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Os reveses no Amelia.com, que ficará apenas como divisão do grupo Pão de Açúcar, não abatem Débora Wright

Ivan Martins

Fotos Ciete Silvério
“Venho da velha economia. Essa história de queimar dinheiro me incomoda muito”

Amélia é que era mulher de verdade – não fazia exigências, não tinha a menor vaidade. Parece uma descrição da poderosa Débora Wright, ex-mulher forte da Kibon e da Parmalat? A resposta, surpreendente, é sim.

Desde o final de julho, quando a direção do grupo Pão de Açúcar decidiu cancelar a emancipação empresarial do portal Amélia, sua principal executiva está tendo de aceitar com paciência muitos reveses, exatamente como a Amélia do samba de Mario Lago. Abriu mão, por exemplo, de uma presumível fortuna em ações, que viria com o lançamento do Amélia na Bolsa de Nova York. O IPO do portal garantiria sua independência econômica aos 42 anos, num patamar elevadíssimo. E sem que o Amélia vire empresa, também a posição de Débora como CEO do portal desmaterializou-se. Agora, depois de ter dirigido um faturamento de US$ 1,5 bilhão e 8 mil funcionários na Parmalat, ela comandará apenas a quinta divisão do Pão de Açúcar, a eletrônica, com cargo ainda não definido. Visto de fora, parece ruim. Visto por Débora, não. “Meu desafio não mudou de tamanho”, diz ela, exibindo a mais afirmativa e sorridente confiança. “Só vou mudar o cartão. A nova situação não me incomoda.”

A nova situação é a seguinte: em vez de portal genérico, que viveria de publicidade, serviços e comércio eletrônico, o Amélia foi redimensionado para ser o ramo virtual do Pão de Açúcar, dirigindo seus esforços para obter lucratividade com comércio eletrônico. “No cenário atual, faz mais sentido ser o braço eletrônico do grupo”, diz Débora. “A estratégia vencedora na Internet é a que une dois mundos, o virtual e o de tijolos.” Os problemas que levam a esse novo cenário são muito claros. O primeiro é a escassez de recursos. Quando o Amélia foi concebido, no final de 1999, a moda eram as empresas de Internet puras, pontocoms financiadas com capital de Bolsa americano. Em abril/maio do ano passado essa idéia começou a fazer água. Débora, que estava conversando com três capitalistas de risco, que fariam o primeiro aporte de capital no Amélia (o chamado primeiro round), sentiu que o gelo estava rachando. “Começamos ali a baixar a bola, cortar gastos e redimensionar os planos”, conta ela. À escassez de capital somou-se a descoberta de que o comércio eletrônico brasileiro ainda não tem volume para manter uma empresa. Ainda que essa empresa seja o Amélia, lançado em maio com cinco anos de experiência e uma base de 150 mil clientes herdada do Pão de Açúcar Delivery. O portal tinha tudo para explodir – inclusive o faustoso investimento em publicidade – mas não explodiu, embora tenha crescido. “O crescimento do negócio não foi tão rápido quanto se imaginou que seria”, concede a executiva.

E agora? Débora explica que se vai apertar o cinto, reduzir os gastos, fechar o foco no comércio eletrônico e tentar antecipar o momento de lucratividade da nova divisão, o chamado brack even. “Nosso negócio é e-commerce”, diz ela. “Quando se abre muito, existe o risco de perder-se o foco.” Os investimentos planejados para este ano (entre R$ 45 milhões e R$ 57 milhões) e 2001 (entre R$ 40 milhões e R$ 60 milhões) foram mantidos pela direção da casa. Mas a executiva acha que não é mais hora de gastar tão rápido, nem tanto. “Venho da velha economia. Não sei queimar dinheiro. Essa história de burn-rate me incomoda muito”, diz ela. É por isso que o Amélia eliminou as redundâncias administrativas com o resto do grupo – perdeu dois diretores – e vai tentar usar ainda mais intensamente as sinergias que se podem obter com as compras e as contas conjuntas de um grande grupo de varejo. Débora assegura que a experiência digital ainda está no topo da lista de interesses da família Diniz. E que ela mesma considera o Amélia um perfeito sucesso: “O que prometemos fazer fizemos bem. Muito bem, aliás.” E para quem acha que está insatisfeita e disponível, avisa: “Não estou no mercado. Quem me conhece sabe que não jogo a toalha tão cedo.” Executiva de verdade, essa Amélia.

 

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