NEGÓCIOS/ESPECIAL
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| LEMANN:
Gênio das finanças, ele é capaz
de transformar em ouro qualquer negócio |
Até onde vai Lemann
O empresário
da GP Investimentos redireciona seus negócios para
Internet, TV e também entra na onda do parque temático
Hopi Hari
Joaquim
Castanheira
Eu
não entendo nada desse negócio, mas temos de
investir na Internet. Ninguém tem certeza do retorno
financeiro desses investimentos, mas a ausência de nosso
grupo nesse setor chamará mais a atenção
do que nossa presença. Era uma tarde do final
de 1998 e o empresário Jorge Paulo Lemann conversava
com alguns de seus sócios do GP Investimentos, na sede
do grupo, localizada em um moderno edifício na Avenida
Faria Lima, um dos mais efervescentes centros de negócios
de São Paulo.
Começava ali uma virada na trajetória desse
misterioso e polêmico empresário, considerado
por muitos de seus colegas de mercado um gênio das finanças,
uma espécie de rei Midas, capaz de transformar em ouro
qualquer negócio que passe a comandar. Hoje, passado
pouco mais de um ano, é possível constatar que
a afirmação de Lemann continha uma verdade e
um equívoco. É correto que sua ausência
no turbilhão da Internet provocaria surpresa, já
que atualmente em nenhum outro setor da economia corre tanto
dinheiro e Lemann tem um tremendo faro para identificá-lo
e entrar em sua rota. Mas, por outro lado, sua presença
está longe de passar despercebida. Com investimentos
superiores a US$ 80 milhões em 11 diferentes negócios,
o GP Investimentos é o maior investidor em Internet
do mercado brasileiro e um dos maiores na América Latina.
Ao mesmo tempo, abre frente em outros setores. Um de seus
investimentos, em conjunto com o Play Center, foi o parque
temático Hopi Hari.
O lance mais ousado, contudo, até o momento foi o lançamento
do portal iG, um dos primeiros do País a oferecer acesso
gratuito à rede mundial. Lemann e seus sócios,
entre eles o Opportunity, já colocaram ali mais de
US$ 100 milhões e conquistaram até o momento
1,3 milhão de usuários. Na semana passada, numa
concorrida festa em São Paulo, onde se misturaram empresários
e investidores, o iG anunciou uma parceria com a Rede Bandeirantes
e a nomeação de seu presidente, o baiano Nizan
Guanaes, talvez o mais criativo e bem-sucedido publicitário
brasileiro.
Toda essa movimentação cobrou um preço.
Nos dias seguintes, corria no mercado a informação
de que o GP e o Opportunity estariam fazendo uma fusão
com a Bandeirantes, da família Saad. Houve desmentidos
de todos. A televisão e o computador vão
se encontrar, diz Guanaes. Com o acordo, a Bandeirantes
tornou-se acionista do iG. Guanaes não revela
o percentual, mas há quem garanta que a rede de televisão
ficou com cerca de 20% do portal. Nas próximas semanas,
o GP anunciará três novos negócios nessa
área, com um desembolso de US$ 20 milhões. O
GP parece está colocando 10 cavalos no páreo
para ter a certeza de que vai ganhar com um deles, afirma
um analista de mercado que acompanha as atividades do grupo.
Aposta
alta e arriscada, pode-se dizer. Em dois sentidos. Primeiro:
até hoje, os negócios da Nova Economia não
renderam um centavo sequer de retorno aos investidores do
GP. Segundo: trata-se de um teste para o famoso toque
de Midas de Lemann cujas raízes podem
ser encontradas mais no imaginário do mercado do que
na vida real. Na verdade, sua trajetória é
uma sucessão de grandes sucessos e fracassos retumbantes,
diz um executivo de um banco de investimentos. No saldo,
porém, seus sucessos são maiores do que os fracassos
e, daí, cria-se o mito.
Campeão
de tênis. Lemann é um investidor talentoso
e arrojado, mas que, como qualquer ser humano, falha e, quando
falha, falha feio. Os exemplos podem ser encontrados ao longo
de sua trajetória. Nascido há 60 anos no Rio
de Janeiro, filho de pai suíço, Lemann formou-se
em Economia em Harvard e fez pós-gradução
na Suíça. Durante a adolescência e juventude,
dedicou-se com afinco ao tênis. Foi um jogador de primeira.
Sagrou-se campeão carioca e brasileiro. Chegou a disputar
a Copa Davis pela Suíça e pelo Brasil. No início
da década de 70, o esporte foi cedendo espaço
a outra vocação, o mercado de capitais. Sua
estréia nesse ramo coincidiu também com o primeiro
fracasso. Abriu uma financeira para, anos depois, quebrar,
tanto na pessoa jurídica como na física. Um
amigo do pai, Ricardo Haegler, o ajudou a sair da encrenca.
Lemann
não abandonou o setor e criou a Corretora Garantia.
A corretora virou banco e depois começou a fazer investimentos
em empresas de outros setores uma atividade batizada
de private equity, na qual foi pioneiro no Brasil. A tacada
mais certeira foi, sem dúvida, a compra da Brahma,
no final da década de 80. Estagnada e envelhecida,
a cervejaria foi transformada rapidamente em uma empresa modelo
e, há duas semanas, atingiu seu ponto alto com a criação
da AmBev, a partir da incorporação da rival
Antarctica. Uma vitória estrondosa.
Ao longo desse período, Lemann e seus parceiros também
colecionaram diversos tropeços, nos quais o toque de
Midas mostrou-se inócuo. A Artex, indústria
têxtil de Santa Catarina, foi um caso. Pagou US$ 10
milhões, fez três aumentos de capital de US$
50 milhões e, hoje, vale menos do que o investido.
O GP não sabe o que fazer com ela. As Lojas Americanas,
outra de suas tacadas, ainda padece da crise vivida pelo comércio
varejista. É possível considerar que ela seja
vitoriosa já que não teve o mesmo destino de
alguns nomes tradicionais do setor, como a Arapuã e
a Mesbla. Mas também ficou longe da trajetória
ascendente de grupos como a Casas Bahia e o Ponto Frio. Mas
o problema mais sério foi, sem dúvida, o do
Banco Garantia. Depois de anos de bom desempenho, a instituição
não resistiu aos estragos provocados pela quebra da
Rússia, em 1998. Lemann foi obrigado a vendê-lo
para o Credit Suisse First Boston.
Essa
situação marcou profundamente o GP. A partir
daí, o grupo tornou-se definitivamente um administrador
de recursos de terceiros para investimentos em empresas, sobretudo
as de alta tecnologia. Hoje, o GP administra uma dinheirama
superior a US$ 1,3 bilhão, sobretudo de investidores
estrangeiros. Cobra 2% de taxa e fica com uma fatia de 20%
da rentabilidade obtida. Outra mudança significativa
na forma de fazer negócio: o GP tinha o hábito
de enfrentar sozinho paradas como Brahma e Artex. Isso mudou.
Nas novas investidas, o grupo tem outra política, como
mostra Octavio Pereira Lopes, um dos mais jovens sócios
do GP. Tudo começa com uma análise baseada em
alguns critérios pré-definidos (veja o quadro
Os 4 mandamentos de Lemann). Os três
primeiros são classificatórios, diz Lopes.
O último é decisivo.

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