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TESTEMUNHA
DO SÉCULO: Em sua casa, em Cambridge, e no Brasil,
em 1980 (no destaque): A globalização
deve trazer paz
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A
solução de Galbraith
Aos 91 anos,
o maior economista vivo prega o pragmatismo como modelo ideal, desdenha
da Internet e diz que não leva a sério a divisão
do mundo em blocos
Laura
Somoggi, de Cambridge (EUA)
Com
quase 92 anos, o economista John Kenneth Galbraith relativiza
tudo o que é mais alardeado atualmente. Acha um exagero
o papel que o mundo contemporâneo atribui à Internet.
Diz que Alan Greenspan e as taxas de juros são superdimensionados
na cultura popular. Afirma que a globalização não
é tão importante assim. Pelo menos do ponto de vista
da Economia. E não pára por aí. Para ele,
o melhor modelo econômico não é o liberal,
o socialista ou o capitalista. É o pragmatismo. Ele realmente
consegue ver o mundo de outra perspectiva. Fácil entender.
Galbraith viu este século passar e foi um protagonista
dele. Durante a II Guerra Mundial, foi alto funcionário
do governo de Franklin Delano Roosevelt e um dos mentores do New
Deal, plano que fez os Estados Unidos saírem do conflito
como superpotência. No início dos anos 60 voltou
ao poder com a subida de seu amigo John Kennedy à Presidência.
Foi embaixador na Índia entre 1961 e 1963.
Canadense naturalizado americano, formou-se em Agricultura e depois
estudou Economia em três das mais prestigiadas universidades
dos Estados Unidos: Berkeley, Princeton e Harvard, onde começou
a lecionar em 1934. Aposentou-se em 1975 e hoje é professor
emérito da universidade. Autor de 30 livros entre
eles A Era da Incerteza, de 1977, um best-seller mundial
esse senhor de mais de dois metros de altura quase não
recebeu DINHEIRO para esta entrevista. Acamado desde o Natal,
ele inspira meticulosos cuidados de sua mulher, Catherine, que,
ao perceber que a repóter estava gripada, cancelou o encontro.
Diante da insistência, concedeu: Me ligue amanhã,
disse. Se você estiver melhor, poderá vir.
No dia seguinte, debaixo de muita chuva, a reportagem de DINHEIRO
foi até Cambridge, perto de Boston, onde a família
Galbraith vive em um casarão forrado de móveis antigos.
Recostado na cama, o economista lia a prova do livro de um vizinho.
Com uma lucidez invejável para alguém de sua idade,
contou que tem um neto vindo passar alguns meses no Brasil. Ele
quer estudar a Amazônia, disse. Compartilhe desta
rara conversa recheada de análises sensatas e de testemunhos
de um século de Economia.
DINHEIRO
- O sr. acompanha a economia brasileira há pelo menos 40
anos. Como vê o momento que o Brasil está vivendo
atualmente?
JOHN KENNETH CALBRAITH - Eu sempre confiei na economia
brasileira. Ela sempre teve vitalidade, pessoas educadas e, é
claro, muitos recursos naturais. Todos os principais elementos
de uma boa economia. Por outro lado, há sérios problemas
de distribuição de renda, um grande número
de pessoas pobres. Falta também uma maior estabilidade
do governo, há ainda muita insegurança em relação
a suas políticas.
DINHEIRO
- Como ter mais igualdade na distribuição de renda?
CALBRAITH - Eu diria que duas coisas são importantes:
um sistema de tributação mais forte e uma política
econômica em que a estabilidade não seja garantida
às custas dos mais pobres. Crises não podem servir
de desculpa para limitar os benefícios das classes menos
favorecidas. Freqüentemente, pelas políticas internacionais
do FMI, os banqueiros, que são os responsáveis pelas
crises, acabam sendo poupados, e os trabalhadores pagam a conta.
Eu sempre enfatizei a necessidade de um bom sistema tributário.
É importante nos Estados Unidos e no Brasil. Temos sempre
de suspeitar daqueles que tomam decisões econômicas
com base em seus próprios interesses.
DINHEIRO
- Os países devem adotar políticas de controle mais
rígido de fluxo de capitais? Ou as fronteiras devem estar
abertas?
CALBRAITH - Deve haver abertura. Eu gostaria de
ver uma verdadeira economia global. Essa é a base de um
bom relacionamento entre os diversos países. É uma
forma de reduzir os riscos de conflitos políticos e militares.
A vida seria melhor se todos fôssemos cidadãos do
mundo e não apenas cidadãos de um único país.
DINHEIRO
- A equipe econômica brasileira acredita que para o País
crescer necessita de equilíbrio fiscal e estabilidade monetária,
o resto vem depois. O sr. concorda?
CALBRAITH - Não. Eu não seria tão
otimista. A estabilização da moeda é resultado
de outras políticas, como um sistema de tributação
eficiente e uma economia forte. O que, por sua vez, depende de
bons resultados das exportações. E de muito mais.
Não podemos simplificar.
DINHEIRO
- Nos últimos 15 anos, a elite econômica mundial
passou a ter como paradigma o modelo liberal. O que o sr. acha
dele?
CALBRAITH - O modelo liberal varia de país
para país. Um modelo liberal nos Estados Unidos é
diferente de um modelo liberal no Brasil ou em qualquer outro
país. Em alguns países, esse modelo ainda reserva
um forte papel para o Estado. Ele é o responsável
pelos superávits quando a economia vai bem e pelos déficits
de empregos nas épocas ruins, sempre com o objetivo de
estabilizar os efeitos macroeconômicos. Em outros países,
o modelo liberal nada mais é do que diminuir o papel do
Estado na economia. Deixar o máximo de decisões
possível ao mercado. Eu pessoalmente não concordo
com nenhum desses modelos. Sempre acreditei que a questão
é muito mais prática. O modelo não deve ser
guiado por teorias e sim por pragmatismo. Há problemas
que realmente devem ser deixados ao mercado. O Estado não
deve se preocupar com a produção de automóveis
ou com o plantio de comida, entre muitas outras coisas. Mas, por
outro lado, há um importante papel para o Estado: dar suporte
para as pessoas que não têm outra fonte de renda,
ou ainda, olhar com cuidado as decisões econômicas
tomadas pelas empresas privadas. A minha resposta é: não
há modelo social e não há um modelo em que
todas as empresas são absolutamente livres; há uma
acomodação para cada situação particular.
Quando alguns falam em socialismo e outros em capitalismo, acho
que deveríamos dar mais espaço para o que eu chamo
de pragmatismo.
DINHEIRO
- Na sua opinião, qual é a melhor solução
para o problema do desemprego?
CALBRAITH - Essa também é uma questão
que deve ser resolvida na prática, não deve ficar
apenas na discussão teórica. Obviamente, todos querem
o máximo de emprego possível. Queremos economias
que encorajem a produção. Mas é preciso mais
do que isso. Há necessidade de uma política que
impeça que os desempregados morram de fome, que tenham
sua existência assegurada. O grande problema das políticas
atuais é como equilibrar essa rede de segurança
aos desempregados e ao mesmo tempo estimular a iniciativa privada
a criar empregos. É preciso ter as duas coisas. É
por isso que o seguro desemprego não pode ser tão
alto, mas é absolutamente necessário.
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