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JOSÉ
ROBERTO MENDONÇA DE BARROS
“Não
existe risco zero”
O ex-integrante
da equipe econômica de FHC explica por que não se
pode esperar o mundo ideal para reduzir os juros
Ivan
Martins e Fabiane Stefano
O
influente economista José Roberto Mendonça de Barros,
56 anos, mudou de lado. Continua, no atacado, afinado com a equipe
econômica do governo, da qual fez parte como secretário
de Política Econômica da Fazenda na primeira gestão
de Fernando Henrique. No varejo, porém, ele, que sempre
se pautou pela moderação, tem assumido posições
que, se não podem ser descritas como críticas, são
ao menos muito mais ousadas que as do time liderado por Pedro
Malan e Armínio Fraga. Nada denota mais essa diferença
do que a sua insistência na necessidade de crescer
e, por extensão, na inevitabilidade de reduzir os juros
bancários e ampliar o crédito no País. Enquanto
Malan e Fraga têm se pautado por uma atitude de imensa cautela
na condução da política monetária,
o professor da USP e sócio da consultoria MB Associados
vem repetindo que não existe risco zero em economia e que
não se pode esperar por uma situação ideal
para reduzir os juros. Mais do que uma simples aposta, sua posição
baseia-se na certeza de que o crescimento é a conclusão
inevitável do processo de estabilização que
teve início em 1994, com a implantação do
Plano Real. Só o crescimento da produção
e da arrecadação pode conduzir ao ajuste fiscal
permanente que o governo persegue. Ausência prolongada de
crescimento, por outro lado, acentua o risco de desequilíbrios
fiscais que podem, no limite, colocar a perder o esforço
de estabilização como se pode ver, neste
momento, na Argentina. Este, em poucas palavras, o conteúdo
da entrevista que segue. Para concedê-la em seu estilo
sempre afável e conciliador, em tudo contrário ao
do irmão Luiz Carlos José Roberto recebeu
a equipe de DINHEIRO na sede da MB Associados na semana passada.
Eis o resumo da conversa:
DINHEIRO
Como o sr. recebeu a manutenção das taxas
de juros em 18,5%?
JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS Eu
acho que a instabilidade que vem de fora coloca severas limitações
para a queda da taxa de juros a curtíssimo prazo. Não
fiquei surpreso com a decisão. Com este nervosismo do mercado
seria difícil qualquer queda. Acho mesmo que não
seria recomendável. Por outro lado, estou convencido de
que a estabilização só vai se completar quando
a economia voltar a crescer. E para isso é preciso baixar
os juros. Acho que por mais um ou dois meses dá para esticar
com as taxas atuais, mas não dá para evitar por
muito mais tempo as pressões legítimas para voltar
a crescer.
DINHEIRO
De onde viriam os problemas?
MENDONÇA DE BARROS Sobretudo do ajuste fiscal.
Nosso regime fiscal, montado depois de 95, é um regime
de emergência. Os impostos em cascata não são
permanentes. O CPMF era provisório, as vendas de ativos,
a postergação de certas despesas, segurar o salário
dos funcionários públicos... Este é um conjunto
de medidas que se justifica num regime de emergência. Foi
o tripé do Real: tira a inércia inflacionária,
dá uma âncora cambial e mantém a economia
em fogo brando por meio de um programa fiscal restritivo, deflacionário.
Já o argumento da retomada do crescimento é simples:
esses regimes fiscais de emergência, por sua própria
definição, não são sustentáveis
por prazos longos. O que é um regime fiscal permanente?
Entre outras coisas, tem que se basear no aumento da base da arrecadação,
que vem do crescimento. Senão, a única alternativa
é aumentar imposto, aumentar imposto e aumentar imposto.
| "Basta
crescer um pouquinho e o Panzarini, em São Paulo, ri
com a arrecadação" |
DINHEIRO
O que o sr. sugere que se faça?
MENDONÇA DE BARROS É preciso baixar
os juros e voltar a crescer. Este é o cerne da questão.
Se o País voltar a crescer, a parte fiscal começa
a melhorar. Você cresce um pouquinho e o Clóvis Panzarini
(coordenador da administração tributária
do governo de São Paulo) já começa a rir,
porque o aumento da arrecadação alivia muito. E
há vários setores para os quais a economia de escala
é fundamental: quando as vendas aumentam, caem os custos
fixos. O que garantiu a retomada da Coréia além
dos superávits comerciais? Foi baixar os juros. Eles voltaram
rapidinho para 12%. Foi o que puxou a economia. A dúvida
que se coloca para a equipe econômica é a seguinte:
se voltar a crescer não vai voltar a inflação?
Meu argumento é o seguinte: no mundo atual não há
condições ideais. Sempre há desequilíbrio
em algum mercado. Ao invés de postergar a volta de crescimento,
ela deve antecipar, porque é a única forma de fazer
a consolidação da estabilidade.
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