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AMBEV VERSUS CONCORRÊNCIA
Guerra das cervejas
Brahma e Antarctica não fariam melhor. Após tanta
discussão, Cade aprova a AmBev quase sem restrição

Sérgio Lírio

Box 1: Marcel Telles, Brahma
Box 2: Humberto Pandolpho, Kaiser

Foto: Joedson Alves
VITÓRIA ESMAGADORA: Proporcional ao poder de fogo da AmBev no mercado

Tão logo o presidente do Cade, Gesner Oliveira, cercado por um batalhão de fotógrafos e repórteres, anunciou na noite da quinta-feira 30 a autorização para a incorporação da Antarctica pela Brahma, os presidentes das duas empresas, Victorio De Marchi e Marcel Telles, se lançaram a uma comemoração discreta. Em alguns momentos, tentaram até amenizar o resultado, criticando as “restrições pesadas” impostas no relatório aprovado. Não enganaram ninguém. A vitória da AmBev foi esmagadora, proporcional, aliás, ao poder de fogo que terá no mercado. A megacompanhia, com ativos de R$ 8,1 bilhões e 50 fábricas em quatro países, nasceu muito mais musculosa do que os sonhos mais otimistas dos próprios executivos poderiam indicar.

Por quatro votos a favor e um contra, os conselheiros do Cade decidiram ignorar dois pareceres anteriores elaborados no próprio governo, com restrições duras à união entre a Brahma e Antarctica, e optaram por uma solução branda. Em troca do sinal verde à fusão, o órgão de defesa da concorrência ordenou a venda da marca Bavária e cinco fábricas espalhadas pelo País para um único comprador. Além disso, a companhia será obrigada a distribuir os produtos da nova concorrente por quatro anos, sem cobrar pelo serviço. O Cade determinou ainda que a potencial compradora não poderá deter mais de 5% de participação no mercado atual. A decisão exclui a Kaiser e a Schincariol, com fatias respectivas de 15% e 8%, da possível lista de interessados.

Enfim, vitória absoluta da AmBev, tanto pelo que conseguiu como pelo que evitou. A AmBev não terá, por exemplo, de abrir mão da marca Skol, como chegou a ser proposto durante as discussões. Nem tão pouco está proibida de unificar as duas redes de distribuição, outro de seus temores.

Na ótica da burocracia estatal, porém, o resultado revela uma profunda lógica em defesa da livre concorrência. Com a decisão, o Cade permite a criação de uma multinacional brasileira, terceira maior cervejaria do mundo e quinta maior companhia de bebidas. Será, ainda na opinião do Cade, uma corporação capaz de disputar o mercado internacional de cerveja com gigantes do porte das americanas Anheuser-Busch e Miller e da holandesa Heineken – embora os fatos indiquem que esse não é um setor globalizado, mas sim pulverizado por marcas nacionais e até regionais. Os conselheiros do Cade também acreditam que o guaraná Antarctica tenha condições de fazer sombra à Coca-Cola no mercado de refrigerantes.

Ao mesmo tempo, as restrições protegeriam a competição interna. O pacote com a marca Bavária, as cinco fábricas e a distribuição gratuita por intermédio da rede da AmBev, entendeu o Cade, seriam elementos suficientes para garantir a sobrevivência e a expansão de um novo concorrente. A redução de custos anuais da AmBev, estimada em R$ 450 milhões, seria mais um ingrediente para manter os preços competitivos. “As maiores dificuldades para uma nova empresa são os investimentos na marca e na distribuição. É por isso que companhias estrangeiras têm fatias pequenas nos mercados locais”, afirma o presidente do Cade, Gesner Oliveira. “A solução engenhosa que adotamos acaba com essas barreiras. Em quatro anos, a nova concorrente poderá chegar a 20% de participação no setor”, anima-se. A decisão de excluir Kaiser e Schincariol da lista de compradores segue a mesma linha. Segundo Gesner, a existência de quatro companhias com capacidade de competir no mercado se mostrou eficiente. “Queremos remontar esse ambiente”, acrescentou Oliveira.

Como todos os lances dessa fusão, as determinações do Cade causaram reações explosivas. O conselheiro Ruy Santacruz, único a votar contra a fusão, foi enfático: “Essa união causará danos irreversíveis ao mercado e à concorrência. Nenhum ganho de eficiência poderá compensar esses prejuízos”. Para o gerente nacional de vendas da Schincariol, Francisco Martins, as limitações aos possíveis compradores são um abuso. “Esta é uma situação inadmissível numa economia de livre mercado, que defende mecanismos éticos de concorrência”, afirmou em nota oficial. Irritado, o presidente da Kaiser, Humberto Pandolpho, que nos últimos oito meses empreendeu uma cruzada contra a fusão, levantou suspeitas sobre a lisura do julgamento (ver Box). “É vergonhoso. Todo esse julgamento está sob suspeita”, desabafou Pandolpho.

Se a AmBev conseguirá mesmo se tornar um jogador de peso no mercado internacional de cervejas ou será capaz de transformar o guaraná Antarctica num sucesso de vendas no exterior, só o tempo dirá. Fica difícil, no entanto, acreditar que as restrições serão suficientes para restabelecer a concorrência no mercado interno. A Bavária, apesar de lembrada pelos consumidores, é uma marca decadente. Sua participação de mercado, que já chegou a 7%, caiu para 4,2%, de acordo com o instituto Nielsen.

Segundo alguns analistas, a Antarctica, que investiu pesado na imagem da Bavária, tem prejuízo com a marca. Juntas, Kaiser, Schincariol e a nova participante terão, no máximo, 27% do mercado. A AmBev abocanhará 70%, chegando a mais de 90% em alguns Estados, fatia suficiente para ditar preços e determinar a ação da concorrência. O conjunto de fábricas também não chega a ser um negócio da China para quem se dispuser a comprá-lo. Todas as cinco unidades já faziam parte da lista de plantas a serem desativadas pela AmBev. Em alguns casos, como na tradicional fábrica da Antarctica em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, a tecnologia estava ultrapassada. Em outros, os incentivos fiscais concedidos pelos Estados estavam chegando ao fim. Nos primeiros anos, dificilmente a nova companhia usará toda a capacidade instalada, capaz de produzir cerca de 7 milhões de hectolitros (700 milhões de litros). Resultado: será obrigada a comprar ativos que não usará. Mais: nem mesmo os conselheiros do Cade têm idéia de como impedir um boicote ao novo concorrente por parte dos distribuidores da AmBev, já que, por quatro anos, a compradora utilizará a mesma rede de distribuição da supercompanhia. “Eles fizeram um favor para a AmBev. Deram a chance de a empresa reforçar o caixa vendendo fábricas que iam ser fechadas”, diz o diretor da Kaiser, Augusto Parada.

     

 


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