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NEGÓCIOS

EVERARDO MACIEL: “Uma legislação complexa favorece a elisão e a sonegação.”

A dieta forçada do leão
As empresas se livram do pagamento de impostos, recuperam bilhões de reais na Justiça e estimulam o crescimento da indústria da elisão fiscal em todo o País

Estela Caparelli e Joaquim castanheira

Nos últimos anos, enquanto a economia brasileira patinava, uma indústria prosperava indiferente a crises ou recessões. Ela não produz um único parafuso, não promove investimentos milionários, não movimenta outros setores, não gera empregos. Em geral, as únicas engrenagens que coloca em funcionamento são as engrenagens da Justiça. É um tipo de negócio que recebe diferentes nomes: elisão fiscal, planejamento tributário, gestão fiscal, entre outros. Movida a liminares, ações judiciais ou brechas existentes na legislação, se alimenta com o não-pagamento de impostos. Há de tudo nesse mercado – bancas de direito tributário, grandes consultorias empresariais, escritórios de auditoria e contabilidade e até assessorias dirigidas por funcionários da própria Receita Federal. Não há dados consolidados sobre o tamanho desse mercado, mas alguns indicadores dão uma idéia das fortunas geradas por ele:

• Segundo a Receita Federal, todos os anos R$ 825 bilhões ficam livres da incidência de qualquer tipo de imposto. Uma parte significativa disso é resultado do trabalho dessa indústria. Estima-se que os contribuintes reclamam nos tribunais a devolução de R$ 150 bilhões de impostos federais e outros R$ 70 bilhões a R$ 80 bilhões em taxas estaduais e municipais. Desse total, advogados, contadores, consultores e outros profissionais do ramo receberiam uma remuneração média de 10%, ou seja, R$ 22 bilhões.
• Nos últimos 5 anos, a filial brasileira da KPMG, uma das maiores consultorias de gestão do mundo, recuperou para seus clientes R$ 3 bilhões em impostos pagos indevidamente.
• Em 10 anos de atuação, a Oliveira Neves e Associados, de São Paulo, tornou-se a maior banca de direito tributário, com uma carteira de 1.200 clientes e R$ 30 milhões de faturamento anual.

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Essa indústria atua em diversas frentes. Algumas trabalham dentro dos limites estritos da lei – buscam formas legais para que seus clientes paguem menos impostos, o chamado planejamento fiscal, ou recuperem aquilo que entregaram a mais para o Leão, atividade batizada de contencioso tributário. Aqui também nada há de ilegal.

No outro extremo, estão aquelas que vendem o que não podem entregar. Ou seja, é pura fraude. Em março deste ano, João Marcos Cosso, de Ribeirão Preto, teve sua prisão decretada. Motivo: ele teria falsificado uma carta de crédito de ICMS de R$ 722 mil. Até que a carta é bem feitinha, não fosse por um detalhe: o nome do signatário, o secretário da Fazenda de São Paulo, está errado. Em vez de Yoshiaki Nakano, aparece Shiguiaki Nakano. Um outro falsário foi mais cuidadoso com a grafia do nome de Cláudia de Oliveira, diretora-executiva de Administração Tributária, em uma carta de crédito de R$ 200 milhões. Só que há 5 anos o titular do posto é outra pessoa.

Há uma diferença abismal de casos como esses e a atividade de empresas que trabalham de acordo com a lei. Mas ambos prosperam graças à fertilidade de um mesmo terreno: a balbúrdia fiscal do País. Com mais de 50 impostos, guerras fiscais, alterações constantes e carga equivalente a 34% do PIB, a estrutura tributária do País é um prato cheio para essa atividade. “Uma legislação complexa favorece a elisão e a sonegação, que navegam muito bem nas trevas”, diz Everardo Maciel, secretário da Receita Federal. “Mas o que favorece mesmo a elisão é a falta de neutralidade do sistema tributário.” Segundo ele, as regras atuais abrem margem para os contribuintes escolherem opções de pagar menos impostos.

Como acontece em outros setores excessivamente regulamentados, a complexidade dessa teia cria um atraente mercado de trabalho para ex-membros do governo. “É importante conhecer os mecanismos da Receita para atuar nesse setor”, diz Arthur de Biasi, funcionário aposentado da Receita Federal, onde trabalhou durante 22 anos. Hoje, dono de uma empresa de auditoria, De Biasi trabalha apenas com processos administrativos junto à Receita Federal. “Não vamos aos tribunais”, diz ele. Por esse caminho, ele recuperou, de 1996 para cá, R$ 160 milhões pagos indevidamente ao Imposto de Renda. Outros R$ 160 milhões estão em processo de julgamento.

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O Brasil vive uma crise de energia e há riscos de apagões a partir do próximo ano. Deve haver algum tipo de compensação para empresas e consumidores que ficam no escuro? Como seria?

A carga tributária do País aumentou neste ano. O dinheiro arrecadado foi bem utilizado? Por quê?

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