O resgate de R$ 2 bilhões Como a Camargo Corrêa vai movimentar uma montanha de dinheiro ao vender suas ações da Itaúsa, a holding do Itaú Unibanco e da Duratex
Milton Gamez

O que acontece quando dois titãs do mundo dos negócios são sócios de longa data e não se entendem mais? Como num casamento antigo em que o amor acaba, é hora de fazer a partilha dos bens. Se há uma montanha de dinheiro e muito poder em jogo, é aí que começa a confusão. Um pequeno anúncio de jornal, publicado na quarta-feira 25, confirmou rumores de que o processo de separação do grupo Camargo Corrêa e das famílias Setubal e Vilella, sócios na holding financeira e industrial Itaúsa, não está sendo fácil. Nem um pouco.
O Camargo Corrêa publicou um fato relevante no qual recusa as condições de saída oferecidas pela Itaúsa. O grupo é dono de 11,4% das ações ordinárias (com direito a voto) da empresa que controla o Itaú Unibanco, a Duratex, a Elekeiroz e a Itautec e tem ativos de R$ 620 bilhões. Em tese, essa participação vale pelo menos R$ 2,2 bilhões, a julgar pelas cotações na Bovespa na última quinta-feira. A proposta dos atuais controladores é permitir aos minoritários a conversão das ações ordinárias em preferenciais - que são mais negociadas -, desde que o fator de troca seja, no máximo, 1:1 (uma ordinária para cada preferencial). Isso permitiria uma venda mais rápida em bolsa dos papéis do Camargo Corrêa, caso este preferisse negociar aos poucos na bolsa.
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O problema é que esta proposta não faz sentido para um sócio minoritário de peso, que deveria, em princípio, receber um prêmio por sua fatia e resgatar uma montanha de dinheiro proporcional ao poder de voto que ela confere. "A relação de troca proposta não reflete o valor intrínseco das ações", reclamaram os executivos Armando Sérgio Antunes da Silva e Marcio Garcia de Souza, que assinaram o documento enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Eles estão certos, avalia o professor de finanças da Brazilian Business School, Ricardo Torres. Dependendo de quem comprar, a fatia poderia desequilibrar o controle da companhia. Hoje, a empresa não faz diferença e nem influencia a estratégia da holding. "Sozinho, o Camargo Corrêa não manda nada na Itaúsa, mas 11% é um poder de voto muito forte", diz ele. "Se um dos atuais acionistas comprar, poderia acirrar uma disputa interna e o controle poderia mudar de um lado para o outro", afirma Torres, que defende um ágio de pelo menos 25% "para começar a conversa".
No momento, parece improvável uma disputa de poder entre as famílias Setubal e Villela, que têm sabido compartilhar os negócios há décadas e aceitaram recentemente um novo sócio relevante no Itaú Unibanco, o banqueiro Pedro Moreira Salles.
Mas quem é que garante a paz no futuro, com as próximas gerações? E se um comprador belicoso entrar no negócio e semear a discórdia? Na tentativa de valorizar seu quinhão, o Camargo Corrêa afirmou ainda que "continua avaliando estratégias para aumentar sua participação no capital social ordinário da Itaúsa ou outras composições que possam resultar em maior valorização das ações".
Enquanto era redigido o fato relevante, na quarta-feira 25, cada ordinária da Itaúsa valia R$ 11,30 na Bovespa, pouco acima dos R$ 11,15 das preferenciais.
Se não aparecer um comprador ameaçador, a Itaúsa de Milu Villela continuará a agir como se o problema não fosse dela e o Camargo Corrêa irá pressionar por uma venda mais favorável. O fato é que o grupo, presidido por Vitor Sarquis Hallack, precisa do dinheiro, pois tem um plano de investimentos de R$ 26,9 bilhões até 2013 e quer investir no próprio negócio. "Eles têm melhores opções de investimento do que a Itaúsa.
Se eu fosse eles, teria vendido, apesar de o preço causar raiva nos minoritários", afirmou um grande investidor à DINHEIRO. Além de atuar nos setores de engenharia e construção civil, o conglomerado possui empresas de têxteis e calçados, siderurgia, concessões de transportes e incorporações imobiliárias. Sua relação com a Itaúsa será eterna enquanto durar, mas um dia irá acabar.
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