLIA –
Seria perverso se déssemos o próximo passo, ou seja, o remédio, e isso nós não fazemos. Não dizemos se algo é certo ou errado.

DINHEIRO – Por que as agências são tão influentes?
TRUGLIA –
Nós acabamos substituindo o papel do mercado, involuntariamente. Não somos o mercado. Estão procurando por alguém que represente o mercado, mas não temos a intenção de assumi-lo. Nós somos um participante do mercado, apenas observadores. É como falar como um jornalista. Por isso recebemos críticas de todos os lados: alguns dizem que a nota é muita, e outros dizem que a nota é baixa demais. Nos mercados emergentes, por exemplo, estamos mais otimistas que o mercado.

DINHEIRO – Para a Moody’s, o papel de voz do mercado não é bom para os negócios?
TRUGLIA –
Não queremos atrair essa força, esse tipo de polêmica. Não ganhamos nada com isso. O grande negócio para nós é a avaliação de empresas e não de países.

DINHEIRO – O fato é que a Moody’s tem esse poder da opinião e influencia o movimento do fluxo de capitais.
TRUGLIA –
Nosso foco são os investidores, que prestam atenção nos países e querem ter de volta o dinheiro que investiram. Mas não somos a única referência que eles devem procurar. Eles deveriam ler os relatórios dos bancos de investimento e outras fontes.

DINHEIRO – A Moody’s recomenda essa prática aos clientes?
TRUGLIA –
Sim. Eles deveriam ler e ouvir o que falamos para julgar. Se disser para você que um país tem uma grande dívida e você ignorar, tudo bem. Mas deveria se informar o que está acontecendo ali porque é seu dinheiro. Por isso, deveriam olhar os relatórios de bancos de investimento sediados em outros países. Eu mesmo faço isso sempre. Mas também seria um erro não ouvir o que a agência está dizendo. Podem não concordar, podemos estar errados, mas pelo menos você saberá que dissemos o que pensamos.

DINHEIRO – Os investidores podem procurar outras fontes, mas agências como a Moody’s ainda têm um poder de influência enorme.
TRUGLIA –
Não estamos ligados a outros interesses; é porque temos experiência no negócio. Mesmo depois da crise da Ásia, com as críticas, conseguimos mais clientes. As pessoas pensaram: quem mais pode dizer o que está acontecendo sem a interferência de empresas e governos? Podemos estar errados, mas dizemos o que pensamos.

DINHEIRO – Mas quando uma agência baixa a nota de um país, investidores assustados podem tirar o dinheiro dali.
TRUGLIA –
Esse é um pensamento simplista. O rating não é a única influência sobre os investidores. A última coisa que quero é dar uma receita política para um país. Não somos julgadores, não somos um banco de desenvolvimento, não somos o FMI. A única coisa que fazemos é avaliar os títulos do governo.

DINHEIRO – A Moody’s errou na crise da Ásia. Por quê?
TRUGLIA –
É muito complicado. A Tailândia e a Coréia eram exemplos onde a maior parte dos indicadores estavam bem. Na Tailândia, nós colocamos nosso rating de curto prazo em revisão – apesar de ter deixado o rating de longo prazo inalterado. Quando fizemos isso, fomos criticados pelo então vice-ministro em público. As pessoas diziam que não entendíamos a Ásia. O fato é que a Tailândia tinha US$ 30 bilhões em reservas, que era um colchão grande. Em junho e maio de 1997, para surpresa de todos, o banco central tentou controlar o câmbio e gastou quase todas as reservas. Ficou claro que os US$ 30 bilhões eram muito pouco, e esse foi o choque. No caso da Coréia, o erro foi depositar a maior parte das reservas em seus bancos insolventes.

DINHEIRO – Mas a Moody’s julgou mal e muitos acreditavam na avaliação de vocês.
TRUGLIA –
Não creio que alguém poderia ter feito um trabalho melhor do que nós. Pelo menos, fomos condenados por apontar o potencial de uma crise.

DINHEIRO – Não é o caso de mudar os métodos de avaliação?
TRUGLIA –
Não acho que é o caso de fazer uma mudança radical. Mas acho que é preciso olhar de forma mais conservadora até mesmo os países que estão em boa forma.

DINHEIRO – O sr. Armínio Fraga visitou a Moody’s na semana passada. Qual o assunto tratado na visita?
TRUGLIA –
Não comentamos os assuntos tratados por pessoas que visitam a empresa.

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