|
O novo dono do cofre
Clóvis Carvalho assume o Desenvolvimento com verba de quase R$
20 bilhões
ALEXANDRE
TEIXEIRA E SERGIO LEO

CARVALHO: "Minha diferença para Lafer é que eu tenho pressa"
(foto: JOEDSON ALVES) |
"Quero o
Calabi", reagiu Clóvis Carvalho, ao receber do presidente Fernando
Henrique a confirmação de que seria o novo ministro do Desenvolvimento.
Carvalho já havia decidido que precisaria de uma pessoa de confiança,
com experiência de governo, na presidência do BNDES - o poderoso
braço financeiro do ministério. Por isso, reivindicou a nomeação
do então presidente do Banco do Brasil, Andrea Calabi. "Mas assim
desvestimos o Banco do Brasil", argumentou FHC. "Isso não é problema.
Posso lhe apresentar três nomes para lá", insistiu o ministro.
No fim, Carvalho ganhou Calabi, mas coube ao ministro Pedro Malan
a indicação do novo presidente do BB. Após uma semana de especulações,
Malan confirmou para o cargo o nome de Paolo Zaghen, até então
diretor do Banco Central. Desse modo, foram entregues a novos
zeladores as chaves de dois dos mais cobiçados cofres da administração
federal, encerrando a briga pelo dinheiro vivo do governo, que
mobilizou políticos e empresários na semana passada.
Carvalho,
Calabi e Zaghen têm um ponto em comum: são técnicos ligados ao
PSDB e trabalharam na equipe econômica do governo Franco Montoro.
Essa origem tucana e paulista não deixou de ser notada e provocou
ciúmes entre os aliados do presidente. Um dos principais desafios
do novo ministro do Desenvolvimento será frustrar as profecias
de que ficará pouco tempo no cargo - e de que a pasta continuará
sendo de fachada. Clóvis Carvalho assume o ministério para "acelerar
o processo de desenvolvimento", como ele próprio definiu, em entrevista
à DINHEIRO. Seus próximos passos mostrarão se essa não é apenas
a mais nova promessa do governo, que, desde o início do segundo
mandato, anuncia a opção pela retomada do crescimento econômico.
Carvalho participou da escolha do seu substituto na Casa Civil,
Pedro Parente - nomeado na expectativa de que, na coordenação
administrativa do governo, não dê as costas para os planos de
investimento sonhados para o BNDES. Com auxiliares da equipe econômica
espalhados em postos-chave, o presidente prometeu empenho no plano
desenvolvimentista.
E que plano
seria esse? Ainda não está totalmente desenhado, mas o novo ministro
diz que as palavras-chave são "acelerar o processo" com "restrições
orçamentárias" através da "busca de oportunidades". A principal
missão de sua pasta é catapultar as exportações para o patamar
de US$ 100 bilhões. A atuação será intensa em 12 áreas, como caminho
para alcançar esse objetivo: da tributação a logística dos portos
e os gargalos de fornecedores. Segundo o ministro, a principal
diferença em relação ao seu antecessor, Celso Lafer, é a pressa
em atingir resultados. Carvalho fez parte das primeiras discussões
dos planos de incentivo à exportação e levou consigo, do Planalto
para o Desenvolvimento, a Câmara de Comércio Exterior (Camex).
Vai pilotar um caixa generoso de quase R$ 20 bilhões. Com todo
esse gás, só resta esperar que, no gabinete de Fernando Henrique,
a pauta desenvolvimentista de Carvalho possa ganhar peso em relação
às preocupações contábeis de Malan e Parente. Do mesmo modo, Calabi
assume o BNDES - um dos maiores bancos de fomento do mundo, com
mais de R$ 60 bilhões em ativos e R$ 17 bilhões disponíveis para
financiamentos - apostando em que sua intimidade com a equipe
econômica facilitará o trabalho no banco. "Temos condições de
fazer um trabalho de estímulo às empresas compatível com as restrições
orçamentárias", disse à DINHEIRO. "Sabemos onde buscar espaços."
A engenharia
de Fernando Henrique pôs tucanos de confiança em cofres desenvolvimentistas,
mas teve de ceder às pressões dos aliados em outras importantes
torneiras de dinheiro federal. As vultosas verbas para saneamento
e habitação ficaram com Ovídio de Ângelis, no Ministério de Política
Urbana. Os quase R$ 3 bilhões anuais disponíveis nos fundos de
desenvolvimento da Amazônia, do Nordeste e do Centro-Oeste estarão
abrigados no Ministério da Integração Nacional, do senador peemedebista
Fernando Bezerra. Nesse setor, o presidente criou um foco de tensão
que levanta dúvidas sobre a futura harmonia do ministério. Bezerra
exigiu comandar a destinação dos projetos desses fundos. Mas Malan
conseguiu manter em seu poder os bancos regionais encarregados
de repassar o dinheiro desses programas. Espera-se, em Brasília,
o momento em que Bezerra tentará influir de fato na destinação
das verbas dos fundos. Outra incógnita é o futuro do Banco do
Brasil. O motivo da inquietação é Paolo Zaghen, o autêntico italiano
do trio de ítalo-brasileiros que agora comanda os bancos estatais
brasileiros - os outros são Calabi e Emílio Carazzai, da Caixa.
No BC, Zaghen era o responsável pelo programa de privatização
dos bancos estaduais. Por isso, ele não tem feito outra coisa
que não repetir que sua nomeação não é indício da iminente privatização
do BB. Deve ser verdade, já que FHC sempre excluiu o BB de seus
planos de privatização. Mas que as orelhas estão em pé, estão.
|