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NEGÓCIOS
A saga dos irmãos Frering
Mário
assume o lugar de Guilherme e dá início a uma
nova fase no Grupo Caemi. Depois da venda do Jari, o objetivo
da empresa é fortalecer o braço minerador que
já fez história no passado
Ricardo
Osmani
| Fotos:
Calé |
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MÁRIO
E GUILHERME: Dias difíceis da transação
no conglomerado passaram
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A
morte de César, o filho, abalou profundamente o império
de Augusto Trajano de Azevedo Antunes, fundador da Caemi.
A tragédia, ocorrida há trinta anos, deu início
à atribulada transição de gerações
no grupo, atual quarto maior exportador de minério
de ferro do mundo. Somente agora, décadas depois, a
sucessão está definitivamente concluída.
E tem um desfecho inesperado. Sem o herdeiro natural, Augusto
Trajano escolheu no início dos anos 90 o neto Guilherme
Frering para sucedê-lo. Engenheiro como o avô,
ele assumiu, solenemente, o comando do grupo bilionário.
O faturamento previsto para aquele ano era de US$ 500 milhões.
Mas o que se seguiu foi um reinado infeliz, com equívocos
e disputas, nos bastidores, com o irmão Mário,
o vice-presidente. Meu avô viu, aos poucos, Guilherme
instalando um clima de autoritarismo inédito na empresa,
queixou-se, pela imprensa, o caçula em 1997. Neste
ano, as contas da Caemi estavam no vermelho. Em 1998, o neto
favorito foi deposto da presidência executiva, dois
anos depois da morte do patriarca, mas permaneceu influente,
no comando do Conselho de Administração do conglomerado.
Na assembléia do último dia 30, porém,
os acionistas decidiram designar Mário para o mais
alto posto do Conselho em substituição a Guilherme.
Este tornou-se um simples conselheiro e o caçula, aos
35 anos, o mais novo Augusto da mineração brasileira.
Pela primeira vez, contado do início do processo de
transição, Mário ocupa um cargo superior
ao do irmão, aquele que fora preparado pelo avô
para representá-lo.
Com vendas que chegam a R$ 1,2 bilhão e patrimônio
avaliado em Bolsa em meio bilhão de reais, a Caemi
encerra uma dramática novela na virada do milênio.
Seu conteúdo teve todos os ingredientes: da tragédia
à cenas de luxúria em Paris, da queda maquiavélica
de profissionais à ascensão inesperada de outros.
O cargo reservado ao requintado Guilherme, 41 anos, que tentou
administrar a empresa de Paris, via satélite, ao lado
da mulher, a socialite Antonia Mayrink Veiga, é hoje
ocupado por um ex-office-boy do avô, o economista Wanderlei
Viçoso Fagundes, carioca de 53 anos. A experiência
não é uma lanterna iluminando para trás,
diz Fagundes em seu gabinete na praia de Botafogo, no Rio,
onde está a sede da empresa. A Caemi chega aos
novos tempos preparada para a disputa, cada vez mais competitiva,
do mundo globalizado.
Nos
trilhos. As contas estão no azul e, ao que parece,
até a paz voltou à relação dos
irmãos, depois da substituição no trono.
Na quinta-feira 13, Guilherme e Mário foram surpreendidos
juntos, na hora do almoço, na Avenida Rio Branco, no
Centro do Rio. Reservados, não quiseram dar declarações
sobre a decisão da última assembléia
dos acionistas. A ata é sucinta: designa Mário,
reelege todos os demais conselheiros, mas silencia sobre os
motivos da mudança. Na Caemi, ninguém quer falar
da troca dos Frering. Alguns apontam como um revezamento
natural no cargo. Mas o que fica claro, na conversa com diretores,
é que os dias difíceis da transição
no conglomerado passaram. A avaliação é
de que já está em prática, e vem sendo
bem-sucedido, o modelo de administração definido
pela empresa para enfrentar a ausência de seu fundador
a principal questão suscitada pela morte de
César. O Doutor Antunes sempre quis profissionalizar
a administração, afirma Fagundes. A
família subiu para o fórum dos acionistas e
adotamos uma forma de funcionar das grandes corporações,
conta.
