28 de julho de 1999  

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O novo dono do cofre

Clóvis Carvalho assume o Desenvolvimento com verba de quase R$ 20 bilhões

ALEXANDRE TEIXEIRA E SERGIO LEO

CARVALHO: "Minha diferença para Lafer é que eu tenho pressa"
(foto: JOEDSON ALVES)

"Quero o Calabi", reagiu Clóvis Carvalho, ao receber do presidente Fernando Henrique a confirmação de que seria o novo ministro do Desenvolvimento. Carvalho já havia decidido que precisaria de uma pessoa de confiança, com experiência de governo, na presidência do BNDES - o poderoso braço financeiro do ministério. Por isso, reivindicou a nomeação do então presidente do Banco do Brasil, Andrea Calabi. "Mas assim desvestimos o Banco do Brasil", argumentou FHC. "Isso não é problema. Posso lhe apresentar três nomes para lá", insistiu o ministro. No fim, Carvalho ganhou Calabi, mas coube ao ministro Pedro Malan a indicação do novo presidente do BB. Após uma semana de especulações, Malan confirmou para o cargo o nome de Paolo Zaghen, até então diretor do Banco Central. Desse modo, foram entregues a novos zeladores as chaves de dois dos mais cobiçados cofres da administração federal, encerrando a briga pelo dinheiro vivo do governo, que mobilizou políticos e empresários na semana passada.

Carvalho, Calabi e Zaghen têm um ponto em comum: são técnicos ligados ao PSDB e trabalharam na equipe econômica do governo Franco Montoro. Essa origem tucana e paulista não deixou de ser notada e provocou ciúmes entre os aliados do presidente. Um dos principais desafios do novo ministro do Desenvolvimento será frustrar as profecias de que ficará pouco tempo no cargo - e de que a pasta continuará sendo de fachada. Clóvis Carvalho assume o ministério para "acelerar o processo de desenvolvimento", como ele próprio definiu, em entrevista à DINHEIRO. Seus próximos passos mostrarão se essa não é apenas a mais nova promessa do governo, que, desde o início do segundo mandato, anuncia a opção pela retomada do crescimento econômico. Carvalho participou da escolha do seu substituto na Casa Civil, Pedro Parente - nomeado na expectativa de que, na coordenação administrativa do governo, não dê as costas para os planos de investimento sonhados para o BNDES. Com auxiliares da equipe econômica espalhados em postos-chave, o presidente prometeu empenho no plano desenvolvimentista.

E que plano seria esse? Ainda não está totalmente desenhado, mas o novo ministro diz que as palavras-chave são "acelerar o processo" com "restrições orçamentárias" através da "busca de oportunidades". A principal missão de sua pasta é catapultar as exportações para o patamar de US$ 100 bilhões. A atuação será intensa em 12 áreas, como caminho para alcançar esse objetivo: da tributação a logística dos portos e os gargalos de fornecedores. Segundo o ministro, a principal diferença em relação ao seu antecessor, Celso Lafer, é a pressa em atingir resultados. Carvalho fez parte das primeiras discussões dos planos de incentivo à exportação e levou consigo, do Planalto para o Desenvolvimento, a Câmara de Comércio Exterior (Camex). Vai pilotar um caixa generoso de quase R$ 20 bilhões. Com todo esse gás, só resta esperar que, no gabinete de Fernando Henrique, a pauta desenvolvimentista de Carvalho possa ganhar peso em relação às preocupações contábeis de Malan e Parente. Do mesmo modo, Calabi assume o BNDES - um dos maiores bancos de fomento do mundo, com mais de R$ 60 bilhões em ativos e R$ 17 bilhões disponíveis para financiamentos - apostando em que sua intimidade com a equipe econômica facilitará o trabalho no banco. "Temos condições de fazer um trabalho de estímulo às empresas compatível com as restrições orçamentárias", disse à DINHEIRO. "Sabemos onde buscar espaços."

A engenharia de Fernando Henrique pôs tucanos de confiança em cofres desenvolvimentistas, mas teve de ceder às pressões dos aliados em outras importantes torneiras de dinheiro federal. As vultosas verbas para saneamento e habitação ficaram com Ovídio de Ângelis, no Ministério de Política Urbana. Os quase R$ 3 bilhões anuais disponíveis nos fundos de desenvolvimento da Amazônia, do Nordeste e do Centro-Oeste estarão abrigados no Ministério da Integração Nacional, do senador peemedebista Fernando Bezerra. Nesse setor, o presidente criou um foco de tensão que levanta dúvidas sobre a futura harmonia do ministério. Bezerra exigiu comandar a destinação dos projetos desses fundos. Mas Malan conseguiu manter em seu poder os bancos regionais encarregados de repassar o dinheiro desses programas. Espera-se, em Brasília, o momento em que Bezerra tentará influir de fato na destinação das verbas dos fundos. Outra incógnita é o futuro do Banco do Brasil. O motivo da inquietação é Paolo Zaghen, o autêntico italiano do trio de ítalo-brasileiros que agora comanda os bancos estatais brasileiros - os outros são Calabi e Emílio Carazzai, da Caixa. No BC, Zaghen era o responsável pelo programa de privatização dos bancos estaduais. Por isso, ele não tem feito outra coisa que não repetir que sua nomeação não é indício da iminente privatização do BB. Deve ser verdade, já que FHC sempre excluiu o BB de seus planos de privatização. Mas que as orelhas estão em pé, estão.

 
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