O
grupo tem hoje reservas de 1,4 bilhão de toneladas
de minério de ferro de mais alto teor do mundo (hematita),
um terminal marítimo, no Rio de Janeiro, para facilitar
as exportações e 35 clientes em 17 países.
Para 2000, é esperado um crescimento nas vendas de
7%, o que elevará para 26,5 milhões de toneladas
o minério de ferro vendido pela Caemi. Em 2004, as
vendas devem chegar a 32 milhões de toneladas. No ranking
mundial dos exportadores, a Caemi ocupa o quarto lugar com
7,8%, atrás da Vale do Rio Doce e das australianas
Hamersley e BHP. O grupo é formado pelas empresas Minerações
Brasileiras Reunidas (MBR); Cadam Caulim da Amazônia;
MRS Logística (proprietária de ferrovias e portos);
e Québec Cartier Mining CO., cujo controle é
compartilhado com a Dofasco, maior siderúrgica integrada
canadense. Recentemente, os irmãos Guilherme e Mário
venderam suas participações no Jari, o ambicioso
projeto de fabricação de celulose, no Pará,
comprado pela Caemi de Daniel Ludwig nos anos 80.
A Caemi encerrou o ano passado com lucros de R$ 62,5 milhões,
muito pouco em relação às pretensões
do grupo. Mas uma reviravolta se comparado ao prejuízo
de R$ 42 milhões de 1996, o auge da administração
Guilherme. O mercado está aprovando a rota adotada
pelo grupo. A Caemi atingiu o fundo do poço no
mercado de ações em 1998, quando chegou a valer
apenas 15% de seu patrimônio, ou seja R$ 96 milhões,
informa Carlos Antônio Magalhães, consultor da
Sirotsky & Associados. O principal marco da recuperação
da empresa ocorreu em 1997. A japonesa Mitsui, a maior trading
de minério do mundo, adquiriu por US$ 200 milhões
40% das novas ações emitidas pela Caemi. Os
japoneses exigiram, no entanto, que a família não
ocupasse a diretoria executiva. Um novo sócio
forte e a administração profissional reverteram
a situação, vem daí a grande valorização
em Bolsa, acrescenta Magalhães. Na quarta-feira,
12, o valor da Caemi no mercado era de R$ 572 milhões
(o patrimônio líquido é de R$ 712 milhões).
A política cambial do País, mais realista, é
outro fator apontado pelo consultor como favorável
ao grupo exportador. Mas o endividamento ainda é
relativamente alto, ressalta. As dívidas de curto
prazo são de R$ 526 milhões e de longo prazo
de R$ 505 milhões.
Os fracassos da gestão de Guilherme Frering, de acordo
com especialistas, são atribuídos à sua
imprevidência. Ele teria ousado demais ao aplicar dinheiro
da lucrativa MBR em projetos inviáveis no Pará,
além de apresentar um estilo desafinado com a austeridade
do avô. Em 1995, quando o velho Trajano reapareceu na
Praia de Botafogo para arrumar a casa, até uma agência
de recrutamento de executivos, a inglesa Spencer Stuart, foi
contratada para sugerir nomes para a presidência. Mas
foi um antigo colaborador, Oscar Augusto Camargo Filho, quem
primeiro assumiu a cadeira vaga, em abril 1998, pelo neto
Guilherme. Dois anos depois, Wanderlei Viçoso Fagundes
está otimista. Há muito tempo não
tínhamos um começo de ano tão positivo,
conta, citando até o aumento do preço do minério
no mercado internacional de 3,5% a 4%. Na medida em
que a Caemi se concentra na mineração e apresenta
uma estrutura gerencial e de acionistas adequada, ela tem
condições de crescer. Ao que tudo indica,
a Caemi entrou novamente nos trilhos. Três décadas
depois, o caçula dos Frering assume o vagão
principal.
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